terça-feira, 28 de outubro de 2008

O Amante



Li “ O Amante” da Marguerite Duras, há já muitos anos e revisito-o de vez em quando numa leitura em cruz de algumas passagens, devido a sensualidade a precisão cirúrgica com que ela narra esta história.

Fiz essa primeira leitura quando ainda não havia o filme e ainda bem!Não acho que o filme consiga apanhar o espírito do livro, porque quase não há acontecimentos, nem acção.


O enredo situa-se numa descoberta de emoções, de vivência de sentimentos que nasce como um manancial, no interior de cada personagem. O livro está escrito na primeira pessoa como se fosse uma confissão dolorosa arrancada da memória da autora.

« Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. É a passagem de uma barcaça no Mékong. A imagem dura toda a travessia do rio.»


« Trago um vestido de seda natural,usado, quase transparente. É um vestido sem mangas muito decotado(...) Nesse dia, devo trazer esse famoso par de saltos altos de lamé dourado(...). Não são os sapatos o que há de insólito, de extraordinário, nesse dia, na aparência da garota. O que há nesse dia é que a menina traz na cabeça um chapéu de homem de abas direitas ( ...) A ambiguidade determinante da imagem está neste chapéu.»

Ela uma adolescente branca e pobre, de 15 anos que descobre o poder do seu corpo e a sua sensualidade.


« Na limusina há um homem muito elegante que me olha. Não é branco. Está vestido à europeia, usa o fato de seda claro dos banqueiros de Saigão. Olha-me. Estou habituada a que me olhem.»


Ele, chinês e rico, mais velho e mestre do amor. Desenganem-se se pensam que ela é a vítima dele, que foi seduzida pelo homem mais velho.


« Desde o primeiro instante ela sabe qualquer coisa deste género, ou seja que ele está à sua mercê. Logo que outros além dele poderiam também ficar à sua mercê, se a oportunidade surgisse.»


Ela tem o poder da inocência, ela quer descobrir o prazer físico, ela não quer dele o amor mas apenas a paixão.Ele, enreda-se no amor pela diferença desta criança mulher, mima-a, acarinha-a, ensina-a, morre de prazer e deixa-se devorar na teia do desprendimento dela.Anos mais tarde, de visita a Paris, ele não resiste e telefona-lhe.

« E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes,que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.».


É assim que termina o livro.


Mas no meio deste romance surgem como alucinações as relações e sentimentos dela com a mãe, com os irmãos, as recordações.


Uma das imagens que me surge imensas vezes ao espírito a propósito das coisas mais variadas, e que me marcou imenso, não sei porquê, é a descrição que ela faz de uma das casa que habitou. Elevada por causa das inundações do Mékong e das monções, à mãe dava-lhe para a lavar de ponta a ponta e esfregá-la com sabão amarelo.


« A elevação da casa acima do solo permite lavá-la com grandes baldes de água, banhá-la como um jardim. Todas as cadeiras estão em cima das mesas, a casa toda escorre, o piano do salão pequeno tem os pés dentro de água (...) e depois ensaboa-se a casa com sabão amarelo. (...) Toda a casa está perfumada, tem o cheiro delicioso da terra molhada depois da tempestade, é um cheiro que nos põe doidos de alegria, sobretudo quando se mistura com o outro cheiro, o do sabão amarelo, o da pureza, da honestidade, da roupa branca, da brancura, da nossa mãe, da imensidão da candura da nossa mãe(...) que se pode ser feliz nesta casa desfigurada que de repente se transforma num charco, num campo à beira de um rio, um vau, uma praia.»







Marguerite Duras (na foto com 15 anos) nasceu em Gia Dinh, na Indochina (agora Vietnam), em 1914, onde passou a infância e a adolescência. A autora irá ficar profundamente marcada pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa, frequentemente referidas na sua obra literária.Duras publica os seu primeiros livros em 1943 e 1944, «Os Imprudentes» e «A Vida Tranquila», respectivamente. A partir de 1959 começa também a escrever argumentos para o cinema, dos quais «Hiroshima meu amor» é sem dúvida o mais conhecido e marcante. Em 1950, com «Uma barrangem conhtra o Pacífico», Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. É no entanto apenas 30 anos depois que a injustiça lhe é reparada, ganhando o prémio por unanimidade com o romance «O Amante».



Podem ler aqui no blogue da Noémia.

6 comentários:

Isabel disse...

Li Marguerite Duras ainda adolescente graças à minha irmã que me passava os livros. O Amante ainda está bem presente na minha memória. Muito bom.

S. Marina disse...

nao resisto, normalmaente passo por aqui e por ali silenciosamente, mas este livro despertou-me um torbulhao de emoçoes.
adoerei, vi o filme, gostei muito, gostei da voz da narradora pausada e da pronuncia.
nesse filme nao é preciso que haja acçao ha as emoçoes,os sentimentos. devia ser pela minha tenra idade mas fez-me viver intensamente um amor estranho, uma face diferente do amor, que nao esta dentro do sonho romantico do casaram e viveram felizes para sempre.
e tao pouco, por isso perde intencidade.
gostei tanto que me procurei por todo o lado procurei o livro. nao encontrei, nem a venta nem na bliblioteca em portugues!!! mas como era mesmo isso que queria procurei e procurei ate que encontrei em frances!!!!
li com prazer, a escrita facilitou, periodos curtos frases que deixam espaço para que a mente e a imaginaçao de cada um as completem, as assimilem, as interiorizem completamente.
mais tader voltei a ver o filme, nao era tudo aquilo que tinha sentido enquanto adolescente, faltavam partes, faltavam cenas.sera que fui eu que as construi depois de ler o livro?
nao creio. sao muito vividas.

Noémia disse...

Isabel,ler o livro enquanto adolescente deve dar uma perspectiva diferente da história porque é tudo tão intenso...
Eu não tive essa sorte,S.Marina,li-o já era adulta.Talvez por isso tenha vivido as pausas e aquela relação de uma maneira diferente. No entanto reencontrei na adolescente de 15 anos, na sua atitude desafiadora, muito de mim própria e da rebeldia que tinha nessa idade.

borboleta africana...é um peixe disse...

Adorei este livro mas também o achei profundamente triste.

Noémia disse...

Tens razão borboleta,perpassa por toda a narrativa uma nostalgia e um fatalismo triste!

Nina disse...

Gosto muito deste livro, que li pela primeira vez muito jovem.

Ainda hoje, passados muitos anos, me vem sempre à memória uma frase:

"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais".

Comigo aconteceu o mesmo. Penso muitas vezes nas escolhas que fiz, e nos caminhos tortos que elas me levaram.

http://meninadecachos.blogspot.com