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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Cabana

Acabei de ler «A cabana».
Aqueles que me costumam visitar por aqui sabem que não é o tipo de livro que costumo ler, não é o género nem o tipo de escritores que me seduzem.
Então como é que fui ler este livro?
Várias vezes peguei nele, na FNAC, folhei e voltei a pousá-lo. Ele está em grande evidência em todos os escaparates. De novo passava numa livraria e sentia-me atraída por ele. Voltava a manuseá-lo, a ler um pouco aqui e ali, e voltava a largá-lo.
Todos sabem que adoro neve, que o meu sonho seria viver 2 a 3 meses numa cabana aí para a Noruega ou Suécia, para ter a noção do tempo a passar, para sentir-me isolada do mundo e das suas "coisas" numa espécie de retiro espiritual e de encontro. Só comigo e com a minha família, sim, que eu não queria ir só! Pois, se calhar, era este desejo latente que me atirava para aquela capa azul, para aquele branco de neve e para o título sugestivo. Se repararem bem aquela capa irradia uma luminosidade cintilante, quase.


Acabei por ler o livro on-line.
Li-o e gostei.
O livro pede para não contarmos a história mas para divulgarmos a nossa opinião sobre ele. É o que vou fazer.
Na verdade é uma história dos nossos dias, uma tragédia que infelizmente acontece, demasiadas vezes nos últimos tempos, sobretudo no estrangeiro, o rapto e assassínio de uma criança. Um relato real, bem feito e que nos prende. Passam-se três anos e depois de algum mistério temos o pai da criança que regressa à cabana onde a tragédia se consumou. Depois, bem, depois temos um relato fantástico de Deus e da Trindade. Digo fantástico porque é das interpretações mais puras, poéticas e ...doces? Cativantes? Não sei classificar mas que nos toca completamente. E quem me conhece sabe que sou um rochedo, bem díficil de "tocar"!
Há um ou outro pormenor meio desconcertante, naif, próprio da cultura americana. Mas tirando esse facto e o de eu ter lido a tradução brasileira, o que tirou 1/3 da beleza ao texto, tenho a certeza que todos gostarão do livro. A história, independentemente das crenças religiosas, vale a pena ser lida, experimentem!


Não estive na neve em nenhum daqueles países que desejava, mas estive numa cabana.
Em vez de retiro espiritual, tive mais uma reflexão religiosa.
O tempo, esse passou rapidamente!
Ah, e não sei porquê mas ando a trautear o José Cid!



A maioria de nós tem suas próprias tristezas, sonhos partidos e corações feridos, cada um viveu perdas únicas, nossa própria "cabana".

Oferece uma das visões mais pungentes de Deus e de como ele se relaciona com a humanidade.


Podem ler aqui no blog da Noémia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


Inquietude é um livro de William Boyd, que nos conta a história de Eva Delectorskaia, uma espia russa ao serviço dos aliados, na segunda guerra mundial.
A história começa nos nossos dias e é contada em retrospectiva, a partir das memórias que Eva escreveu e que dá a sua filha Ruth, no momento em que começa a sentir-se ameaçada. Ruth começa a ler a história da sua mãe e nem acredita que seja verdade o que vai desvendando. Chega a pensar que ela está senil e delirante e chega a comentar isso com uma das suas amigas.
Eva foi recrutada muito jovem, por Lucas Romer, logo a seguir à morte do seu irmão. Sob a sua orientação aprende todos os truques essenciais às missões que lhe estão reservadas. No fim da sua aprendizagem parte para Inglaterra onde começa a sua vida de espia.
Os capítulos vão-se alternando entre o passado de Eva e da vida de Ruth. À medida que esta vai lendo a vida de sua mãe, chega à conclusão que viveu ao lado de uma desconhecida.
O livro é bastante interessante e verosímil, damos por nós a querermos saber mais sobre a vida de Eva, sobre as suas aventuras e os seus amores, pois acaba por se envolver com Romer. Partem para os Estados Unidos e trabalham em diversas missões mantendo sempre secreta a sua relação. A dada altura há uma missão que corre mal, Eva foge e descobre que os companheiros com quem trabalha estão a ser mortos um a um. Adivinhando o que se está a passar e quem é o autor das mortes, apaga o seu rasto e escapa para o Canadá onde sucessivamente muda de identidade, trabalha até conseguir embarcar para Inglaterra. Aí, com nova identidade, recomeça a sua vida, conhece o seu futuro marido e pai de Ruth num bar, casa-se e começa o que parece ser uma vida normal, não fosse aquela frieza de espia, aquele sentido de alerta constante.
Não percebi muito bem a alternância entre a vida de Ruth e de Eva. Estamos sempre à espera que aconteça alguma coisa na vida de Ruth. Ela que tem um filho de um alemão casado, seu ex-professor, que tem, temporariamente, a viver lá em casa, um cunhado freak ao qual se junta uma traficante de droga foragida e procurada pela polícia, de quem Ruth desconfia serem terroristas urbanos responsáveis por atentados na Alemanha...Além disso, Ruth dá aulas de inglês a estudantes estrangeiros em sua casa, em Oxford e, entre outros, tem um engenheiro iraniano que está intetessado nela, com quem ela sai e vai a manifestações árabes de protesto...É contactada por um detective que a alicia a dar informações sobre actividades suspeitas dos seus alunos... E, não passa disto mesmo!
A única justificação para a sua presença no romance é o pretexto para irmos descobrindo a vida de Eva Delectorskaya e, no final, ajudá-la a pôr em prática a sua vingança, ou, simplemente, a ser testemunha dessa vingança.
Um livro que se lê muito bem, uma história bem contada de uma época que sempre nos fascina, mas, a meu ver, com críticas muito empolgadas ou empoladas por parte dos jornais ingleses Times, Sunday Telegraph e Independent.

Podem ler aqui no blog da Noémia.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A rainha no palácio das correntes de ar

Hoje acabei de ler as últimas 200 páginas do livro de Stieg Larsson, « A rainha no palácio das correntes de ar ».

Realmente é pena que a obra que ele programou para se desenvolver em 10 volumes se tenha resumido apenas a 3 . Sei que estreia no próximo dia 24 de Setembro, o filme sobre o 1º volume, curiosamente realizado na Europa e não nos Estados Unidos, que costumam ter " olho" para estes guiões bombásticos. Estou convencida que este filme e os outros que inevitavelmente se seguirão, serão um êxito de bilheteira.

Aconselho, contudo, a que leiam primeiro os livros porque são espectaculares e nem de longe capazes de serem substituídos seja por que filme for! É tão poderosa a escrita de Larsson que imaginamos as nossas próprias personagens, metemo-nos nas suas peles, sofremos, angustiamo-nos, vibramos e simpatizamos com elas de tal modo que não conseguimos deixar de viver suspensos das suas aventuras e devoramos página atrás de página, na ânsia de resolver os mistérios e acalmar as nossas dúvidas. São personagens estranhas, com características invulgares e muitas vezes no limiar da marginalidade, o anti-heroi que tem uma boa explicação para ser assim e que capta a nossa simpatia. E, a cada novo livro, surgem mais personagens, exóticas ou não, que se encadeiam na vida uma das outras.

A intriga de Larsson é fascinante e as aventuras sucedem-se interruptamente, com rapidez, interligando pessoas e acontecimentos que, espantosamente, conseguimos acompanhar dada a lucidez e clareza da escrita. Na verdade cada capítulo está datado fazendo-nos acompanhar os acontecimentos cronologicamente e mesmo em cada capítulo há separação de assuntos e factos, dando-nos uma perspectiva do que está a acontecer simultaneamente em diversas frentes.

Toda a obra de Larsson gira em torno dos homens que oprimem as mulheres, as agridem, as subjugam numa prepotência absurda e que, por se julgarem impunes, abusam do seu poder. É por isso que nos sabe melhor vê-los castigados no final. Lisbeth Salander é vítima do pai, do psiquiatra que a acompanha quando é ainda menor, do tutor, do estado sueco, do irmão. A mãe dela, vítima de Zalachenko. Erika Berger, vítima do seu novo colega de trabalho. Harriet Vangler, vítima do seu pai e irmão e tantas mulheres jovens e menos jovens apanhadas na rede de tráfico de mulheres de leste, que podiam ser de outro lado qualquer, obrigadas a prostituirem-se, privadas da sua liberdade e exploradas até por homens da própria polícia. A história é ficção mas está tão bem documentada, tão bem orquestrada, tão actual que é verosímil e empolgante.

Neste 3º volume há homicídios e a procura desenfreada do seu presumível autor, Lisbeth . Cruxificada pelos midia que não sabem nada dela a não ser o que a polícia deixa escapar, propositadamente, sobre a sua vida e que a descrevem como uma lésbica satânica, ela é a única que descobre o que verdadeiramente se passou e tenta resolver a situação. Lisbeth acaba entre a vida e a morte depois de ter levado 3 tiros e ter sido enterrada viva ( não digo por quem). Quando pensamos que tudo está terminado para ela, num milagre de resistência, consegue libertar-se e, ajudada pelo amigo que sempre a compreendeu e nunca a abandonou, Mikael Blomkvist, é levada para um hospital e salva. Não vou contar mais nada para não estragar as emoções. Mas a partir daqui é a recuperação de Lisbeth, a tentativa dos seus verdadeiros amigos provarem a sua inocência ao mesmo tempo que tentam pôr a claro, com provas irrefutáveis, toda a trama que acompanhou a vida de Lisbeth, o envolvimento de uma secção especial da Säpo, tornando-a no erro mais montruoso da justiça e da polícia sueca.

Não percam, leiam mesmo esta trilogia e vão ver que não se arrependem. Não é só um devaneio meu, há uma verdadeira febre Millennium por todo o mundo, uma verdadeira legião de fãs viciados nesta saga tão bem escrita.


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terça-feira, 1 de setembro de 2009

A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo

Despachei literalmente de uma assentada o 2º volume do Stieg Larsson, 611 páginas, « A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo». Passei o dia enfiada no sofá da sala e só me levantei para dar cumprimento às funções mais primárias e inadiáveis. Não me lembro de melhor maneira de passar o meu último dia de férias.

O livro é simplesmente fabuloso em termos de capacidade de reter toda a nossa atenção, de nos prender e compulsivamente querermos saber sempre mais. Eu até nem sou fã de policiais mas estou rendida completamente ao estilo de Larsson..
Desta vez a acção gira toda à volta de Lisbeth Salander que depois de umas merecidas férias de um ano, regressa à Suécia e, com os inesperados milhões de coroas que tem na sua conta bancária resolve mudar de casa, de vida e de emprego. Quando está finalmente instalada começa a fazer uma ronda pelos seus antigos conhecidos, começa a descobrir as actividades em que cada um anda envolvido e isso começa a despertar o seu interesse. Inesperadamente, vê-se acusada do assassínio de um casal, ela, Mia Johansson, criminalogista e ele Dag Svensson, jornalista que investigavam uma rede de trafico de mulheres de leste e o negócio da prostituição, a que se junta mais tarde uma terceira vítima, o advogado seu tutor.
Os dados estão lançados, uns vêem-se envolvidos involuntariamente na história, outros poucos, que gostando de Lisbeth se colocam do seu lado e procuram a verdade e ainda uma quantidade de polícias que levam a cabo as investigações, todos procuram frenéticamente Lisbeth que, misteriosamente, sumiu sem deixar rasto. Aparentemente ninguém sabe porque é que ela terá matado os três e que ligações haverá entre eles que justifiquem as suas mortes. Mikael Blomkvist acredita que o assassínio está relacionado com o livro de Dag, que a Millenium ia editar interligada à tese de doutoramento de Mia. A polícia obstinadamente segue outra pista. Armanskij, antigo patrão de Lisbeth entra na corrida, com uma investigação paralela à da polícia. As televisões e jornais anunciam o nome e rosto de Lisbeth, explorando com foros de sensionalismo, pormenores da sua vida que vão sendo apurados nas investigações e há quase uma condenação pública nos midia, de que ela é a criminosa...
Uma rede de intrigas jornalísticas, três investigações sobre o mistério dos assassinatos, peripécias atrás de peripécias vão-nos desvendando que há mais em jogo dos que aquilo que sabemos. As peças de uns e de outros começam a completarem-se como um puzzle.

De repente descobrimos e acompanhamos Lisbeth Salander sem que nenhum dos outros saiba dela e do que faz. Torcemos e simpatizamos com esta mulher miuda , lutadora e solitária. Desejamos que vença quando finalmente compreendemos toda a verdadeira dimensão da infelicidade da sua vida e compreendemos finalmente o drama que lhe ensombrou toda a adolescência. Percebemos o porquê” do seu ódio aos homens que odeiam as mulheres” e torcemos para que os outros também descubram isso.

O livro acaba com a demanda solitária de Lisbeth, na tentativa de resgatar o seu passado vingando-se do culpado de toda a sua vida e também, indirectamente, culpado dessas mortes. O seu mais fiel defensor e amigo Mikael Blomkvist que lhe adivinha os passos, segue-a e tenta salvá-la caso haja um fracasso.
Não revelo mais nada do argumento porque seria estragar o prazer da leitura. Aliás este volume fica com a acção em aberto e temos que ler o terceiro para descobrir o que se vai passar a seguir. Como vêem o suspense continua ...Acho que vou a correr começar o 3º volume que está ali pousado a chamar insistentemente por mim!

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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Os homems que odeiam as mulheres

Em tempo de férias ler tem outro sabor.
Não haver horários para nada, não ter compromissos nem prazos, nem sequer para comer, faz com que ler seja onde e quando se quiser, sem obrigatoriedade de parar. Aaaahhh! E como é bom!
O livro que me acompanhou nos primeiros dias de praia e que li de um fôlego tem tudo para ser um bom companheiro de férias: aventura, mistério, suspense, actualidade, política, policial, amor, sexo, que se sucedem de forma veloz, em 539 páginas tão bem escritas e que nos prendem ao enredo magistralmente.




« Os homens que odeiam as mulheres » é o 1º volume de uma trilogia escrita pelor Stieg Larsson. Jornalista e editor da revista Expo, Stieg Larsson foi um dos maiores peritos mundiais no estudo de movimentos antidemocráticos, de extrema-direita e nazis. Digo “foi” porque já morreu, exactamente depois de entregar os três volumes da trilogia Millennium .Morreu de causas naturais, ao que parece e, apesar de todas as mortes serem lamentáveis, depois de o lermos, concordamos que tenha sido cedo demais.
Mas afinal de que trata o livro?


Começa tudo com um escândalo jornalístico sobre um banqueiro que, devido a falta de provas que justifiquem as acusações publicadas, levam à condenação de Mikael Blomkvist, jornalista e editor da revista Millennium.
Afastado voluntariamente da revista, é contactado e contratado pelo patriarca de uma das grandes famílias suecas, Henrik Vanger, dono de uma sólida indústria com ramificações em diversas áreas. A proposta que ele faz ao jornalista é insólita e aliciante; descobrir o mistério da morte de uma sua sobrinha-neta, há 40 anos atrás, pagando-lhe uma avultada soma em dinheiro mas, melhor que tudo, dando-lhe em troca provas concretas da corrupção do “tal” banqueiro que lhe permitirão a vingança . Como disfarce para a sua investigação, dado que a família Vanger é um ninho de víboras, diria a todos que estava a escrever a história da família.
Esta é a 1ª parte da história, as 122 páginas iniciais.
A partir daqui temos um Mikael que se instala lá bem a norte da Suécia, numa pequena cabana em Hedestad, gelada e solitária, deixando para trás a sua amante e sócia à frente da revista. Começa a investigar e estudar a família em questão e a analisar o dia fatídico da morte de Harriet.
Fascinante é a segunda personagem mais importante, Lisbeth Salander, freelancer numa empresa de investigação privada, uma hacker fabulosa, que investiga Mickael a pedido de Vanger. De personalidade fechada, altemente problemática e irrascível vai acabar por trabalhar com Mikael e envolver-se afectiva e fisicamente com ele. Juntos vão passar por algumas vicissitudes, perseguições e finalmente descobrir o mistério de Harriet Vangler.
Não vos vou contar mais pormenores porque tiraria todo o interesse a quem o quiser ler. Direi apenas que é bem interessante o contexto político e económico sueco onde se passa a acção, a actualidade do mundo e submundo da imprensa, as novas tecnologias e a sua aplicação fascinante à espionagem electrónica.
Não percam. Leiam!
Segue-se em breve, espero, « A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo », 2º volume desta trilogia e que já está na minha mesa à espera de vez. O 3º é « A rainha no palácio das correntes de ar». Sugestivos os títulos, não?

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quarta-feira, 1 de julho de 2009

O caso da rua Jau

Talvez influenciada pela melancolia do tempo veio-me à memória um texto que eu achei belíssimo na altura que o li, há já um bom par de anos e que compartilho agora convosco. Leiam-no devagar, parem mesmo nos pontos e façam pausas grandes nas vírgulas. Saboreiem como se fosse um rebuçado...

«
Seguiam pelo passeio de mãos dadas. Talvez o vento ligeiro que se levantou os molhasse ainda mais. Quando os atingia a chuva transformava-se em flores, como é de uso acontecer ao pão, nos milagres. Ou, como as flores continuam caras, talvez a chuva se limitasse a uma carícia, considerando tudo mais desnecessário.
Certo, certo, é que a chuva lhes ensopava o cabelo e que havia que, com a manga do casaco, ou simplesmente com os dedos, ir suavemente aceitando os pingos que lhes desciam pelo nariz.
Eles. Eles são eles. Eles são o príncipio de tudo o resto, sim, o resto é quase o fim do dia, a chuva farta e mansa, os autocarros embaciados, as pessoas apressadas ou abrigadas, resignadas, submissas, debaixo dos toldos.
Eles. Eles têm catorze anos, vão devagar como qualquer eternidade que se preze e tudo o mais de espanto é ficar a vê-los pelo passeio fora, de mãos dadas,enquanto a chuva cai, cai, cai.
Enquanto a noite se vai infiltrando por tudo o que é cidade.
Enquanto Lisboa se vai acomodando para a hibernação de todos os silêncios.
De súbito um carro pára diante deles, no outro lado da rua. Um vulto feminino desce, cobre a cabeça com a mão direita, acena com a outra:
- Eh pessoal! Querem boleia?
Eles estacam. Num acto instintivo de protecção Júlia põe-se à frente do rapaz.
- A professora Zília! - exclamam ao mesmo tempo.
-Não querem vir?
- Não vale a pena.
- Mas está a chover muito!
- Isto não é nada já passa. - grita o João.
- Vejam lá. Está tudo bem? Não há novidade?
- Tudo bem, professora, tudo bem.
Zília fica a vê-los afastarem-se, pararem na luz da paragem do autocarro, abraçarem-se num beijo, num beijo, num beijo.
Completamente ensopada, Zília entra no carro.
- O que é que tens? - pergunta-lhe o companheiro.
- Não sei - diz ela - Não sei. Mas parece que estou feliz
. »


Este excerto é do livro « o caso da rua Jau », de Mário Castrim.

Mário Castrim (pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca) nasceu em Ílhavo, em 1920, e morreu em Lisboa, em Outubro de 2002. Era casado com a também escritora e jornalista Alice Vieira e pai da jornalista e escritora Catarina Fonseca.
Professor, escritor e jornalista, fez crítica de televisão diária, desde 1965, no Diário de Lisboa. Depois do encerramento deste jornal, em 1990, passou a assinar a crítica de televisão no semanário Tal & Qual. Em 1963 criou, com Augusto da Costa Dias, o Diário de Lisboa – Juvenil, que sempre considerou a sua obra mais importante. Escreveu no jornal Avante! e, nos últimos dez anos da sua vida, trabalhou na revista Audácia, dos Missionários Combonianos.


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sábado, 13 de junho de 2009

A solidão dos números primos

Ontem aconteceu-me uma coisa que há já muito tempo não sucedia!
Pegar num livro e lê-lo de uma assentada, sem interrupção até à última página.
Fiquei tão contente! Já me julgava incapaz de uma proeza do género e andava a matutar se não seria por agora precisar dos óculos para ler e ter de andar sempre com eles de um lado para o outro, que isso acontecia.
Afinal, depois de ler este, cheguei mesmo à conclusão que eram os argumentos incipientes e pueris que não me despertavam a curiosidade, aliados à maneira inadequada de tratar os temas.
Pronto, pronto,está bem, a Net e a falta de tempo também têm alguma culpa, eu concedo.

O livro em questão chama-se « A Solidão dos Números Primos» de Paolo Giordano, da Bertrand.

É a história de duas personagens que vivem dois incidentes infelizes e perturbadores que lhes modificam por completo a vida. O relacionamento com os pais é fundamental na gestão emocional do problema vivenciado e na afectividade. O seu crescimento e relacionamento consigo e com os outros acaba por ser condicionado por isto.
Acabam por se cruzar e o leitor acompanha o seu crescimento, a adolescência, a juventude, os amores e desamores, o traumas e infelicidades que, são incapazes de superar pelo peso esmagador das suas más experiências.

Não é uma história feliz. É uma história crua e fatalista, como tantas na vida real, contada magistralmente.Bom conhecedor da psicologia humana o autor prende-nos e enreda-nos na expectativa do que pode acontecer. Entre a inércia absurda e enervante das personagens e a nossa vontade que as coisas se alterem e acabem por se comporem, somos levados até ao final da história, meio desconcertante mas plausível, que nos deixa a pensar nas relações humanas e na importância de educarmos as nossas crianças para o sucesso duma coisa a que damos pouca importância - A inteligência emocional.

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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Um problema muito enorme

Hoje o meu comentário literário é diferente!
Estive num encontro com o escritor Álvaro Magalhães, ouvi-o falar dos seus livros, do que o motivou para a escrita, da sua rotina de vida como escritor, do que ele pensa da literatura infantil, que é o que ele escreve, e gostei! De uma forma divertida, desassombrada, falou da generalidade da sua obra e gostei de o ouvir dizer, se não foi por estas palavras, foi esta a ideia que me ficou; que escrever para jovens é também escrever para adultos porque um livro infantil não é uma qualquer história simplória ou meia parva, contada de uma forma meia "lerda". ( estas palavras são minhas)
Um livro infantil tem que cativar o leitor e, digo eu, se queremos cativar para a leitura num mundo tão exigente como o de hoje, temos que ter realmente uma boa história e bem contada, para oferecer! Hoje, na minha modesta opinião, escreve-se a metro, tanto para adultos como para crianças. Não é este o caso!
É por isso que vos venho falar, de « Um problema muito enorme », último livro escrito por este autor e que faz parte de uma trilogia.


As personagens residentes: um ouriço que gosta de ouriçar ( estar deitado de barriga ao sol sem nada para fazer ), um coelho que tem medo que o mar engula a terra, uma toupeira que gosta de ler, um chapim que só sabe trabalhar e um caracol que gosta de viajar e vivem todos numa clareira, na Mata dos Medos.
Esta mata é verdadeira, faz parte de uma área protegida, e fica em Almada. As personagens são inventadas mas os seus problemas muito reais e, ao fim e ao cabo, muito parecidos aos dos humanos.
Com uma ternura por vezes hilariante e uma linguagem inventada pela necessidade das personagens transmitirem conceitos e sentimentos até ali desconhecidos, somos confrontados com problemas, sentimentos, medos e princípios filosóficos comuns a todos nós.
Lemos de um fôlego a história, sorrindo e angustiando-nos com as descobertas destes animais, porque revemos em cada um deles o que está subjacente em nós próprios. O crescimento, a educação, a sociedade fizeram-nos perder aquele conhecimento empírico, aquelas vivências e ensinaram-nos, se não a resolver os problemas, pelo menos a esconder o medo. Ao ler o livro encontramos tudo de novo, encontramo-nos a nós próprios!

«Era uma noite calma de Verão no largo Pinheiro Grande, algures na Mata dos Medos.O Chapim acordou sem sono, muito bem disposto. “É de manhã”, pensou. Espreguiçou-se, alisou as penas, depenicou algumas bagas e preparou-se para sair. Mas quando abriu a porta de casa não viu o Sol. Só havia silêncio e escuridão. “O que teria acontecido?”, pensou. Era de manhã e o Sol não tinha nascido.»

Não vos vou dizer qual é o problema muito enorme, para manter o suspense, mas não deixem de ler o livro e, se quiserem, comecem pelo «Conto da mata dos medos» (que nome tão giro!), porque é de rir ou «Criatura Medonha»! Lindos, lindos, lindos!

No início dos anos 80, Álvaro começou por publicar poesias e poemas. Em 1982, ele publicou o seu primeiro livro para crianças: Histórias com Muitas Letras. Em 2002, o seu livro "Hipopótimos - Uma história de amor", recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian de literatura para crianças e jovens. Mais recentemente, Álvaro acrescentou às suas obras a série "Triângulo Jota" de narrativas de mistério e indagação, sendo considerado “o primeiro a conseguir reformular e enriquecer, com sucesso, os modelos conhecidos”. Considerado um dos mais importantes escritores da sua geração, pela originalidade e singular irreverência da sua obra, Álvaro Magalhães foi várias vezes premiado pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo Ministério da Cultura, logo desde o início da sua carreira literária.
Tirado de Wikipédia

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sábado, 28 de março de 2009

Bichos

Depois de procurar no youtube e afins, algo que vos pudesse transmitir os sons da melhor sinfonia que a passarada me oferece, nestes dias solarengos e inesperados, na paz dos campos da minha quinta e não ter encontrado nada que se lhe pudesse comparar, só me vinha à memória Miguel Torga.
Eu até não sou muito apreciadora deste escritor, embora lhe reconheça o maior mérito à sua escrita e obra, e quem sou eu para reconhecer o mérito seja lá de quem for, quanto mais do Miguel Torga? Mas a verdade é que só me lembrava do livro « Bichos», do capítulo do « Farrusco », da sinfonia que a sua gargalhada desperta, para vos mostrar o que ouço e como me sinto quando a quantidade desmedida de pássaros que tenho por lá, me enche as tardes de alegria. Eu só lá estou ao fim de semana, não tenho espantalhos, as árvores, moitas e silvedos são mais que muitas...tudo se cria por lá, desde as levandiscas, melros, cucos, pintassilgos, rolas, gaios, poupas, carriças, piscos, tentilhões, rouxinois, pica-paus...
Deixo-vos pois este texto belíssimo, não só para que o apreciem, como também para que possam imaginar o privilégio que eu tenho ao ouvir, ao vivo, este canto desgarrado, glorioso! Se gostarem e nunca tiverem lido o livro, aproveitem porque os outros textos são lindos também!

"Dentro da poça do Lenteiro, há rãs. Naquela água coberta de agriões e juncos moram centenas delas. Mas à volta, na sebe de marmeleiros, silva-macha e alecrim, vive Farrusco, o melro. Sabe-se isso desde que, em certo entardecer de Agosto, a Clara perguntou ao cuco que se pousara num pinheiro em frente:- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
A rapariga era toda ela de se comer. E o cuco, maroto, olhou de lá, viu, e respondeu:
- Cucu... Cucu... Cucu...
Três anos! A moça ficou varada. O Rodrigo acabava a tropa de aí a dias, e prometera levá-la à igreja logo a seguir. Que significava, pois, semelhante demora? Aflita, chegou-se à Isaura, a alcoviteira, mouca como um soco, que a seu lado sachava milho, e gritou-lhe aos ouvidos, desesperada:
- Ora vê?! Que lhe dizia eu?
A Isaura nem queria acreditar.
- Ouvirias mal!...
- Olhe lá que não ouvisse! Contei-os bem.
E foi então que Farrusco soltou a sua primeira gargalhada. Coisa bonita! Uma cascata de semicolcheias escaroladas, como se alguém rasgasse um pano cru, rijo e comprido, no silêncio da tarde serena, que o desânimo de Clara enchera subitamente de melancolia. Nada mais do que isso. Mas o bastante para mudar o sinal do desencanto. A força virgem daquele riso chamou a vida à consciência dos seus direitos. De parada, a natureza animou-se. Uma aragem muito branda e muito fresca atravessou o espaço. Tudo quanto era mundo vegetal ondulou levemente. A própria terra, sonolenta do calor do dia, acordou. E de aí a segundos começou a maior sinfonia que se ouviu no Lenteiro.
Chamadas por aquela volatina, as rãs subiram à tona de água e puseram-se a dar força sonora às tímidas vozes ocultas e anónimas que se erguiam do limbo. Às rãs, juntaram-se logo, pressurosos, os ralos, as cegarregas, os grilos, e quanta arraia miúda tinha fala. A esta, a passarada. Até que não ficou bicho sensível e solidário alheio ao Tantum Ergo pagão. Um coro imenso, cósmico e fraterno, que enchia o mundo de confiança.
Clara, arrastada pela onda de harmonia, apelou da sentença:
- Cuco do Minho, cuco da Beira: quantos anos me dás de solteira?
O que foste fazer! O malandro do pitoniso, se há pouco fora cruel, desta vez requintou.
- Cucu... Cucu... Cucu... Cucu...
Parecia uma ladainha! A lengalenga não parava mais. Ou de propósito, ou porque o mundo, naquele instante, era um orfeão aberto, o ladrão dava mais anos de solteira à rapariga do que estrelas tem o céu.
Desapontada, a cachopa regressou às ervas daninhas do lameiro. E, num amuo justificado, deixou correr as horas. A seu lado, comprometida, a Isaura, que tinha garantido o noivado a curto prazo, falava, falava, sem conseguir adoçar-lhe no espírito o fel da desilusão. E quando a noite se aproximou disposta a selar com negrura aquela tristeza humana, foi preciso que Farrusco, novamente solidário com os direitos da moça, saltasse da espessura da sebe para o cimo de um estacão, e fizesse ressoar pelo céu parado e quente uma segunda gargalhada. Discordância de tal maneira fresca, sadia, prometedora, que a rapariga ganhou ânimo. Pôs os olhos em si, na força criadora das margaridas abonadas, no ar de coisa sã que toda ela ressumava, e sorriu. Depois, confiante, juntou a sua alegria à alegria do melro. Soltou então também uma risada cristalina, que partiu da verdura do milhão, passou pelas penas luzidias de Farrusco, e foi bater como um castigo no ouvido desafinado do cuco. Um segundo a natureza esteve suspensa daquela gargalhada. A vida homenageava a vida. Depois continuou tudo a cantar.
- O estafermo do cuco, tia Isaura! Até um melro se riu!...
-Riem-se de tudo, esses diabos...
Mas o lusco-fusco começava a empoeirar o céu, e Farrusco ia fechando docemente os olhos, deitado na cama dura. A vida que lhe ensinara a mãe, simples, honesta, espartana, não lhe consentia luxos de noitadas. Pela manhã, ainda o sol vinha lá para Galegos, já ele tinha de estar de perna à vela, pronto para comer a bicharada da veiga, e rir de novo, se alguma tola de Vilar de Celas se fiasse outra vez no aldrabão do cuco."

Miguel Torga, “Os Bichos”, 1940
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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Princesas e raínhas



É impossível deixar de vos trazer um poema que acho lindíssimo, de um poeta um pouco esquecido, ou talvez pouco valorizado por ter vivido num tempo em que os lobbies gays ainda não tinham o poder que hoje têm.
De espírito exuberante, apaixonado, e sem preconceitos nem pudores, marcou o panorama nacional pelas letras (poemas) incontornáveis das canções que escreveu para o festival da canção.
Ouvi-lo dizer os seus próprios poemas é mais emocionante do que lê-los, porque à força das suas palavras se junta a força da voz, da presença e dos gestos. Porque é mais difícil falar genericamente de uma obra poética do que de uma narrativa, deixo-vos um excerto do longo poema de...

ARY DOS SANTOS

TEMPO da LENDA das AMENDOEIRAS – 1964

Rimance da Princesa do País dos Gelos que em Terras da Moirama Suspirava Contando em Louvor da Fantasia dum Povo que Nasce, Vive e Morre entre o Céu e a Água.


Era uma vez um país
Na ponta do fim do mundo
Onde o mar não tinha eco
Onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
Mais longe que a ventania
Mais longe que a flor de sombra
Ou a flor da maresia
Em sete lagos de pedra
Sete castelos de nuvens
Em sete cristais de gelo
Uma princesa vivia.



A Princesa
Em sete cristais de gelo
Nesse país eu vivia.



Era uma vez um país
Na ponta do fim do mundo
Onde o mar não tinha eco
Onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
Mais longe que a luz do dia
Com a sua coroa de abetos
E seus anéis de silêncio
Suas sandálias de tempo
Seu tear de nostalgia
Uma princesa tecia
O seu tapete de espanto
No fio da fantasia
Do seu casulo de encanto.



A Princesa
O meu tapete de espanto
Num tear de nostalgia.



Era longe longe longe
Mais longe que a luz do dia.



Tinha cabelos de rio
Olhar de brisa serena
Boca de rosa de estio
Vermelha, porém pequena.



Tinha cintura de bruma
Andar de orquídea de neve
Perfume de flor nenhuma
Intensa, porém mas breve.


Em seu corpete bordado
Os seios duros trazia
Virgem de sangue domado
Contida, porém não fria.


Era longe longe longe
Mais longe que a luz do dia.


E enquanto em sete cristais
Sete anémonas de espanto
Enquanto em sete corais
Uma princesa tecia
O seu tapete de espanto
Num tear de nostalgia
Levava-lhe o vento os ais
Por mares ares tormentas
Ondas naufrágios marés
Ilhas iras sons e escolhos
Para longe longe longe
Mais longe que a luz dos olhos.


Levava-lhe o vento os ais
Para uma terra distante
Bordada de laranjais
Vestida de céu brilhante
Onde com sete punhais
sete crescentes de lua
sete pecados mortais
em seus olhos faiscantes
um rei poderoso montava
sete cavalos possantes.
Levava-lhe o vento os ais
Para uma terra distante
Onde o céu era lidado
Na arena da maré cheia.
Terra de cheiro molhado
Terra de cravos de carne
Onde o silêncio escoado
Pelos aromas do nardo
Molhava de mel de sombra
Os lábios secos da tarde.
Levava-lhe o vento os ais

Para uma terra distante
Terra de festas de sangue
Baía de cimitarra
Moiras com olhos de alfange
Onde o amor se matava
Terra terraço mirante
Aonde o mar se mirava
Umbela de flor gigante
Colo moreno de escrava
Terra pantera ondulante
Terra guitarra tocada
Pelo barulho das folhas
Mexendo de madrugada.

Terra distante distante
Onde seus ais repousava.


Ouviu-lhe o rei o suspiro
Quando em seu castelo estava.
Mandou guardar seus cavalos
Suas bandeiras reais
Mandou fechar suas portas
Seus pátios suas janelas
Afogar a horas mortas
Sete pecados mortais
Em suas sete cisternas
E aparelhar um veleiro
Com velas soltas de espuma
Para cruzar sete mares
Sete céus de nevoeiro
Sete procelas de inverno
Sete postigos de bruma
Sete correntes de inferno
Sete cabos de segredos
Sete caminhos de medos
Sete muralhas de fumo
Até encontrar os olhos
Até encontrar os dedos
Do suspiro que o chamava
Da ponta do fim do mundo.
( .................)



O Rei



Fi-la rainha do vento
Rainha da maresia
Sombra do meu pensamento
Pedra da minha magia
Janela do meu palácio
Fresta de melancolia
Por onde passava o sol
Que ao país dos sete gelos
o meu desejo trazia.
Fi-la rainha do sangue
Que em minhas veias corria.
Rainha da ferida aberta
De que o meu povo sofria
Da chaga das descobertas
Que nos seus flancos se abria
Daquelas portas abertas
Onde o mar o fecharia
Daquelas ondas redondas
Onde o sonho o enredaria
Daquelas ilhas desertas
Onde a água o prenderia
E com a adaga dos olhos
O veneno da memória
A distância o marcaria
Para cadáver da história.
Rainha da minha audácia
E da minha cobardia
Dos copos da minha espada
Do punho da minha angústia
Da minha boca molhada
Pela saliva de Agosto
Dos poros da minha pele
Dos cabelos do meu peito
Da pedra do meu anel
E dos lençóis do meu leito


Era rainha a princesa
Que no silêncio dormia
Ungida pelo desejo
Coroada pelo agrado
Dum rei moiro que bebia
Pela chaga do seu lado
Em vez de cidra macia
Sangue de virgem sagrado.
Era rainha a princesa
E o seu reino consumado.


E depois de sete luas
De sete noites de chama
De sete donzelas nuas
Ardendo na sua cama
Levou o rei a princesa
Num carro de labaredas
Por montes vales caminhos
Serras atalhos veredas
Tergos cerros e devezas
Para longe longe longe
Mais longe que a tristeza.
(...................)

Passei-vos oito páginas deste poema. Ele prolonga-se por mais dezanove páginas. Espero que vos tenha aguçado o apetite para lerem este e os outros poemas que podem encontrar no livro José Carlos Ary dos Santos, obra poética, das edições Avante.




Podem ler aqui no blog da Noémia.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Jogo do Anjo



Terminei hoje de ler, às 3h30m da madrugada, « O jogo do Anjo».

Já sei sou doida! Que lindas horas para ir para a cama quando no dia seguinte é dia de trabalho. Também foi o que me disse o meu marido.

Mas leitura para mim é assim, sem horas, sem ninguém que nos interrompa, sem obrigações nem compromissos a não ser com o livro que temos nas mãos!

Normalmente é a isso que eu chamo férias e que fiz durante este fim de semana.


Quanto ao livro, como devem calcular pelo acima descrito é cativante, enreda-nos num sem número de peripécias e mistérios e não conseguimos largá-lo até ao final.

Costuma-se dizer que em equipa vencedora não se mexe.

Acho que Zafón fez isso.

Enquanto li as primeira páginas achei o livro “morno”, as espectativas eram altas depois da « Sombra do Vento ». O enredo avança e eu penso, bem é giro mas não tem força. As personagens não nos convencem. Há muita coisa igual ao outro, parece uma cópia.Vai ser um policial. Mas surpreendentemente, não é assim.

O estilo jornalístico confere à narrativa um ritmo rápido, o entrar e sair de personagens mais os capítulos curtos, aceleram e a narrativa torna-se alucinante e alucinada. Misterioso sim, policial sim, com muitas mortes mas muito interessante.


Zafón, retomou a mesma Barcelona, mais cedo, no ano de 1917, e a mesma livraria Sempere com o avô e o pai do Daniel, da «Sombra do Vento». Retomou também Barceló, o cemitério dos livros e um escritor, desta vez David Martín, que é também jornalista. Há um protector rico, Vidal; um amor impossível, Cristina; uma apaixonada que se torna a melhor amiga, Isabelle e toda uma galeria de personagens mais ou menos importante que vai cruzando e saindo da vida deste David. O paralelismo entre as vivências de David e de outro escritor, que habitou na mesma casa, tornam-se flagrantes e ele vai tentar descobrir o porquê, para salvar o seu destino e tentar ser feliz. E depois, há o patrão, alguém que lhe encomenda um livro especial. O patrão...sempre presente, omnipotente, desconcertante, determinante em toda a história...o Patrão!


Os capítulos são curtos, Zafón cortou às descrições prolongadas e às reflexões filosóficas, transformou-as em diálogos das suas personagens.

Em volta deste escritor jovem e talentoso que acaba por escrever um único livro com o seu nome e “ montes “ deles com nomes de outras pessoas, discute-se o bem e o mal, a vaidade humana e o preço da alma, a morte e a vida, a crendice, o espiritismo e a espititualidade, o amor, a amizade e a literatura, sem nunca se falar abertamente sobre isso.

Deixo só esta frase, que já aparecia no outro livro, e que acho muito interessante:


« Todos os livros, todos os volumes têm alma. A alma de quem os escreveu, a alma daqueles que os leram e viveram e sonharam com eles. De cada vez que um livro muda de mãos, de cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte...»


O final é surpreendente e dá uma nota de esperança e happy end, estabelecendo a ponte com o já escrito, « A Sombra do Vento ».


Podem ler aqui no blog da Noémia.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O Amante



Li “ O Amante” da Marguerite Duras, há já muitos anos e revisito-o de vez em quando numa leitura em cruz de algumas passagens, devido a sensualidade a precisão cirúrgica com que ela narra esta história.

Fiz essa primeira leitura quando ainda não havia o filme e ainda bem!Não acho que o filme consiga apanhar o espírito do livro, porque quase não há acontecimentos, nem acção.


O enredo situa-se numa descoberta de emoções, de vivência de sentimentos que nasce como um manancial, no interior de cada personagem. O livro está escrito na primeira pessoa como se fosse uma confissão dolorosa arrancada da memória da autora.

« Tenho ainda a dizer-vos que tenho quinze anos e meio. É a passagem de uma barcaça no Mékong. A imagem dura toda a travessia do rio.»


« Trago um vestido de seda natural,usado, quase transparente. É um vestido sem mangas muito decotado(...) Nesse dia, devo trazer esse famoso par de saltos altos de lamé dourado(...). Não são os sapatos o que há de insólito, de extraordinário, nesse dia, na aparência da garota. O que há nesse dia é que a menina traz na cabeça um chapéu de homem de abas direitas ( ...) A ambiguidade determinante da imagem está neste chapéu.»

Ela uma adolescente branca e pobre, de 15 anos que descobre o poder do seu corpo e a sua sensualidade.


« Na limusina há um homem muito elegante que me olha. Não é branco. Está vestido à europeia, usa o fato de seda claro dos banqueiros de Saigão. Olha-me. Estou habituada a que me olhem.»


Ele, chinês e rico, mais velho e mestre do amor. Desenganem-se se pensam que ela é a vítima dele, que foi seduzida pelo homem mais velho.


« Desde o primeiro instante ela sabe qualquer coisa deste género, ou seja que ele está à sua mercê. Logo que outros além dele poderiam também ficar à sua mercê, se a oportunidade surgisse.»


Ela tem o poder da inocência, ela quer descobrir o prazer físico, ela não quer dele o amor mas apenas a paixão.Ele, enreda-se no amor pela diferença desta criança mulher, mima-a, acarinha-a, ensina-a, morre de prazer e deixa-se devorar na teia do desprendimento dela.Anos mais tarde, de visita a Paris, ele não resiste e telefona-lhe.

« E depois dissera-lho. Dissera-lhe que era como dantes,que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, que a amaria até à morte.».


É assim que termina o livro.


Mas no meio deste romance surgem como alucinações as relações e sentimentos dela com a mãe, com os irmãos, as recordações.


Uma das imagens que me surge imensas vezes ao espírito a propósito das coisas mais variadas, e que me marcou imenso, não sei porquê, é a descrição que ela faz de uma das casa que habitou. Elevada por causa das inundações do Mékong e das monções, à mãe dava-lhe para a lavar de ponta a ponta e esfregá-la com sabão amarelo.


« A elevação da casa acima do solo permite lavá-la com grandes baldes de água, banhá-la como um jardim. Todas as cadeiras estão em cima das mesas, a casa toda escorre, o piano do salão pequeno tem os pés dentro de água (...) e depois ensaboa-se a casa com sabão amarelo. (...) Toda a casa está perfumada, tem o cheiro delicioso da terra molhada depois da tempestade, é um cheiro que nos põe doidos de alegria, sobretudo quando se mistura com o outro cheiro, o do sabão amarelo, o da pureza, da honestidade, da roupa branca, da brancura, da nossa mãe, da imensidão da candura da nossa mãe(...) que se pode ser feliz nesta casa desfigurada que de repente se transforma num charco, num campo à beira de um rio, um vau, uma praia.»







Marguerite Duras (na foto com 15 anos) nasceu em Gia Dinh, na Indochina (agora Vietnam), em 1914, onde passou a infância e a adolescência. A autora irá ficar profundamente marcada pela paisagem e pela vida da antiga colónia francesa, frequentemente referidas na sua obra literária.Duras publica os seu primeiros livros em 1943 e 1944, «Os Imprudentes» e «A Vida Tranquila», respectivamente. A partir de 1959 começa também a escrever argumentos para o cinema, dos quais «Hiroshima meu amor» é sem dúvida o mais conhecido e marcante. Em 1950, com «Uma barrangem conhtra o Pacífico», Duras esteve muito próxima de ganhar o Prémio Goncourt. É no entanto apenas 30 anos depois que a injustiça lhe é reparada, ganhando o prémio por unanimidade com o romance «O Amante».



Podem ler aqui no blogue da Noémia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Goa ou O Guardião da Aurora

Durante muito tempo, anos, tive o privilégio de tomar o pequeno almoço, quase todos os dias , com Richard Zimler.
Frente a frente no mesmo café, partilhamos o mesmo gosto pelos queques quentinhos e saborosos acompanhados de meia-de-leite.
Não, nunca falei com ele!
Nem sequer lhe pedi um autógrafo.
Quando muito trocámos algum sorriso cúmplice a propósito dos comentários altamente filosóficos que o empregado do café fazia, nos seus dias mais inspirados! Cada um comia na sua mesa, ele antes de ir dar as suas aulas na Católica, eu depois de ter deixado o meu filho no colégio e antes de ir trabalhar.

Nascido em Nova Iorque em 1956, vive no Porto desde 1990 e naturalizou-se em 2002. Dá aulas de jornalismo, traduz para o inglês vários autores portugueses contemporàneos e escreveu vários romances dos quais o mais conhecido talvez seja « O último Cabalista de Lisboa», mas ainda «Trevas de Luz», «Meia-noite ou o príncipio do mundo», «À procura de Sana».
Hoje venho-vos falar de

« Goa ou o Guardião da Aurora ».

Mais do que divulgar um livro ou o seu autor , trago-vos a minha visão sobre o que li, a forma como o senti e as palavras que são minhas.
A história passa-se em Goa no séc. XVI e retrata magistralmente uma época em que o colonialismo português aliado à inquisição devastam a sociedade indiana e judaica.A história marca-nos pelo que podia ter sido e não foi. Como às vezes um pequeno nada, modifica a nossa vida , ou dá cabo dela.
Tiago e Sofia, apesar de orfãos de mãe, vivem uma infância feliz e acabam de ser criados pelo pai judeu e por Nupi, a ama indiana, numa harmonia de cultura e ensinamentos, rituais e festas.
No entanto,Sofia, loura e de pele clara, sofre com a sua mistura europeia e indiana, e vai fazer de tudo para renegar esta sua ascendência. Seduzida pela esposa portuguesa e católica, do Tio Isacc, toma as rédeas do seu próprio destino decidindo casar com o seu primo Wadi e marca o destino dos outros, mas isso só o vamos descobrindo aos poucos.

Até aqui a história é-nos narrada em retrospectiva, vista pelos olhos de Tiago que recorda esta infância feliz enquanto apodrece nos calabouços da Inquisição. Recorda também a prisão do pai, traído por alguém que roubara um manuscrito judeu do seu bisavô e o entregara. A tortura a que o pai foi sujeito, a tentativa de suborno para o libertar e finalmente a morte por envenenamento que ele próprio facultou ao pai.
Após a morte do pai, quando Tiago tenta recuperar o seu filho e a noiva, é preso também ele e, durante seis anos, cumpre pena em Lisboa. Tem raciocínios e conclusões espantosas sobre o que o rodeia e perde a sua ingenuidade e bondade natural ao ver as atrocidades cometidas em nome da fé. Aí começa a delinear e a tecer a vingança contra o Padre Carlos e quando o consegue descobre que «após um curto e luminoso momento de êxtase, perdeu o ânimo».
Quando regressa ao seu país as coisas já não são iguais, Sofia morrera e ele culpa o primo. Tudo se precipita, à procura de quem o traíra a si e ao pai, vai de descoberta em descoberta. Tiago enreda-se numa vingança sem retorno, sem futuro nem para ele nem para ninguém. É Nupi quem lhe revela toda a verdade, ali, tão evidente e que ele sempre se recusou ver...
Apesar da realidade dura das prisões e calabouços portugueses, da injustiça de uma inquisição que tortura inocentes, das vidas despedaçadas, dos destinos adulterados, li o livro sem angústia, sem revolta, sem o incómodo da impotência ou da dor. A narrativa é tão serena, as coisas fluem tão naturalmente, a inevitabilidade dos factos é vivida numa simbiose tal que nos sentimos serenamente presos nesta trama, com vontade de descobrir o final.Como diz a contra capa, Zimler dá-nos um livro imaginativo, estimulante e profundamente sensível.

Não deixem de o ler!
Podem ler aqui no blog da Noémia.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A montanha da alma

Hoje em dia quando falamos da China temos duas abordagens possíveis e imediatas. Uma, é o nosso pensamento viajar no tempo e virem-nos à memória imagens de uma cultura milenar onde imperadores, porcelana de mil e uma cores, pagodes, paisagens que rompem os vapores das nuvens, sedas e concubinas são só pormenores de uma longa lista.

A outra abordagem é a de nos saltarem à ideia as incontáveis lojas de vende tudo, que povoam o nosso país, e o sentido pejorativo de “compraste no chinês?”.Parece que falamos de dois países diferentes e debatemo-nos entre sentimentos opostos.

Num tempo em que os jogos olímpicos estão, ainda, tão na ordem do dia e que nos mostraram uma China poderosa, que se esmerou por mostrar ao mundo as suas grandes capacidades, não só na organização do evento como também nos atletas medalhados ( um em cada modalidade, pelo menos) acho que vem a propósito falar de Gao Xingjian.

Gao Xingjian nasceu na China em 1940, vive em França desde 1988, é romancista, pintor, dramaturgo, encenador, crítico literário, poeta e o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto da sua obra em 2000.

Eu li, há já algum tempo, a Montanha da Alma que é um livro seu, de 546 páginas, e onde todas as características do autor, acima mencionadas, se revelam magistralmente.



Adorei lê-lo, saborei frases e passagens, tocou-me a alma, por isso vos falo dele!

O eu narrador que nos conta a sua viagem através do país profundo, à procura da Montanha da Alma, local mítico e incerto no mapa da China, vai-nos mostrando, com nostalgia, um país desconhecido, ancestral, intocado e puro ( também duro e pobre) que contrasta com um país burocrata, espartilhado, injusto e cego pela revolução maoísta, que, por sua vez, choca com as metrópoles modernas, industriais e capitalistas, onde pululam jovens ocidentalizados e incaracterísticos.

Somos confrontados com três épocas marcadas por ideologias diferentes cujas alterações profundas na sociedade traçam destinos, muitas vezes preversos, em algumas das pessoas que se cruzam com o autor e noutras deixam-nas cristalizadas como se não tivesse havido revolução ( evolução? ). Surge-nos um país pintado como um quadro, de fortes contrastes.

Não é um livro fácil com uma qualquer história que é contada. Não há uma história, há histórias que se vão contando, de ele ou ela que se cruzam com o narrador. As mulheres mais castigadas, sofridas, numa sociedade preconceituosa.

É díficil explicar as emoções que esta narrativa desperta, a poesia que destila na descrição de paisagens ou dos sentimentos, a delicadeza e o pudor das relações humanas ou religiosas (budista e taoísta essencialmente) .

« E é assim que uma paisagem vulgar a que não se presta a mínima atenção deixa no intímo uma impressão profunda. Em mim, faz nascer subitamente uma espécie de desejo, uma vontade de entrar nela, de entrar nessa paisagem de neve, não ser mais que uma silhueta, uma silhueta que obviamente não teria quarquer sentido se não estivesse a comtemplá-la da janela. O céu sombrio, o chão coberto de neve ainda mais brilhante em contraste com este céu sombrio, já não há melros, já não há pardais, a neve absorveu qualquer ideia e qualquer sentido. »

« Este "eu" no meio do tu não é senão um reflexo no espelho, a imagem invertida das flores na água; se não entrares no espelho, não conseguirás apanhar o que quer que seja e só terás piedade de ti próprio em pura perda. »

E depois como num texto dramático, em que alternam as personagens “ela diz, tu dizes” mas sempre com a poesia nas palavras:

« Tu dizes que acabas de sonhar, adormecido sobre ela. Ela diz que é verdade, há um momento ela falava contigo, tu não dormias, ela diz que te acariciava e enquanto tu sonhavas, ela tocou o teu pulso, apenas há um minuto. Dizes que é verdade, tudo era ainda distinto, sentias a doçura dos seus seios, a respiração do seu ventre. Ela diz que te abraçava, que te tocou o teu pulso. Dizes que viste erguer-se a superfície negra do mar,a superfície perfeitamente plana, levantou-se lenta e inexoravelmente.Comprimida, a linha entre o céu e o mar desapareceu e a superfície negra ocupou todo o espaço. Ela diz que dormiste colado ao seu peito. Dizes que sentiste os seus seios a crescer como uma maré negra, que o fluxo era como um desejo que aumenta, cada vez mais forte; quando ela ia engolir-te, dizes que sentiste uma espécie de inquietação. Ela diz: estavas sobre o meu peito como uma criança tranquila(...)»

A Viagem à procura da Montanha da Alma é como a demanda do Santo Graal. Uma viagem interior à procura da beleza, da pureza, do conhecimento, de si mesmo... E percebemos claramente isso quando, ao longo da leitura, sentimos que estamos nós próprios à procura de qualquer coisa, ... de nós mesmos.

Essa escalada à montanha, aos cinco mil metros, de altura ou profundidade na própria mente, é acompanhada da incapacidade das palavras, da mistura onírica da realidade, ou como diz Noel Dutrait no prólogo, “evocação da realidade absurda ou kafkiana contemporânea”.

E o livro termina:

« Fingir compreender, mas de facto, não compreender nada.

Na realidade, não compreendo nada, estritamente nada.É assim.»

Há livros que não se explicam, leêm-se!


Pode ler aqui no blog da Noémia.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A sombra do vento

Há uns dias atrás a ameixa seca convidou-me para fazer parte duma tertúlia literária e comentar um livro de que eu tivesse gostado. Aceitei o convite, lisonjeada, mas surgiu-me uma crise existencial...que livro comentar quando gosto de tantos?

Ler é, e sempre foi, uma paixão! Tinha três anos apenas e já vislumbrava que a leitura seria um passaporte para viagens e amigos incontáveis e, quando ia às compras com a minha avó, entrava na drogaria, ela sentava-me no balcão e eu punha-me a ler os rótulos da embalagens; O-mo, Ti-de...espertalhona soletrava e tudo! As pessoas à minha volta maravilhavam-se com o prodígio. Tão pequenina e já sabia ler! Pois, eu tinha e tenho é uma memória fotográfica!

Aos doze anos tinha já devorado tudo o que era próprio para a minha idade, Enid Blyton, Odete de Saint Maurice, Júlio Dinis etc. Então o meu pai deu-me autorização para ler as prateleiras de baixo de determinada estante. Eram esses os livros que eu lia de dia e dos quais já nem me lembro dos títulos...Porque à noite...Li às escondidas Stefan Zweig, Dostoievski, Baudelaire. Claro que não percebia aqueles "frissons" apaixonados mas, mais tarde, reli esses autores e entendi.

Percebem agora a minha dúvida? Que livro partilhar? Há livros que nos marcam terrivelmente consoante a idade em que os lemos ou a fase de vida por que passamos.

Assim, porque estou de férias e não tenho grande parte dos livros que amo perto de mim, resolvi comentar « A sombra do vento » de Carlos Ruiz Zafón, vencedor de alguns prémios, nascido em Barcelona e morador em Los Angeles onde colabora com alguns jornais.


A acção deste livro desenrola-se em Barcelona e atravessa diversas épocas, o pós guerra, a Guerra Civil espanhola e o Franquismo, dando-nos uma visão histórica e de costumes. Mas isso é só a paisagem...

O livro começa numa madrugada, com um pai que leva pela mão o seu filho, no maior dos segredos, ao cemitério dos livros esquecidos para que ele escolha um que terá que manter sempre vivo.

« - Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte....»

Este adolescente escolherá, ao acaso, um livro maldito e deixar-se-á cativar de tal maneira pelo enredo que não descansará enquanto não resgatar o seu autor do anonimato. Este facto modificará para sempre a sua vida e arrasta-o para um labirinto de intrigas e segredos em que o passado se cruza com o presente, através de uma Barcelona obscura.

O amor está presente ao longo de toda a narrativa, numas personagens, alucinado e não correspondido; noutras, épico, ingénuo e puro; noutras ainda, doentio e vagabundo.

«Ao atravessar a sala na base da escadaria, Julian ergueu a vista e vislumbrou de raspão uma silhueta a subir com a mão no corrimão. Sentiu que se perdia numa visão.(...) Tinha sonhado com ela em inúmeras ocasiões, com aquela mesma escada, aquele vestido azul e aquela expressão no olhar de cinza, sem saber quem era nem por que lhe sorria.(...) Havia tempo que a aia tinha aprendido a reconhecer nos seus olhares o desafio e a arrogància do desejo: uma vontade cega de serem descobertos, de que o seu segredo fosse um escândalo apregoado e deixassem de se esconder nos cantos e desvãos para se amarem às apalpadelas. (...) Foi então que Julian conduziu Penélope até ao quarto de Jacinta no terceiro andar da casa. Despiram-se à pressa, com raiva e anseio, arranhando a pele e desfazendo-se em silêncios. Aprenderam os corpos um do outro de cor e enterraram aqueles seis dias de separação em suor e saliva...»

Surgem-nos personagens fantásticas, de uma densidade psicológica fascinante, que nos mantêm presos num suspense quase de narrativa policial, que nos levam a ler quase de um fôlego, página atrás de página.

Clara Barceló, cega e ninfomaníaca; Neri o professor de música e gigôlo; Fermin Romero de Torres, vagabundo resgatado à rua e que se revela um filósofo e braço direito de Daniel; Fumero, chefe da polícia que persegue tudo e todos como uma sombra derramando a sua raiva e esperando a sua presa com paciência de aranha; Nuria, tradutora e apaixonada infeliz de Julian; Miguel, o mais fiel dos amigos; Penélope e Bea as mulheres amadas por Julian e Daniel respectivamente; etc...

E, curiosamente, quanto mais Daniel investiga Julian Carax, o autor desconhecido do seu livro, mais a história que descobre se parece com a vida que ele próprio vai vivendo, num paralelismo que nos parece tão evidente que lhe adivinhamos o final trágico,... de um e de outro.

Mas seria demasiado óbvio para um romance tão bem construído!

É exactamente esta obstinada procura, esta fidelidade incorruptível deste jovem Daniel que levará a um desfecho inesperado que eu não vos vou contar, claro!

O autor deste livro tem um estilo único, uma linguagem forte, descrições pormenorizadas e poéticas. Irónico e até cínico na análise da vida. Hilariante e desconcertante quando menos esperamos.

Bea diz já no final da história « que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele aquilo que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.» Eu digo isto quase todos os dias na ânsia de motivar para a leitura.

Muito mais haveria a dizer mas acho que o post já vai longo demais. Espero ter conseguido aguçar-vos a curiosidade, suficientemente, para que tenham a tentação de ler o livro e, acreditem, é muito melhor do que eu o descrevi.
Pode ler aqui no blog da Noémia.