segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O pecado de Darwin


Mesmo tendo estado em casa demorei mais de três meses a ler este livro. Não é que não gostasse dele mas durante o dia tinha outras coisas para fazer e quando me ia deitar dava-me o sono e acabava por não o ler. Agora com as viagens de comboio voltei às leituras, terminei este e já estou quase a acabar o Sétimo Selo. O facto de admirar o trabalho de Darwin fez com que gostasse deste livro, das revelações feitas e de toda a história que envolve a vida do naturalista. Aproveito para participar com mais um livro na Academia dos Livros.


O Pecado de Darwin, de John Darnton


“O Pecado de Darwin leva-nos à Inglaterra Vitoriana para nos revelar os segredos que rodeiam a vida e a obra do cientista britânico Charles Darwin, num romance que, além de combinar harmoniosamente factos históricos e ficção, responde a questões como: o que levou Darwin a formular a teoria da evolução? Porque demorou vinte e dois anos a publicar A Origem das Espécies?
Ao longo desta obra, Darnton reescreve a verdadeira história de Darwin sob três perspectivas diferentes: a do próprio explorador enquanto jovem, a da sua filha Lizzie e a dos investigadores Hugh Kellem e Beth Dulcimer, cuja obsessão pelo naturalista (e um pelo outro) os leva muito além de uma mera investigação académica. Ao descobrirem os diários e as cartas de Lizzie, Hugh e Beth encontram um capítulo oculto da bibliografia de Darwin, que vai revelar inúmeros segredos, no quais reside o nascimento da teoria da evolução.”

Pode ler aqui no blog da Carla.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Operário em Construção

Conhecem Vinicius?
Ele vive nas músicas e nas palavras que deixou. Nunca ninguém cantou o amor como ele! Nas paixões, desilusões, angústias e alegrias. Vinicius é um artista completo, ele usa as palavras e a música como forma de demonstrar o que lhe vai na alma. As palavras destilam sentimentos, promovem sensações, provocam pensamentos!
Vinicius é um vício bom, seja na música ou na poesia. Deleitem-se com as palavras e com os vídeos. Ficam aqui alguns dos meus sonetos favoritos e o poema "O Operário em Construção" que dá nome ao livro.

Soneto de Separação






De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Soneto do amor total




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afin, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


O Operário em Construção 1ª parte





O Operário em Construção 2ª parte







Era ele que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas se fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela casa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer sua profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia nada no mundo
Coisa que fosse mais bela
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
«... Convençam-no» do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!


Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.


Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão


Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Evangelho segundo Jesus Cristo

De José Saramago não há muito a dizer; paradoxalmente amado e reconhecido ou desprezado e ignorado, faz parte com Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Miguel Torga de um ínclito grupo de enormes Autores Portugueses. Pois e ganhou o Nobel.

Com Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço faz parte de um grupo de ilustres Portugueses que não quis viver em Portugal…
Como Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Milan Kundera ou Ernest Hemingway marcou de uma forma profunda a literatura do século XX.

Há outros grandes escritores na história da literatura? Claro que há, era o que faltava.

Assim, o que torna Saramago tão especial? Uma assombrosa Cosmogonia? Uma apurada reflexão sobre assuntos incómodos à maioria das pessoas? Uma desassombrada morfologia linguística que poupa virgulas e pontos finais ao ponto de deixar o leitor sem respiração? Como dizia o meu Professor de História do 6º ano: “não só, mas também”…

Efectivamente, confesso que a sua Cosmogonia me perturba menos que a de Bóris Vian ou a de Pier Paolo Pasolini. Ou mesmo a de Woddy Allen ou Patricia Highsmith. Ou se quiser recuar uns anos, à de Ludwig Van Beethoven. Ou mesmo à de Manoel de Oliveira ou Agustina Bessa Luís. E será assim tão incómodo? Talvez, mas a quem já leu Franz Kafka ou Georges Bataille ou Henry Miller ou o Marquês de Sade ou mesmo E. G. Wells não incomodará por aí além. Ou para quem leu Nietsche… E o ritmo alucinante das narrativas? Basta ouvir o “movimento perpétuo” de Carlos Paredes para se poder ouvir/ler o discurso de Saramago.


E já agora, porquê esta Obra? Não seria eventualmente mais confortável falar d’o Memorial do Convento, essa obra maior da nossa literatura, ou d’o Ensaio sobre a cegueira, ainda por cima agora recriada em filme por Fernando Meirelles? Claro que sim, mas a tentação de Saramago de reflectir sobre uma personagem que marcou de uma forma tão profunda a nossa história nos últimos vinte séculos deve ter sido tudo menos estimulante. Desde os Concílios Medievais que “fabricaram” a Bíblia Sagrada até às reflexões sobre a história do Cristianismo ou mesmo obras de referência do século passado, temos uma grande panóplia de obras sobre a figura de Jesus Cristo, muitas delas produzidas no século passado (tempo a que não serão alheios os estudos sobre o Santo Sudário ou as aparições Marianas – aliás, a Virgem Maria é figura central na teologia do século XX). Nikos Kanzantzakis escreveu uma grande obra sobre Jesus Cristo e levada à tela por Martin Scorcese (“a última tentação de Cristo”, com Willem Dafoe, Harvey Keitel e Barbara Hershey, realizado em 1998); se Mel Gibson (“a paixão de Cristo”) também quis apresentar a sua “reflexão”, para não falar da soberba “Ópera-Rock” Jesus Christ Superstar, de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber também “convertida” em filme, o que poderia impedir um grande Escritor de escrever um “Evangelho” - apócrifo – e neste “mostrar” a sua Magna personagem?


Provavelmente nada…


E, José Saramago, como grande escritor universal, que transcende mesmo o seu tempo, apresenta-nos neste Evangelho uma visão intemporal e muito própria sobre Jesus Cristo, perturbante e genial, para ser lida com a abertura intelectual de quem não se importar de manter a Bíblia Sagrada ao lado e eventualmente alternar a leitura… afinal de contas estamos a falar de uma das figuras mais importantes, perturbantes e eventualmente a mais incontornável da nossa Civilização.

E o grande Saramago, a páginas 283 a 285 da primeira edição da Caminho relata desta forma extraordinária o encontro com Jesus e Maria de Magdala, um dos mais perturbantes “encontros” para a Teologia da Igreja Católica Romana:


“Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir que o aliviasse das dores e curasse as chagas que, mas isso não o sabia ela, tinham nascido noutro encontro, no deserto, com Deus. Deus dissera a Jesus, A partir de hoje pertences-me pelo sangue, o Demónio, se o era, desprezara-o, Não aprendeste nada, vai-te, e Maria de Magdala, com os seios escorrendo suor, os cabelos soltos que parecem deitar fumo, a boca túmida, olhos como de água negra, Não te prenderás a mim pelo que te ensinei, mas fica comigo esta noite. E Jesus, sobre ela, respondeu, O que me ensinas, não é prisão, é liberdade. Dormiram juntos, mas não apenas essa noite. Quando acordaram, já manhã alta, e depois de uma vez mais os seus corpos se terem buscado e achado, Maria foi ver como estava a ferida do pé de Jesus, Tem melhor ar, mas não devias ir ainda para a tua terra, vai-te fazer mal o caminho, com esse pó, Não posso ficar, e se tu mesma dizes que estou melhor, Ficar, podes, a questão é que tenhas a vontade, quanto à porta do pátio, estará fechada por todo o tempo que quisermos, A tua vida, A minha vida, nesta hora, és tu, Porquê, Respondo-te com as palavras do Rei Salomão, o meu amado meteu a mão pela abertura da porta e o meu coração estremeceu, E como posso ser o teu amado se não me conheces, se sou apenas alguém que te veio pedir ajuda e de quem tiveste pena, pena das minhas dores e da minha ignorância, Por isso te amo, porque te ajudei e te ensinei, mas tu a mim é que não poderás amar-me, pois não me ensinaste nem ajudaste, Não tens nenhuma ferida, Encontrá-la-ás se a procurares, Que ferida é, Essa porta aberta por onde entravam outro e o meu amado não, Disseste que sou o teu amado, Por isso a porta se fechou depois de entrares, Não sei nada que possa ensinar-te, só o que de ti aprendi, Ensina-me também isso, para saber como é aprendê-lo de ti, Não podemos viver juntos, Queres dizer que não podes viver com uma prostituta, Sim, Por todo o tempo que estiveres comigo, não serei uma prostituta, não sou prostituta desde que aqui entraste, está nas tuas mãos que continue a não o ser, Pedes-me demasiado, Nada que não possas dar-me por um dia, por dois dias, pelo tempo que o teu pé leve a sarar, para que depois se abra outra vez a minha ferida, Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais não te farão diferença, ainda és novo, Tu também és nova, Mais velha do que tu, mais nova que a tua mãe, Conheces a minha mãe, Não, Então porque disseste, Porque eu nunca poderia ter um filho que tivesse hoje a tua idade, Que estúpido sou, Não és estúpido, apenas inocente, Já não sou inocente, Por teres conhecido mulher, Não o era já quando me deitei contigo, Fala-me da tua vida, mas agora não, agora só quero que a tua mão esquerda descanse sobre a minha cabeça e a tua direita me abrace.”


E Jesus e Madalena são aqui “perdoados”, num discurso sublime… Jesus e Maria aparecem aqui muito mais humanos que na Liturgia.


É preciso mais para ler ou reler este livro fantástico?


Podem ler aqui no blog do Cupido.

A herança de Eszter



Já que ando numa de livros pequenos em tamanho mas grandes em qualidade, aqui fica outro que li a seguir ao A Morte de Ivan Ilitch que se enquadra nessa categoria:
A Herança de Eszter - de Sándor Márai.
Sándor Márai, escritor húngaro de quem já falei aqui sobre outro livro que li dele, Rebeldes, traz-nos esta pequena história de um amor mal resolvido e de uma separação de mais de 20 anos.
Eszter, apaixonada por Lajos, um homem sem escrúpulos, vigarista, ambicioso e mentiroso, que casou com a irmã mais velha dela, está há mais de 20 anos sem o ver e sem ter notícias dele, vivendo pacatamente na sua casa de família apenas com uma tia mais velha como companhia, até ao dia em que recebe um telegrama a avisa-la da chegada de Lajos.
A partir daí vem ao de cima todo um conjunto de emoções, dúvidas e certezas acerca do seu amor por lajos e por tudo o que passou nesses 20 anos devido a ele.
Com a chegada de Lajos, com os seus filhos e mais dois estranhos acompanhantes inicia-se um desfilar de conversas, de situações contraditórias, desabafos, descobertas surpreendentes e outras mentiras, terminando com a "queda" de Eszter nas "garras" de Lajos sendo enganada novamente, embora com plena consciência e permissão dela para isso, apesar dos avisos dos amigos mais chegados.
Sándor Márai com este livro fala-nos do amor, do destino, das leis da vida e da nossa força ou fraqueza perante essas forças que se juntam ou separam transformando a nossa vida de várias formas.
Mais um dos livros que recomendo a sua leitura, pequeno, com uma escrita simples mas também muito directa.


Pode ler aqui no blog do Pipas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Princesas e raínhas



É impossível deixar de vos trazer um poema que acho lindíssimo, de um poeta um pouco esquecido, ou talvez pouco valorizado por ter vivido num tempo em que os lobbies gays ainda não tinham o poder que hoje têm.
De espírito exuberante, apaixonado, e sem preconceitos nem pudores, marcou o panorama nacional pelas letras (poemas) incontornáveis das canções que escreveu para o festival da canção.
Ouvi-lo dizer os seus próprios poemas é mais emocionante do que lê-los, porque à força das suas palavras se junta a força da voz, da presença e dos gestos. Porque é mais difícil falar genericamente de uma obra poética do que de uma narrativa, deixo-vos um excerto do longo poema de...

ARY DOS SANTOS

TEMPO da LENDA das AMENDOEIRAS – 1964

Rimance da Princesa do País dos Gelos que em Terras da Moirama Suspirava Contando em Louvor da Fantasia dum Povo que Nasce, Vive e Morre entre o Céu e a Água.


Era uma vez um país
Na ponta do fim do mundo
Onde o mar não tinha eco
Onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
Mais longe que a ventania
Mais longe que a flor de sombra
Ou a flor da maresia
Em sete lagos de pedra
Sete castelos de nuvens
Em sete cristais de gelo
Uma princesa vivia.



A Princesa
Em sete cristais de gelo
Nesse país eu vivia.



Era uma vez um país
Na ponta do fim do mundo
Onde o mar não tinha eco
Onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
Mais longe que a luz do dia
Com a sua coroa de abetos
E seus anéis de silêncio
Suas sandálias de tempo
Seu tear de nostalgia
Uma princesa tecia
O seu tapete de espanto
No fio da fantasia
Do seu casulo de encanto.



A Princesa
O meu tapete de espanto
Num tear de nostalgia.



Era longe longe longe
Mais longe que a luz do dia.



Tinha cabelos de rio
Olhar de brisa serena
Boca de rosa de estio
Vermelha, porém pequena.



Tinha cintura de bruma
Andar de orquídea de neve
Perfume de flor nenhuma
Intensa, porém mas breve.


Em seu corpete bordado
Os seios duros trazia
Virgem de sangue domado
Contida, porém não fria.


Era longe longe longe
Mais longe que a luz do dia.


E enquanto em sete cristais
Sete anémonas de espanto
Enquanto em sete corais
Uma princesa tecia
O seu tapete de espanto
Num tear de nostalgia
Levava-lhe o vento os ais
Por mares ares tormentas
Ondas naufrágios marés
Ilhas iras sons e escolhos
Para longe longe longe
Mais longe que a luz dos olhos.


Levava-lhe o vento os ais
Para uma terra distante
Bordada de laranjais
Vestida de céu brilhante
Onde com sete punhais
sete crescentes de lua
sete pecados mortais
em seus olhos faiscantes
um rei poderoso montava
sete cavalos possantes.
Levava-lhe o vento os ais
Para uma terra distante
Onde o céu era lidado
Na arena da maré cheia.
Terra de cheiro molhado
Terra de cravos de carne
Onde o silêncio escoado
Pelos aromas do nardo
Molhava de mel de sombra
Os lábios secos da tarde.
Levava-lhe o vento os ais

Para uma terra distante
Terra de festas de sangue
Baía de cimitarra
Moiras com olhos de alfange
Onde o amor se matava
Terra terraço mirante
Aonde o mar se mirava
Umbela de flor gigante
Colo moreno de escrava
Terra pantera ondulante
Terra guitarra tocada
Pelo barulho das folhas
Mexendo de madrugada.

Terra distante distante
Onde seus ais repousava.


Ouviu-lhe o rei o suspiro
Quando em seu castelo estava.
Mandou guardar seus cavalos
Suas bandeiras reais
Mandou fechar suas portas
Seus pátios suas janelas
Afogar a horas mortas
Sete pecados mortais
Em suas sete cisternas
E aparelhar um veleiro
Com velas soltas de espuma
Para cruzar sete mares
Sete céus de nevoeiro
Sete procelas de inverno
Sete postigos de bruma
Sete correntes de inferno
Sete cabos de segredos
Sete caminhos de medos
Sete muralhas de fumo
Até encontrar os olhos
Até encontrar os dedos
Do suspiro que o chamava
Da ponta do fim do mundo.
( .................)



O Rei



Fi-la rainha do vento
Rainha da maresia
Sombra do meu pensamento
Pedra da minha magia
Janela do meu palácio
Fresta de melancolia
Por onde passava o sol
Que ao país dos sete gelos
o meu desejo trazia.
Fi-la rainha do sangue
Que em minhas veias corria.
Rainha da ferida aberta
De que o meu povo sofria
Da chaga das descobertas
Que nos seus flancos se abria
Daquelas portas abertas
Onde o mar o fecharia
Daquelas ondas redondas
Onde o sonho o enredaria
Daquelas ilhas desertas
Onde a água o prenderia
E com a adaga dos olhos
O veneno da memória
A distância o marcaria
Para cadáver da história.
Rainha da minha audácia
E da minha cobardia
Dos copos da minha espada
Do punho da minha angústia
Da minha boca molhada
Pela saliva de Agosto
Dos poros da minha pele
Dos cabelos do meu peito
Da pedra do meu anel
E dos lençóis do meu leito


Era rainha a princesa
Que no silêncio dormia
Ungida pelo desejo
Coroada pelo agrado
Dum rei moiro que bebia
Pela chaga do seu lado
Em vez de cidra macia
Sangue de virgem sagrado.
Era rainha a princesa
E o seu reino consumado.


E depois de sete luas
De sete noites de chama
De sete donzelas nuas
Ardendo na sua cama
Levou o rei a princesa
Num carro de labaredas
Por montes vales caminhos
Serras atalhos veredas
Tergos cerros e devezas
Para longe longe longe
Mais longe que a tristeza.
(...................)

Passei-vos oito páginas deste poema. Ele prolonga-se por mais dezanove páginas. Espero que vos tenha aguçado o apetite para lerem este e os outros poemas que podem encontrar no livro José Carlos Ary dos Santos, obra poética, das edições Avante.




Podem ler aqui no blog da Noémia.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Crime no Expresso do Oriente

Agatha Christie nasceu em 1890, filha de pai americano e mãe inglesa. Passou a infância em Devonshire e cedo se familiarizou com a literatura inglesa, através da leitura de Charles Dickens e Jane Austen. Mais tarde seria leitora fervorosa de Sherlock Holmes. A sua educação escolar não foi além de dois anos de estudo de canto e piano em França.

Em 1915 casou-se com o coronel Archibald Christie de quem se separou em 1926. Quatro anos mais tarde casou-se com Sir Max Mallowan, famoso arqueólogo e professor da Universidade de Oxford que acompanhou em numerosas viagens e expedições arqueológicas. Até à sua morte, Agatha Christie escreveu as mais empolgantes ficções policiais, criando personagens curiosíssimas, tais como o celebérrimo Hercule Poirot, Miss Marple, Tuppence e Tommy, o superintendente Battle e Ariadne Oliver.

A obra de Agatha Christie permanecerá no património cultural internacional como testemunho inesquecível da extraordinária capacidade humana nos domínios da ficção, do raciocínio e do conhecimento da psicologia do comportamento - , obra imorredoira a vários títulos e retrato imperecível de uma época e de um modo de encarar os conflitos fundamentais da vida.



Este livro é daqueles que se calhar toda a gente leu. Ou viu o filme. Ou as duas coisas. Ou o tem na mesinha de cabeceira. Ou na estante. Ou viu na FNAC. Ou na Bertrand. Ou já ofereceu a alguém. Ou já lhe foi ofertado. Ou não.

Claro que não conto a história, mas cheira-me que deve ter havido um crime no Expresso do Oriente…~

Ah, e este é o 13º volume da colecção Vampiro, editada pela Editora Livros do Brasil, SA, com sede na Rua dos Caetanos, 22. Tel. 346 26 21 - Lisboa. (ulha, não tem código postal e o nº de telefone não começa por 21 – estranho…).


Podem ler aqui no blog do Cupido.

Na praia de Chesil

Há já algum tempo que não colaboro com a nossa Academia dos Livros, porque tenho andado a ler em inglês e não quis fazer citações nessa língua, pois sei que nem todos percebem o inglês literário. Assim, agora que li Ian McEwan em português, não hesitei em sugerir este pequeno grande livro chamado Na Praia de Chesil. É um livro pequenino que se lê facilmente num fim-de-semana ou mesmo num dia. A acção principal passa-se apenas nalgumas horas do dia do casamento de um jovem e inexperiente casal, no início dos anos sessenta. Como todos os livros de Ian McEwan é um livro perturbador que fala de amor, de humilhação, de ridículo, de sofrimento e duma trágica perda de inocência.
Deixo apenas um pequeno excerto para que possam apreciar a escrita deste grande escritor britânico e para que fiquem com mais um bocadinho de vontade de o ler:
"A brisa, que mudara de rumo, fazia entrar pela janela entreaberta uma sedução, um odor salgado de oxigénio e de vastidão que parecia contradizer a toalha de linho engomada, o molho engrossado com farinha de trigo e a prata bem polida que tinham nas mãos. Não estavam com fome, pois o almoço do casamento havia sido lauto e prolongado. Teoricamente, era a eles que cabia decidir se iriam abandonar os pratos, agarrar na garrafa de vinho pelo gargalo, correr para a praia, atirar ao ar os sapatos e exultar com a sua liberdade. Não havia ninguém no hotel disposto a detê-los. Finalmente eram adultos, em férias, livres de fazerem o que quisessem. Dentro de poucos anos esse seria o tipo de coisas que jovens banais fariam. Mas por agora, a época impedia-os. Mesmo quando Edward e Florence estavam sozinhos, mil regras não oficiais continuavam em vigor. Era precisamente por serem adultos que não faziam coisas infantis como deixarem a comida que outros se tinham dado ao trabalho de preparar. Aliás, era hora de jantar. Além disso, ser infantil ainda não era respeitável, nem estava na moda."

Podem ler aqui no blog da Isabel.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Perfume

Esta extraordinária história passa-se no século XVIII e há todo um extraordinário trabalho de reconstituição histórica, não só da época e das mentalidades como do ofício de perfumista, que era então particularmente valorizado e que estava a cargo de artesãos especializados. Patrick Suskind conduz o leitor de página em página, de odor em odor, de perfume em perfume, inebriando-o, arrebatando-o nessa alquímica busca do Absoluto que é a do seu personagem: a busca do perfume ideal, isto é, a forma suprema da Beleza. Nessa busca nada deterá Jean-Baptiste Grenouille – que nascera no meio dos mais nauseabundos fedores, numa banca de peixe - , nem mesmo os crimes mais hediondos. Este personagem monstruoso possui no entanto algo de extremamente inquietante, a sua própria incorrupta pureza.


Podem ler aqui no blog do Cupido.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Eu era a menina do papá

Uma vez mais venho deixar a minha contribuição para a "Academia dos Livros" com um livro que acabei de ler.

Não vou falar muito sobre esta obra, penso que ao lerem o resumo ficam a perceber do que se trata. Fala de uma realidade que está bem presente na nossa sociedade, se bem que sempre de uma forma encoberta.
Gostei muito deste livro: é uma história verídica e é de louvar que a sua autora tenha conseguido ultrapassar todos os seus traumas de infância e transcrito para o papel tudo aquilo porque passou.
E já agora... o Natal está à porta, por isso nada melhor do que oferecer livros, nem que seja a vocês próprios.

A família de Julia era a imagem de respeitabilidade.
Para o mundo exterior era classe média, decente, carinhosa.
Mas a mãe não a amava o suficiente. E o pai amava-a demais.
Entre os oito e os treze anos, o pai de Julia abusou dela sexualmente. Leal à família e desesperada por mantê-la intacta, aquilo tornou-se o segredo de ambos. Mesmo enquanto tentava entender o que lhe estava a acontecer, Julia percebeu que revelar a verdade destruiria a sua família.
Quando finalmente gritou a pedir ajuda, foi rotulada de mentirosa.
Durante a adolescência, começou a duvidar da sua própria sanidade. Teria o abuso realmente acontecido? O pai não podia ter feito aquilo... pois não?
Esta é a dolorosa história de como o pai de Julia abusou da sua confiança e a privou da infância; mas é também a história de como, anos mais tarde, Julia confrontou com êxito o seu passado doloroso e começou a criar para si própria um futuro cheio de significado.





Sobre a autora:

Julia Latchem-Smith nasceu em Basildon, Essex, em 1981.Mora agora em Bridgend, no País de Gales, com o marido, Jonathan, e os três filhos, Molly, Katelyn e Zack.


Podem ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Jogo do Anjo



Terminei hoje de ler, às 3h30m da madrugada, « O jogo do Anjo».

Já sei sou doida! Que lindas horas para ir para a cama quando no dia seguinte é dia de trabalho. Também foi o que me disse o meu marido.

Mas leitura para mim é assim, sem horas, sem ninguém que nos interrompa, sem obrigações nem compromissos a não ser com o livro que temos nas mãos!

Normalmente é a isso que eu chamo férias e que fiz durante este fim de semana.


Quanto ao livro, como devem calcular pelo acima descrito é cativante, enreda-nos num sem número de peripécias e mistérios e não conseguimos largá-lo até ao final.

Costuma-se dizer que em equipa vencedora não se mexe.

Acho que Zafón fez isso.

Enquanto li as primeira páginas achei o livro “morno”, as espectativas eram altas depois da « Sombra do Vento ». O enredo avança e eu penso, bem é giro mas não tem força. As personagens não nos convencem. Há muita coisa igual ao outro, parece uma cópia.Vai ser um policial. Mas surpreendentemente, não é assim.

O estilo jornalístico confere à narrativa um ritmo rápido, o entrar e sair de personagens mais os capítulos curtos, aceleram e a narrativa torna-se alucinante e alucinada. Misterioso sim, policial sim, com muitas mortes mas muito interessante.


Zafón, retomou a mesma Barcelona, mais cedo, no ano de 1917, e a mesma livraria Sempere com o avô e o pai do Daniel, da «Sombra do Vento». Retomou também Barceló, o cemitério dos livros e um escritor, desta vez David Martín, que é também jornalista. Há um protector rico, Vidal; um amor impossível, Cristina; uma apaixonada que se torna a melhor amiga, Isabelle e toda uma galeria de personagens mais ou menos importante que vai cruzando e saindo da vida deste David. O paralelismo entre as vivências de David e de outro escritor, que habitou na mesma casa, tornam-se flagrantes e ele vai tentar descobrir o porquê, para salvar o seu destino e tentar ser feliz. E depois, há o patrão, alguém que lhe encomenda um livro especial. O patrão...sempre presente, omnipotente, desconcertante, determinante em toda a história...o Patrão!


Os capítulos são curtos, Zafón cortou às descrições prolongadas e às reflexões filosóficas, transformou-as em diálogos das suas personagens.

Em volta deste escritor jovem e talentoso que acaba por escrever um único livro com o seu nome e “ montes “ deles com nomes de outras pessoas, discute-se o bem e o mal, a vaidade humana e o preço da alma, a morte e a vida, a crendice, o espiritismo e a espititualidade, o amor, a amizade e a literatura, sem nunca se falar abertamente sobre isso.

Deixo só esta frase, que já aparecia no outro livro, e que acho muito interessante:


« Todos os livros, todos os volumes têm alma. A alma de quem os escreveu, a alma daqueles que os leram e viveram e sonharam com eles. De cada vez que um livro muda de mãos, de cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte...»


O final é surpreendente e dá uma nota de esperança e happy end, estabelecendo a ponte com o já escrito, « A Sombra do Vento ».


Podem ler aqui no blog da Noémia.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Aventuras de João sem medo

Aventuras de João sem medo, panfleto mágico em forma de romance

José Gomes Ferreira

Este livro é absolutamente fantástico. Lido pela primeira vez no sexto ano, foi usado como base de uma peça de fantoches organizada na turma pela Professora de Português. Claro que tinha que ler o original…
Narra as aventuras de João sem medo, que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia de chorincas situada (ou melhor, aninhada) perto do muro construído em redor da Floresta Branca e onde os homens construíram uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos. Claro que ninguém se aventurava pela floresta, porque os choraquelogobebenses preferiam choramingar e lastimar-se, andando sempre de monco caído, sempre constipados por causa da humidade, e a ouvirem com delícia canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto, ao som de instrumentos plangentes e monótonos. Um dia João, o único que por capricho de contradizer e instinto de refilar resistia à choradeira, não aguenta mais e atreve-se a saltar o muro, que ostentava este aviso:

É PROIBIDA A ENTRADA
A QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR

e embrenha-se na Floresta Branca…
A partir daí sucedem-se aventuras e seres milagrosos como a Fada dos Dois Caminhos, o Homem sem Cabeça, a Menina de Cristal, o Gramofone com Asas, o Príncipe das Orelhas de Burro, o Rocinante (sim, o cavalo de Dom Quixote), a Princesa nº 46734, o João Medroso, a Menina dos Pés Ocos ou a Pedra numa narrativa que nos deixa literalmente agarrados ao livro. No fim, João sem medo, cheio de saudades de comer um bacalhau cozido com batatas e grelos, volta para Chora-Que-Logo-Bebes. De regresso àquela choraminguisse toda, decide abrir uma fábrica de lenços. Deve ter enriquecido…

Esta Obra, de um dos maiores escritores Portugueses, constitui-se numa viagem de João sem medo a um mundo fantástico que no essencial se encontrava dentro dele. Magistralmente narrada, é sem dúvida uma Obra incontornável do século XX Português. Dedicada aos filhos do Autor, Raúl Hestnes Ferreira e ao irmão, Alexandre.

Dedicatória da primeira edição (1963):

Para os meus dois filhos:

Para ti, Raul José, homem há muito – e homem autêntico -, que aprendeste à tua custa que a verdadeira coragem é a força do coração…
Para ti, Alexandre, ainda criança, mas já com todas as tendências para não te tornares num desses falsos adultos que sujam o mundo e odeiam a imaginação…
Para os meus dois filhos – o homem e a criança – este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.








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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Crónica de uma morte anunciada

Uma vez mais venho deixar a minha colaboração para a Academia dos Livros, com uma sugestão de leitura muito leve... Este livro de Gabriel García Márquez é daqueles que se lê num instante, uma escrita fluída, nada maçadora e faz-nos pensar numa questão: se soubessem que alguém ia ser morto daí a pouco tempo, e se o resto da população do sítio onde vivem também o soubesse, avisavam a vítima ou esperavam que outra pessoa o fizesse???




Esta é a história de um assassinato numa pequena localidade colombiana, próxima da costa caribenha, cuja única ligação com o exterior é um rio.
Toda a localidade celebra o casamento de Bayardo San Román, rico e recém-chegado, com Ángela Vicario. Mas Bayardo descobre que a sua esposa não é virgem e devolve-a à casa dos pais.
Ángela acusa Santiago Nasar, um rico jovem de origem árabe. Obrigados pela defesa da honra familiar, os irmãos de Ángela anunciam aos quatro ventos a sua determinação de acabar com a vida de Santiago.
Todos os habitantes da localidade conhecem as intenções dos dois irmãos menos o interessado, e ninguém faz ou pode fazer nada para evitar o desenlace trágico...
Passados mais de 20 anos, um cronista reconstrói passo a passo os acontecimentos.






Notas sobre o autor: Gabriel García Márquez nasceu em Aracata em 1928. Formou-se no campo do jornalismo e trabalhou como redactor para diversos jornais colombianos e para a agência cubana de notícias La Prensa.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1982 e é provavelmente o escritor vivo mais reconhecido internacionalmente.
Entre a sua vasta obra pode destacar-se, além de Crónica de uma Morte Anunciada (1981), Ninguém Escreve ao Coronel, Cem Anos de Solidão, Olhos de Cão Azul, O Outono do Patriarca, O Amor em Tempos de Cólera, O General no seu Labirinto ou Memórias das minhas Putas Tristes.


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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Os Lusíadas

Mais um daqueles livros que se tem que ler na escola...
Confesso que no nono ano achei uma enorme estopada ler esta Enorme Obra. Ele era figuras de estilo, palavras de que se desconhecia o significado, uma Professora que tinha acabado o Curso havia pouco tempo, que nos mandava ler as passagens entre as que se liam nas aulas e a fazer um resumo (na altura não havia net, mas felizmente havia um Senhor chamado Adolfo Simões Muller que escreveu uma versão para crianças e que eu, obviamente utilizei - claro que a Professora nunca soube) eram as leituras na aula, bem, tudo menos interessante.
Mais tarde e com mais alguma capacidade intelectual li esta Opus Magnun da Cultura Portuguesa, sempre nesta magnífica edição do Circulo de Leitores de 1980.
O Alvará Régio, a autorização da Santa Inquisição e as primeiras estrofes...








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terça-feira, 28 de outubro de 2008

O Amante



Li “ O Amante” da Marguerite Duras, há já muitos anos e revisito-o de vez em quando numa leitura em cruz de algumas passagens, devido a sensualidade a precisão cirúrgica com que ela narra esta história.

Fiz essa primeira leitura quando ainda não havia o filme e ainda bem!Não acho que o filme consiga apanhar o espírito do livro, porque quase não há acontecimentos, nem acção.


O enredo situa-se numa descoberta de emoções, de vivência de sentimentos que nasce como um manancial, no interior de cada personagem. O livro está escrito na primeira pessoa como se fosse uma confissão dolorosa arrancada da memória da autora.

« Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. É a passagem de uma barcaça no Mékong. A imagem dura toda a travessia do rio.»


« Trago um vestido de seda natural,usado, quase transparente. É um vestido sem mangas muito decotado(...) Nesse dia, devo trazer esse famoso par de saltos altos de lamé dourado(...). Não são os sapatos o que há de insólito, de extraordinário, nesse dia, na aparência da garota. O que há nesse dia é que a menina traz na cabeça um chapéu de homem de abas direitas ( ...) A ambiguidade determinante da imagem está neste chapéu.»

Ela uma adolescente branca e pobre, de 15 anos que descobre o poder do seu corpo e a sua sensualidade.


« Na limusina há um homem muito elegante que me olha. Não é branco. Está vestido à europeia, usa o fato de seda claro dos banqueiros de Saigão. Olha-me. Estou habituada a que me olhem.»


Ele, chinês e rico, mais velho e mestre do amor. Desenganem-se se pensam que ela é a vítima dele, que foi seduzida pelo homem mais velho.


« Desde o primeiro instante ela sabe qualquer coisa deste género, ou seja que ele está à sua mercê. Logo que outros além dele poderiam também ficar à sua mercê, se a oportunidade surgisse.»


Ela tem o poder da inocência, ela quer descobrir o prazer físico, ela não quer dele o amor mas apenas a paixão.Ele, enreda-se no amor pela diferença desta criança mulher, mima-a, acarinha-a, ensina-a, morre de prazer e deixa-se devorar na teia do desprendimento dela.Anos mais tarde, de visita a Paris, ele não resiste e telefona-lhe.

« E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes,que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.».


É assim que termina o livro.


Mas no meio deste romance surgem como alucinações as relações e sentimentos dela com a mãe, com os irmãos, as recordações.


Uma das imagens que me surge imensas vezes ao espírito a propósito das coisas mais variadas, e que me marcou imenso, não sei porquê, é a descrição que ela faz de uma das casa que habitou. Elevada por causa das inundações do Mékong e das monções, à mãe dava-lhe para a lavar de ponta a ponta e esfregá-la com sabão amarelo.


« A elevação da casa acima do solo permite lavá-la com grandes baldes de água, banhá-la como um jardim. Todas as cadeiras estão em cima das mesas, a casa toda escorre, o piano do salão pequeno tem os pés dentro de água (...) e depois ensaboa-se a casa com sabão amarelo. (...) Toda a casa está perfumada, tem o cheiro delicioso da terra molhada depois da tempestade, é um cheiro que nos põe doidos de alegria, sobretudo quando se mistura com o outro cheiro, o do sabão amarelo, o da pureza, da honestidade, da roupa branca, da brancura, da nossa mãe, da imensidão da candura da nossa mãe(...) que se pode ser feliz nesta casa desfigurada que de repente se transforma num charco, num campo à beira de um rio, um vau, uma praia.»







Marguerite Duras (na foto com 15 anos) nasceu em Gia Dinh, na Indochina (agora Vietnam), em 1914, onde passou a infância e a adolescência. A autora irá ficar profundamente marcada pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa, frequentemente referidas na sua obra literária.Duras publica os seu primeiros livros em 1943 e 1944, «Os Imprudentes» e «A Vida Tranquila», respectivamente. A partir de 1959 começa também a escrever argumentos para o cinema, dos quais «Hiroshima meu amor» é sem dúvida o mais conhecido e marcante. Em 1950, com «Uma barrangem conhtra o Pacífico», Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. É no entanto apenas 30 anos depois que a injustiça lhe é reparada, ganhando o prémio por unanimidade com o romance «O Amante».



Podem ler aqui no blogue da Noémia.

sábado, 25 de outubro de 2008

A Biblioteca, de Gonçalo M. Tavares

Este livro, como o próprio Autor refere, pode não ser lido de uma vez. Trata-se de uma série de pequenos textos acerca da obra de muitos Autores. Deixo aqui a transcrição dos textos sobre Boris Vian, Ezra Pound, García Márquez, Hermann Broch e o último Nobel, J. M. Le Clésio.
Mais informações sobre o Autor aqui.


Boris Vian


O meu saxofone é uma garrafa de rum que me faz cantar, mesmo com a boca cheia de garrafa.E tenho bombas atómicas em comprimidos que se tomam: dois depois do almoço, um após o lanche, e um antes de deitar. Pode um método de destruição maciça ser individualizado sem perder as suas principais características? Eis uma pergunta interessante a que ainda não se deu a devida atenção.
E havia um homem cujo saxofone não tinha notas, mas metáforas.


Ezra Pound


Um violino tocado por um corpo de estômago grosseiro.
«A espiritualidade avança no organismo apesar do aparelho mecânico colocado no coração. O By-pass não interfere com Deus: os batimentos dos dois mundos seguem caminhos diferentes. Os médicos não recomendam canções; e cometem ainda outros erros.
Negócios com os beijos não se fazem, caro Lorde, a não ser nas boas sociedades.


Gabriel García Márquez


Na Primavera os mortos não têm ossos. No Inverno, sim.
Na Primavera os mortos terão pólen e vísceras, mas ossos não. No Inverno, sim.
Mas os homens morrem todos no Inverno.


Hermann Broch


Um homem caminhava depressa. Havia a chuva por cima, lenta mas constante; e o chão por baixo: a caminhar tão rápido como o homem, mas em sentido inverso. A chuva ao cair no medo de um homem faz dele mais forte, e ao cair no metal – em cima de um carro, por exemplo – faz dele mais fraco.
O metal enfraquece com a chuva; e os homens, como algumas plantas, crescem com certa água em certa inclinação.


J. M. G. Le Clezio


Duas narinas para dois pulmões, a mão direita para escrever o livro, a mão esquerda para acariciar o gato.
Gatos pretos devem ser acariciados com a mão esquerda e gatos brancos devem ser acariciados com a mão direita. O contrário dá azar.
A nudez é o uniforme do massacre. Mas a nudez dos homens que não trazem a Natureza em baldes para a despejar em fábricas inteligentes, é outra. A nudez pode ser o uniforme do amor como se por vezes existisse um exército de dois, que não tem no mundo um único inimigo.
Aquele que ama é um exército de 2, sem inimigos.
Aquele que escreve é um exército de 1, sem inimigos.

Podem ler aqui no blogue do Cupido

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Pedaços de Ternura

Mais uma vez dou o meu contributo para a Academia dos Livros, da qual me orgulho de ser sócia. Terminei de ler este livro ontem à noite e só vos posso dizer que esta história faz-nos emocionar e ir às lágrimas com facilidade. Dorothy Koomson, a sua autora, consegue prender-nos da primeira à última página.Já tinha lido outro livro da autora, chamado "A filha da minha melhor amiga" e tinha adorado.Este não lhe fica atrás, por isso aconselho vivamente a leitura dos dois. Mostra-nos como a amizade verdadeira entre as pessoas pode ajudar a ultrapassar todos os problemas e traumas.




Kendra Tamale regressa a Inglaterra, em busca de um novo começo e uma vida tranquila.
Vinda da Austrália, aluga um quarto a Kyle, pai de duas crianças e separado, e arranja um novo emprego. Mas os gémeos de Kyle, Summer e Jaxon, de seis anos, têm outros planos e rapidamente adoptam Kendra como a sua nova mãe.
Aos poucos, Kendra começa a fazer parte das suas vidas, muito embora esconda um segredo doloroso que a obriga a afastar-se de toda a gente - especialmente crianças.
Então, Kendra encontra o homem que partilha o seu terrível segredo e tudo se desmorona. Não consegue dormir, é despedida e a mãe das crianças afasta-as dela. A única forma de remediar a situação é confessar o erro terrível que cometeu há tantos anos atrás - algo que prometeu nunca fazer...
Uma história de redenção, esperança e descoberta do amor nos sítios mais inesperados.




Dorothy Koomson nasceu e cresceu em Londres e escreveu o seu primeiro romance aos 13 anos.Fez a faculdade em Leeds e voltou a Londres para fazer o mestrado.O seu terceiro romance "A filha da minha melhor amiga" vendeu cerca de 90 mil exemplares no Reino Unido, apenas nas primeiras semanas.
Mais informações sobre a autora aqui.

Pode ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Cisnes Selvagens



Este livro narra a história de três gerações de uma família chinesa ao longo do século XX.
A autora conta a história da sua família centrando a narrativa na vida de três mulheres: a sua avó, a sua mãe e ela própria. As experiências de cada um destes três cisnes selvagens vão formando também um retrato da China. Jung Chang dá-nos assim a sua visão do conturbado século XX chinês, desde os anos de guerra civil que se seguiram ao fim do império, passando pelas várias fases das conturbadas políticas de Mao, até à tomada de poder de Deng Xiaoping, após a morte de Mao. A vida da avó enquanto jovem mostra-nos a teia complexa de inúmeras tradições seculares da qual era difícil escapar. A vida da mãe mostra-nos a apaixonada aderência dos jovens ao movimento comunista que prometia liberdade e igualdade e a posterior caça às bruxas da qual foram vítimas. Através da vida da filha ficamos a conhecer o culto da figura de Mao e a posterior queda por terra do mito. Deixo-vos aqui um pouquinho da vida de cada uma delas.


Yu-fang, a avó:

"Com quinze anos de idade, a minha avó tornou-se concubina de um caudilho militar, o general chefe da polícia de um vago governo nacional chinês. Corria o ano de 1924 e a China estava mergulhada no caos. (...) A ligação tinha sido combinada pelo pai, um obscuro funcionário da polícia na cidade provincial de Yixian. (...) O meu bisavô não era suficientemente rico para comprar uma posição lucrativa numa grande cidade, mas tinha planos. E tinha um bem valioso: uma filha. A minha avó era uma beldade. Tinha um rosto de forma oval, com faces rosadas e pele sedosa. O seu grande valor residia, porém, nos pés enfaixados, chamados em chinês "lírios dourados com oito centímetros". (...) Tinha a minha avó dois anos quando lhe enfaixaram os pés. (...)O processo demorava anos. Mesmo depois de os ossos terem sido partidos, os pés tinham de continuar enfaixados, dia e noite, em tiras de pano, pois no momento em que fossem libertados, tentariam recuperar. Durante anos, a minha avó viveu cheia de dores terríveis e constantes. Quando suplicava à mãe que lhe tirasse as faixas, ela chorava e dizia-lhe que isso arruinaria toda a sua vida futura, e que fazia aquilo para felicidade dela. Naqueles tempos, quando uma mulher casava, a primeira coisa que a família do noivo fazia era examinar-lhe os pés. Uns pés grandes, ou seja, uns pés normais, traziam vergonha para a casa do marido. (...)"
"Esperava-se que um homem como o general Xue tivesse concubinas. As esposas não serviam para dar prazer; esse era o papel das concubinas. Embora estas pudessem por vezes adquirir um poder muito considerável, o seu estatuto era muito diferente do da esposa. A concubina era uma espécie de amante institucionalizada, que se tomava e punha de lado a bel-prazer.A primeira vez que a minha avó soube da sua iminente mudança de situação foi quando a mãe lhe comunicou a notícia, poucos dias antes do acontecimento. Yu-fang inclinou a cabeça e chorou. Detestava a ideia de ser concubina, mas o pai tinha tomado uma decisão, e era impossível opor-se aos seus desejos. Discutir uma decisão paterna era considerado "impróprio de um filho", e fazer qualquer coisa imprópria de um filho equivalia praticamente a traição."

De-hong, a mãe:

"Havia já algum tempo que a minha mãe andava a voltar-se cada vez mais contra o Kuomintag. A única alternativa que conhecia era os comunistas, e sentira-se especialmente atraída pelas suas promessas de pôr fim às injustiças a que as mulheres estavam sujeitas. Até à altura, com quinze anos de idade, não sentira ainda a necessidade de empenhar-se definitivamente. A notícia da morte do primo Hu ajudou-a a decidir-se. Ia juntar-se aos comunistas."
"Depois de, com toda a franqueza, terem contado um ao outro as suas vidas passadas, o meu pai disse que ía escrever ao Comité do Partido pedindo autorização para «falar de amor» com a minha mãe, com vista a um casamento. Este procedimento era obrigatório. A minha mãe pensou que seria um pouco como pedir autorização ao chefe da família e na realidade era exactamente disso que se tratava: o Partido Comunista era o novo patriarca. "
"Dois meses depois de terem casado - e menos de um ano após a Libertação - os meus pais eram expulsos da terra natal da minha mãe pelos mexericos e a inveja. A alegria que a minha mãe sentira com a libertação transformara-se numa melancolia ansiosa. Sob o Kuomintag, fora-lhe possível descarregar na acção as suas tensões - e fora fácil sentir que estava a fazer o que devia, o que lhe dera coragem. Agora, pelo contrário, sentia-se permanentemente errada. Quando tentava conversar com o meu pai a respeito destas coisas, ele respondia-lhe que tornar-se comunista era um processo difícil e doloroso. Era assim que tinha de ser."

Jung, a filha:

"O «Presidente Mao», como lhe chamávamos sempre, afectou pela primeira vez a minha vida, de forma directa, em 1964, quando eu tinha doze anos. Tendo-se mantido afastado durante algum tempo depois da grande fome, estava a iniciar o seu regresso à ribalta e, em Março do ano anterior, lançara um apelo aos jovens para que «aprendêssemos com Lei-Feng».Lei Feng era um soldado que, segundo nos disseram, tinha morrido com 21 anos, em 1962. Fizera uma grande quantidade de boas acções, não olhando a esforços para ajudar os mais velhos, os doentes e os necessitados. Doara as suas poupanças para os fundos de auxílio aos sinistrados e dera as suas rações de alimentos a camaradas que estavam no hospital. Não tardou que Lei Feng começasse a dominar a minha vida. Todas as tardes, saíamos da escola para «fazer boas acções, como Lei Feng». (...) Gradualmente ao longo daquele ano de 1964, a ênfase foi-se transferindo das boas acções para o culto de Mao. A essência de Lei Feng, diziam-nos os professores, era «o seu amor e a sua devoção sem limites pelo Presidente Mao». Antes de fazer fosse o que fosse, Lei Feng pensava sempre em algumas palavras do Grande Líder. (...) E nós jurávamos seguir as pisadas de Lei Feng, e estar dispostos a «escalar montanhas de facas e mergulhar em mares de chamas», a «deixar que nos transformem o corpo em pó e os ossos em lascas», a «submetermo-nos incondicionalmente ao controlo do Grande Líder». O culto de Mao e o culto de Lei Feng eram as duas faces de uma mesma moeda: um era o culto da personalidade, o outro, seu corolário inevitável, o culto da impersonalidade."

Podem ler aqui, no blog da Isabel.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

O labirinto da saudade


Que Eduardo Lourenço (fez 85 anos no outro dia) é uma das incontornáveis figuras do pensamento Português é um facto indiscutível. O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português é uma das suas obras mais conhecidas. Quando ontem vi a entrevista que lhe fizeram na dois fui buscar o livro e devo confessar que é uma obra fantástica, de leitura obrigatória.

Informação sobre ele aqui


O tradicional grito de “pouca sorte”


A célebre mentalidade milagreira portuguesa procede desta situação, em si não insólita, mas aberrante pela extensão e o tempo em que se prolongou. O resultado, o imediato gozo que proporciona, independentemente do esforço com que se alcança, equivalem “à graça” ao “milagre” que num segundo restaura a ordem do mundo até aí desfavorável. A imprevidência histórica de que várias vezes demos provas desde Alcácer-Quibir até à Descolonização, a eterna surpresa que sublinha as catástrofes mais evitáveis, o nacional grito de “pouca sorte” com que comentamos os desastres que nós próprios elaborámos por inércia ou confiança infinita nas boas disposições da Providência, são só alguns dos aspectos com que mais brutalmente se manifesta a nossa riquíssima mentalidade de pobres milionários por direito divino. Tutti principi, como na Itália, onde tão comum “commedia dell’ arte” social serve, felizmente, para ninguém se tomar a sério como tal, o que não é o nosso caso, de gente que a bem dizer não visa mesmo “ser rico” responsabilizando-se nessa situação, mas apenas não ser tão pobre como o vizinho e suplantá-lo. É a função e o conteúdo formal da riqueza que importam, não a objectiva e tranquilizante vontade de poderio que ela assegura. O comportamento sinistramente ostentatório e bárbaro que William Beckford notou na nossa aristocracia portuguesa que frequentou, não tinha mais função que a de se extenuar na pantagruélica exibição da sua diferença em relação ao comum povo esfomeado. Essa gente que era a nossa “nobre gente” não celebrava nenhum ritual de posse ou gozo feliz da sua existência, mas afirmava apenas, para o exterior, a satisfação vil de um privilégio. Esta aristocracia não estava em condições mínimas de fazer um uso humano do abuso económico e social que representava. A função de aparato e de aparência esgotava toda a sua realidade por não haver no espaço social português termo algum de comparação que pudesse constituir uma crítica implacável desse estilo de vida sem objecto próprio, pois a Corte, imobilista e grotesca, também o não exemplificava.


Podem ler aqui no blog do Cupido.

Eu já posso imaginar que faço

Este livro circulou pelo país muito antes de ser editado, pelas casas e pelas vidas de algumas pessoas. Nasceu de uma extensa conversa radiofónica. Da Rádio Comercial chegou à letra da Assírio & Alvim. De que se trata? Da vida das pessoas. Propõe um sentido poético, a reflexão, “dar forma aos sonhos” contra a normalização e apatia que abafam a vida. O diálogo, as hesitações, os silêncios, as divergências pontuais, a coloquialidade tornam-no tão próximo como se se tratasse literalmente de um livro de bolso, perto do calor do corpo e do escuro dos sonhos. Formalmente é uma conversa interminável, sem mestre, chave d’ouro ou indiscutíveis verdades.

retirado daqui


Resolvi falar deste livro de algum modo por causa da escrita de Lobo Antunes, que se me afigura algo impenetrável. Já tinha dito na academia que tentei mais do que uma vêz ler obras dele e nunca consegui. No fim de semana peguei n' a morte de Carlos Gardel e não consegui passar da primeira página. Tenho pena, mas, como diria o Eng. Guterres: "É a vida..."


Entretanto comecei a pensar na escrita e na palavra dos psi's e lembrei-me deste título que li com enorme prazer há uns anos. Não será obra de grande alcance literário, até porque resulta da transcrição de um programa de rádio, mas seduz.Deixo um pequeno excerto:


Todos nascemos com uma doença mortal que é a vida


C.A.D. – Claro. E lá diz o povo: mãe há só uma. Penso que foi o código napoleónico que tentou introduzir um pouco o pai, mas à força. Porque, de facto, é a mulher que tem sempre o segredo da maneira como gerou os seus filhos. Tenho um conhecimento, digamos, microscópico, de míriades de fantasma que se geram à volta da criança.


Acompanhei várias mulheres que estiveram grávidas durante a análise e pude aperceber-me que há sempre um mistério sobre a criança que nunca é partilhado com o pai. Os casais modernos pensam que isto de homens e de mulheres é tudo a mesma coisa e propõem a divisão das tarefas com o bebé em planos de igualdade, como se fosse indiferente para o bebé ser tratado por um ou pelo outro. O impulso maternal é comum a toda a espécie humana, mas a mulher não permite ao homem a comunhão da maternidade. Acaba sempre por lembrar que o filho andou foi na barriga dela. A mão outorga-se o privilégio de ser o paraíso perdido da criança…


J.S.M. – Voltamos, afinal, ao paraíso perdido, mas desta vez um paraíso bastante mais real que o da Bíblia, talvez o único paraíso perdido verdadeiro…


C.A.D. – E voltamos também à questão que me pôs no outro dia, sobre a importância dos mitos da origem. É que todos nascemos com uma doença mortal que é a vida. E aí também a religião católica dá uma bela resposta ao dizer: “da terra vieste, à terra voltarás”. Já falámos também do Édipo em Colono, onde aquele acaba por se dissolver num coito com a terra-mãe. Ora, é precisamente porque morremos que temos necessidade de uma origem. Seria terrível srmos mortais! Se o fôssemos, ninguém faria coisa alguma! Pelo menos os criadores, esses aspiram sempre à imortalidade. Penso que era o Herberto Hélder que dizia que o desejo mais mortal é o desejo da imortalidade. E eu estou de acordo com ele.


In, Eu já posso imaginar que faço, 1989


Podem ler aqui no blog do Cupido.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

«Equador»

Por iniciativa da Claudia do blog Eu crio a minha vida, foi criada já há algum tempo a Academia dos Livros. Fui convidada a participar e logo apoiei a ideia e disse que sim, que contasse comigo.
Só agora vou contribuir com a minha primeira participação, mas nunca é tarde (justifico a mim própria), isto porque tenho andado sem me conseguir concentrar na leitura, eu que sou uma leitora compulsiva, devoro livros... nem parece coisa da minha pessoa, andar um livro na mesa de cabeceira a apanhar pó há meses...

Desde que me conheço e que aprendi a ler, um livro foi sempre companhia habitual para onde quer que fosse, onde quer que estivesse. Li tudo o que havia de livros infantis e depois na adolescência, ia à biblioteca e trazia três livros de cada vez, tinha quinze dias para os entregar, três ou quatro dias depois lá estava eu de novo a entregar aqueles e buscar outros e dizia a bibliotecária que tinha cara de intelectual e falava com as pessoas sem tirar os olhos do jornal "Oh menina!!! Já??? Deixe aí em cima e vá lá e escolha" e que poupadinha ela era nas palavras...

Em casa, tinha também muitos livros, uns que recebia de presente, outros que pedia ao papá para comprar, outros que comprava com os escuditos que as avós iam dando... Fazia colecções que ainda andam lá por casa da mami e trocava com os amigos e amigas... Enfim... velhos tempos que já lá vão e que tantas saudades deixam...

Banda desenhada é a única coisa que não consigo nem nunca consegui ler... não me entusiasma, não acho piada.

EQUADOR

É verdade, este ícone da literatura portuguesa do séc. XXI escrito por um jornalista/escritor/comentador televisivo que todos nós bem conhecemos, Miguel Sousa Tavares, veio parar à minha estante em 2004, comecei a lê-lo mas porque na altura lia dois e três livros ao mesmo tempo (andava um na pasta de trabalho, outro na mesa de cabeceira, outro em cima da secretária...) acabei por o encostar à box porque era um bocado pesado e ali foi ficando à espera de melhores dias. Lá o tirei da box mas o que é certo é que continuou descansadinho na mesinha de cabeceira, até que comecei a "devorá-lo" e agora ando "cega" para chegar ao fim.



É uma história fascinante que se desenrola numa antiga colónia portuguesa, S. Tomé e Príncipe, com inicio em Portugal e passagem pela India. Inspirado num período conturbado da história portuguesa no início do séc. XX e ultimos tempos da monarquia. Retrata essencialmente a politica de governação daquele território outrora português, o trabalho dos escravos nas roças e a discrepância entre nobres, ricos e governantes e, pobres, escravos e tiranos.

..."Como de costume, Luis Bernardo mandara servir o jantar na copa e não na sala de jantar, que lhe continuava a parecer um bocado grande, desagradável e formal, com os seus pesados armários de madeira indo-portugueses, que ele detestava particularmente. Além disso, a copa permitia-lhes abrir de par em par as portas que davam para o terraço, prolongando a noite e o jardim para dentro de casa."

Como eu o compreendo... as situações formais tornam tudo tão impessoal... e nada melhor que uma bela vista para o jardim.

"E estava uma noite particularmente bonita, de lua cheia e vento quieto, com um calor flutuante que trazia consigo um perfume a maresia e a flores cujo cheiro ele não sabia identificar, mas que Ann distinguia em pormenor."

Só de imaginar o ambiente, apetecia-me lá estar!

"Justificando-se com o acrescento de trabalho, ele indicara ao Sebastião (diplomáticamente, para não ofender o seu brio), que se fizesse coadjuvar pela Doroteia, no serviço à mesa. Era uma provocaçãozinha ao João, que ficava fascinado com os movimentos ondulantes e silenciosos, com o sorriso de dentes brancos e olhos negros com que a Doroteia evoluía à volta da mesa. Mesmo de pé, circulando e ajudando a servir à mesa silenciosamente, ela era a mulher que faltava ao grupo e a verdade é que a sua presença não era indiferente a qualquer um dos homens ali presentes. Luís Bernardo saboreava com verdadeira volúpia o efeito que a Doroteia causava. Apetecia-lhe passar-lhe a mão pelas ancas, quando ela lhe vinha mudar o prato, ter um gesto que indicasse aos outros que era ele o proprietário e usufrutuário daquela pantera sedosa, talhada em ébano, em marfim e em lânguidas gotas de suor. Por uma vez, estivera à beira de consumar o gesto irreflectido, quando reparou que, sentada à sua direita, Ann observava a cena com aquela atenção instintiva que as mulheres têm para essas ocasiões. E quedou-se, de mão suspensa no ar, e corando, como um menino pequeno apanhado na iminência de uma flagrante asneira."

Ai o malandro... Pois, homens... não podem ver um rabo de saia... eheheh

"A Sinhá tinha feito a sua extraordinária sopa de peixe, que não conhecia rival nas ilhas, seguida de um assado de porco do mato enrolado em banana-maçã, que lhe dava um gosto requintado e imaginativo, digno de um chef francês. Um pudim de côco e um sorbet de manga rematavam a refeição, a propósito da qual e da abundante dose de piri piri da sopa da Sinhá, David comentou que nunca tinha percebido por que é que era justamente nos climas mais quentes que se usava mais picante na comida."

Bons garfos sim senhor... não se tratavam nada mal!

[transcrito das páginas 306 e 307 e comentários de Cenourita]

Recomendo a leitura desta obra em que história e ficção se entrelaçam na perfeição.


Pode ler aqui no blog da Cenourita.

domingo, 5 de outubro de 2008

Dinis Machado - Qual é o lado mais cómico disto?

Dinis Machado faleceu.

O Título do post pode parecer não fazer sentido nesta altura, mas é facilmente compreendido se se ler o texto abaixo, escrito por ele e publicado num livro chamado "Reduto quase final" em 1989.

Até sempre.


Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto?

Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos – e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim: -Qual é o lado mais cómico disto?

Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.

Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.


In: Reduto quase final, 1989

Podem ler aqui no blog do Cupido.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Goa ou O Guardião da Aurora

Durante muito tempo, anos, tive o privilégio de tomar o pequeno almoço, quase todos os dias , com Richard Zimler.
Frente a frente no mesmo café, partilhamos o mesmo gosto pelos queques quentinhos e saborosos acompanhados de meia-de-leite.
Não, nunca falei com ele!
Nem sequer lhe pedi um autógrafo.
Quando muito trocámos algum sorriso cúmplice a propósito dos comentários altamente filosóficos que o empregado do café fazia, nos seus dias mais inspirados! Cada um comia na sua mesa, ele antes de ir dar as suas aulas na Católica, eu depois de ter deixado o meu filho no colégio e antes de ir trabalhar.

Nascido em Nova Iorque em 1956, vive no Porto desde 1990 e naturalizou-se em 2002. Dá aulas de jornalismo, traduz para o inglês vários autores portugueses contemporàneos e escreveu vários romances dos quais o mais conhecido talvez seja « O último Cabalista de Lisboa», mas ainda «Trevas de Luz», «Meia-noite ou o príncipio do mundo», «À procura de Sana».
Hoje venho-vos falar de

« Goa ou o Guardião da Aurora ».

Mais do que divulgar um livro ou o seu autor , trago-vos a minha visão sobre o que li, a forma como o senti e as palavras que são minhas.
A história passa-se em Goa no séc. XVI e retrata magistralmente uma época em que o colonialismo português aliado à inquisição devastam a sociedade indiana e judaica.A história marca-nos pelo que podia ter sido e não foi. Como às vezes um pequeno nada, modifica a nossa vida , ou dá cabo dela.
Tiago e Sofia, apesar de orfãos de mãe, vivem uma infância feliz e acabam de ser criados pelo pai judeu e por Nupi, a ama indiana, numa harmonia de cultura e ensinamentos, rituais e festas.
No entanto,Sofia, loura e de pele clara, sofre com a sua mistura europeia e indiana, e vai fazer de tudo para renegar esta sua ascendência. Seduzida pela esposa portuguesa e católica, do Tio Isacc, toma as rédeas do seu próprio destino decidindo casar com o seu primo Wadi e marca o destino dos outros, mas isso só o vamos descobrindo aos poucos.

Até aqui a história é-nos narrada em retrospectiva, vista pelos olhos de Tiago que recorda esta infância feliz enquanto apodrece nos calabouços da Inquisição. Recorda também a prisão do pai, traído por alguém que roubara um manuscrito judeu do seu bisavô e o entregara. A tortura a que o pai foi sujeito, a tentativa de suborno para o libertar e finalmente a morte por envenenamento que ele próprio facultou ao pai.
Após a morte do pai, quando Tiago tenta recuperar o seu filho e a noiva, é preso também ele e, durante seis anos, cumpre pena em Lisboa. Tem raciocínios e conclusões espantosas sobre o que o rodeia e perde a sua ingenuidade e bondade natural ao ver as atrocidades cometidas em nome da fé. Aí começa a delinear e a tecer a vingança contra o Padre Carlos e quando o consegue descobre que «após um curto e luminoso momento de êxtase, perdeu o ânimo».
Quando regressa ao seu país as coisas já não são iguais, Sofia morrera e ele culpa o primo. Tudo se precipita, à procura de quem o traíra a si e ao pai, vai de descoberta em descoberta. Tiago enreda-se numa vingança sem retorno, sem futuro nem para ele nem para ninguém. É Nupi quem lhe revela toda a verdade, ali, tão evidente e que ele sempre se recusou ver...
Apesar da realidade dura das prisões e calabouços portugueses, da injustiça de uma inquisição que tortura inocentes, das vidas despedaçadas, dos destinos adulterados, li o livro sem angústia, sem revolta, sem o incómodo da impotência ou da dor. A narrativa é tão serena, as coisas fluem tão naturalmente, a inevitabilidade dos factos é vivida numa simbiose tal que nos sentimos serenamente presos nesta trama, com vontade de descobrir o final.Como diz a contra capa, Zimler dá-nos um livro imaginativo, estimulante e profundamente sensível.

Não deixem de o ler!
Podem ler aqui no blog da Noémia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Jane Eyre


Sempre adorei literatura inglesa e tenho mesmo de confessar que conheço mais clássicos da literatura inglesa do que nacionais. Não tenho absolutamente nada contra a literatura portuguesa, muito pelo contrário. A minha apetência pela literatura anglo-saxónica é mais defeito de formação do que outra coisa.

Li Jane Eyre pela primeira vez há uns sete anos atrás, graças a estas maravilhosas edições da Penguin Popular Classics. E foi também assim que li a maioria das grandes obras em inglês que me foram sugeridas na faculdade e que eu descobri pela módica quantia de 3,00€/4,00€.


Mas voltando a Jane Eyre, depois de ver a série da BBC que passou na RTP2 fiquei com vontade de voltar ao livro que estava guardado na estante já há algum tempo. Reli alguns pedaços e revivi a grande intensidade da escrita de Charlotte Brontë ao contar a história desta desafortunada Jane, que cresce triste e abandonada e que desesperadamente busca o amor que lhe faltou na infância. Busca um sentimento de pertença a algum sítio ou a alguém. Busca alguém que seja seu. Ao mesmo tempo é uma mulher muito independente e que, como ela própria diz, sempre se conheceu, sempre soube quem era.

Charlotte Brontë e a sua irmã Emily Brontë recriaram nas suas duas grandes obras um pouco das características das suas próprias vidas sombrias e solitárias e foram grandemente influenciadas pelos romances góticos dos finais do séc. XVIII e inícios do séc. XIX. Assim se explica a atmosfera misteriosa e sombria de quase toda a obra, com excepção dos capítulos finais, de grande luminosidade e harmonia. É uma história belíssima e muito bem escrita. É difícil encaixá-la numa só corrente literária, pois tem grandes influências do Romantismo mas também do Realismo. Leiam. De certeza que não perdem nada. Só ficarão a ganhar.


Podem ler aqui, no blog da Isabel.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Der Prozess, by Franz Kafka

O Processo, de Franz Kafka é, indubitavelmente um dos maiores livros do século XX. Já li este livro há uns bons anos, mas sempre que leio algo que me desassossega lembro-me de K. e do "seu" Processo, daquela subtil e estranha cosmogonia, daquele engolir em seco, da Metamorfose, do Castelo, d' (...)


Ler Kafka é decifrar um código que, parecendo simplista e redundante, acaba por se mostrar extremamente complexo. O Processo é isso mesmo. É-nos apresentado Joseph K., um singular personagem, funcionário de uma instituição bancária sem nome, habitante de uma cidade da qual nada sabemos e cidadão de um país que desconhecemos totalmente.
Como o título indica, a trama gira em torno de um processo: o processo de K. E continuamos sem nada saber. Qual a acusação feita a K.? Qual o crime por si cometido? Que justiça é aquela, que o encarcera mantendo-o livre? Irrespondível! Nem ele mesmo sabe. Ou sabe e prefere não revelar.


Impregnada de uma profunda, mas subtil, apreciação social, esta obra é o espelho de uma mente crítica, em desconformidade com os ritos sociais vigentes, aos quais lança inúmeros ataques. Publicado postumamente, bem como a maioria dos restantes escritos de Kafka, este livro apenas nos é acessível porque Max Brod, amigo e confidente do autor, não lhe foi fiel (ou louco) ao ponto de satisfazer o seu último pedido: que queimasse todas (!) as páginas por si escritas. Haverá talvez quem considere que nada de importante se teria perdido. Respeito tal posição. Eu prefiro pensar que, se tais palavras tivessem sido queimadas, o fumo que delas teria emanado seria senhor de um dos mais belos, densos e desconcertantes odores alguma vez concebido.


retirado daqui.


Podem ler aqui no blog do Cupido.