sexta-feira, 20 de março de 2009

Memória de minhas putas tristes



Conta a história de um velho jornalista de noventa anos que deseja festejar a sua longa existência de prostitutas, livros e crónicas com uma noite de amor com uma jovem virgem. Inspirado no romance "A Casa das Belas Adormecidas" do Nobel japonês Yasunari Kawabata, o consagrado escritor colombiano submerge-nos, num texto pleno de metáforas, nos amores e desamores de um solitário e sonhador ancião que nunca se deitou com uma mulher sem lhe pagar e nunca imaginou que encontraria assim o verdadeiro amor. Rosa Cabarcas, a dona de um prostíbulo, conduzi-lo-á à adolescente com quem aprenderá que para o amor não há tempo nem idade e que um velho pode morrer de amor em vez de velhice.

A escrita incomparável de Gabriel García Márquez num romance que é ao mesmo tempo uma reflexão sobre a velhice e a celebração das alegrias da paixão.



É uma obra muito curta e por ser muito bem escrita, lê-se Memórias de Minhas Putas Tristes de uma sentada, eu li em cerca de 2-3 horas.
No entanto é recompensador, ao fim do livro, perceber que o narrador vai ficando cada vez mais leve ao sentir que não vai morrer ao entrar no seu 91º ano de vida e que está disposto a viver com plenitude e sabor os seus cem anos de solidão.
Esse livro quando saiu foi uma confusão por causa do título, que muito pouco tem a ver com o conteúdo do mesmo, "Memória de minhas Putas tristes", é um romance muito sensível para um título tão pesado, talvez seja exactamente aí que se encontra o contra ponto.

"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem."

"Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prémio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem de minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reacção contra a minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do Zodíaco."
Excertos
- Memórias de Minhas Putas Tristes.

É assim que começa este magnífico livro do grande Gabriel García Márquez, autor do que considero o melhor livro que alguma vez li: Cem Anos de Solidão, que foi Prémio Nobel de Literatura em 1982.

Podem ler aqui no blog da Miss Slim.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Concha Buika



A Concha Buika veio ao meu encontro por acaso; a Mariza convidou-a para gravar uma musica, a musica passou na antena 1, eu ouvi e fiquei fã (não da Mariza, claro).

Como queria mesmo ter essa musica (as pequenas verdades) e não me apetecia nada comprar um disco da Mariza passei na Fnac e procurei - bem, não foi bem procurar, limitei-me a perguntar o que havia por lá da Concha, a menina disse que só tinham o livro – afinal era um livro e mais dois CD’s – fixe.

O CD1 – Niña de fuego

O CD2 – Aquí hay amor

De destacar, la falsa moneda (a preferida das Mission), as pequenas verdades (a minha preferida), luz de luna (a mais detestada pelos vizinhos), volver (Mr. Gardel, a rapariga esforçou-se, não dê tantas voltas no túmulo).
E prontes, highly recomended…
E com uma singela homenagem a Chavela Vargas…

Tu cara y Chavela

Es una noche sosegada,
Limpia y pura.
Hay una luz traicionera
Manipulando las sombras.
O tu cara o ninguna
Entre mis ojos y la luna.

Y al fondo canta Chavela,
Porque hoy Chavela canta
Y nosotros extasiados,
No nos decimos nada.

La musa siempre lloró cantando,
Los que a morir de amor fueron com miedo,
Lloran hoy com ella.
Yo, que hacia el desamor fluyo serena,
Me desvanezco
Tatuando deseos inconfesos
Sobre tu piel aceitunada,
Gracias, por este aplauso dice Chavela.

Gracias por darme tu nombre.
Tu abrazo sabe a más,
Cuando ella canta Las Ciudades.



Podem ler aqui no blog do Cupido.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Segredos

Uma vez mais venho deixar o meu contributo para a Academia Literária, desa feita com um livro de Danielle Steel. Não sei se já vos disse, mas esta é pura e simplesmente a minha autora favorita, tenho mais de 40 livros da sua autoria e ainda não houve nem um que não gostasse de ter lido (estou agora a fazer uma colecção de DVDs de filmes baseados nos seus livros). Este que acabei de ler ontem à noite é também muito interessante, pois narra a história dos bastidores de uma série de televisão e os segredos que giram em torno dos seus actores.



Mel Wechsler, um talentoso produtor de televisão, quer transformar a série Manhattan num êxito estrondoso, e dispõe-se a reunir, para o efeito, um elenco fabuloso:
Sabina Quarles, uma estrela de cinema de Holliwood em decadência, que ambiciona readquirir o protagonismo e a segurança financeira a que estava habituada;
Jane Adams, uma actriz dedicada aos filhos, dominada por um marido abusivo e violento, que descobre que o seu papel em Manhattan lhe proporciona tudo o que mais lhe interessa;
Zack Taylor, o actor principal e modelo de profissionalismo, cuja simpatia, boa aparência e encanto próprio de um homem solteiro escondem um enigma;
Gabrielle Thornton-Smith, uma actriz bela, talentosa e à beira do sucesso aos vinte e cinco anos, que parece esconder algo;
Bill Warwick, um jovem actor em ascensão meteórica, que mentiu em relação ao seu passado, o que poderá pôr em risco a continuação da série quando tiver que enfrentar publicamente as consequências dos seus actos.
Conseguirá o elenco e a equipa técnica de Manhattan levar a série a ser o êxito televisivo que desejam enquanto lidam com as suas tragédias pessoais, novos amores e acontecimentos dramáticos?


Notas sobre a autora:


Danielle Steel nasceu en Nova Iorque a 14 de Agosto de 1947 e os seus livros estão entre os mais vendidos do mundo. Já vendeu mais de 560 milhões de cópias, traduzidos em 28 línguas e vendidos em 47 países, sendo que 22 das suas obras foram adaptadas para televisão.
Viveu grande parte da sua infãncia em França, tendo retornado aos Estados Unidos para completar a sua formação.
Foi casada por cinco vezes e é mãe de 9 filhos. Já viveu períodos de grande agitação sentimental, entre eles o suicídio do seu filho Nick, aos 19 anos, após lhe ter sido diagnosticado uma doença mental (sobre isso publicou o livro "O Meu Filho Nick".

Podem ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Tigre Branco


Há cerca de três semanas fui contactada pela Editorial Presença que, simpaticamente perguntou se a Academia estava interessada na recepção de um exemplar do livro que venceu o Man Booker Prize 2008 e que foi recentemente editado em Portugal, para posterior crítica literária.
Respondi afirmativamente e aguardei novas indicações. Entretanto, falei com a Cláudia M. para decidir quem leria o livro. Acabei por lê-lo eu. Recebi-o, faz hoje uma semana, e já o li!

Este é o romance de estreia de Aravind Adiga, nascido na Índia mas criado na Austrália e nos Estados Unidos. Só tendo algum conhecimento acerca do país, da sociedade, das pessoas, se tem bases e alicerces para escrever um livro tão transparente, revelador e envolvente.

Um livro que, no fundo, é carregado de seriedade mas cuja linguagem irónica e bem humorada o transformam num romance distinto.

Hoje em dia, a Índia, atrai o Ocidente como nunca o havia feito. O vencedor do Óscar de melhor filme "Quem quer ser milionário" retratou muito bem algumas vertentes desta sociedade: a pobreza extrema, a luta para conseguir comer e ter um emprego, a corrupção, as tradições, os fossos entre as classes sociais e tantas outras coisas que fazem parte de todos os outros países do mundo.

Não me coíbo de dizer que "O Tigre Branco" daria um grande filme! Sem dúvida, mereceu o Man Booker Prize.

O livro baseia-se na escrita de cartas de um pobre criado indiano ao Primeiro-Ministro chinês. Nelas, ele conta o seu percurso desde a infância até aos dias de hoje.
Fá-lo com toda a naturalidade do mundo, na esperança de explicar que a Índia é mais e, muitas vezes, menos do que aquilo que julgamos.


À medida que fui lendo fui anotando passagens que achei interessantes. Deixo aqui algumas, uma das quais faz alusão ao título do livro mas não revelo tudo:

«(...) A Índia é formada por dois países num só: uma Índia da luz, e uma Índia da Escuridão.»


«Sr. Jiabao, eu aconselho-o a não mergulhar no Ganges, a menos que queira ficar com a boca cheia de fezes, de palha, de bocados encharcados de cadáveres humanos, de carne putrefacta de búfalo, para além de sete tipos diferentes de ácidos industriais.»

«O inspector apontou-me directamente a bengala. - Tu, jovem, és um fulano inteligente, honesto e vivaz entre este magote de rufias e imbecis. Em qualquer selva, qual é o animal mais raro... a criatura que só aparece uma única vez em cada geração?»

«Resumindo - nos bons velhos tempos, havia mil castas e destinos na Índia. Hoje em dia, existem apenas duas castas: Homens de Barriga Grande e Homens de Barriga Pequena.
E apenas dois destinos: comer - ou ser comido.»

«Era verdade, ela fazia mesmo lembrar uma actriz que eu vira algures. Como a actriz se chamava é que não fazia ideia. Foi só quando fui para Bangalore e aprendi a aceder à Internet (em apenas duas rápidas sessões, note-se bem!) que encontrei a fotografia e o nome dela no Google.
Kim Basinger.»

«Os sonhos dos ricos e os sonhos dos pobres - nunca coincidem, pois não?
Está a ver , os pobres toda a vida sonham em ter o suficiente para comer e em ficar parecidos com os ricos. E os ricos, com que é que sonham?

Com perder peso e ficar parecidos com os pobres.»
«- Balram, põe a música do Sting outra vez a tocar. É a música que melhor se adequa aos engarrafamentos.»

Há uma passagem que descreve muito bem o percurso deste livro:

«(...) - como é criado, como supera os obstáculos, como se mantém orientado para os seus verdadeiros objectivos e como é recompensado com a medalha de ouro do êxito.»


Este é o primeiro livro que pertence a todos os sócios da Academia.
Espero que, um dia, possamos todos assiná-lo!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Quem quer ser bilionário


Estava constipada, a luz do monitor fazia-me impressão nos olhos, por isso li este livro num fim-de-semana. E gostei imenso! Conta a história de um órfão indiano, pobre e sem instrução - Ram Mohammad Thomas - que consegue atingir o prémio máximo no "quem quer ser milionário" lá da Índia. Como ele é pobre e sem estudos, é logo preso, pois acham que ele fez alguma espécie de batota. E a história da vida dele é contada assim: justificando como sabia cada resposta que deu no concurso.

Um livro excelente! Agora só me falta ir ver o filme!

Um conselho: façam sempre o bem sem olhar a quem! (quando lerem o livro vão entender porquê!)

Podem ler aqui no blog da Saltapocinhas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O Doutor Jivago

Boris Pasternak (1890 – 1960) – Doutor Jivago

Estudou filosofia, mas renunciou ao trabalho nessa área (como antes renunciara à música) para se dedicar à poesia. Publicou os primeiros versos em 1913, mas é na prosa que se destaca. A síntese da sua obra, segundo o próprio, é Doutor Jivago (1945/56). Proibido na URSS, por ser considerado “não-revolucionário”, o romance foi publicado em Itália em 1957 e traduzido para as principais línguas depois de o autor, precursor de toda a dissidência, ser Nobel no ano seguinte (prémio que declinou por não poder sair da URSS).


“Quem é Iura Jivago? Um homem dividido entre duas mulheres? Um poeta? Um burguês que não se adapta a uma revolução inevitável? O drama do Dr. Jivago reside, somente, na atracção por Lara Guicharova e na infinita ternura por Tonia, sua mulher? Ou terá um alcance mais vasto?”

Acho que, respostas, só lendo esta masterpiece da literatura do século XX…

Já agora, parece-me que um tipo chamado David Lean fez um filme baseado no livro, por aí em 1965.

Podem ler aqui no blog do Cupido.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Catarina de Bragança

Já há bastante tempo que não escrevia para a Academia, primeiro porque andei um bocadinho arredada dos livros e porque depois comecei a ler um livro muito grande. Mas agora aqui estou eu a cumprir o meu dever de sócia da Academia dos Livros, o que neste caso não é só um dever mas também um prazer.




Acabei agora de ler o livro de Isabel Stilwell, Catarina de Bragança, A Coragem de uma Infanta Portuguesa que se tornou Rainha de Inglaterra. Este livro conta a história de Catarina de Bragança desde o nascimento até à morte. A escrita da autora é muito simples e fluida. O livro não pretende ser uma obra-prima da literatura, apenas uma biografia completa da rainha. Apesar de alguns factores serem romanceados, todas as fases da vida de Catarina são contadas com muito rigor histórico e são raras as personagens do livro que não são reais.
O livro começa por contar a infância simples e despreocupada de Catarina e de seus irmãos no Palácio de Vila Viçosa. Na altura eram apenas herdeiros do Duque de Bragança, não sonhavam que um dia o seu pai iria ser rei e eles infantes de Portugal. Nessa época o país tinha caído sob o domínio de Castela, sendo Filipe IV de Castela também Filipe III de Portugal. Quando Catarina tinha 3 anos o seu pai tornou-se rei de uma nova dinastia de reis portugueses e toda a família se mudou para o Paço da Ribeira, em Lisboa.


Paço da Ribeira, Lisboa, Séc. XVII


O período da Restauração, com todas as suas dificuldades e as intrigas típicas de qualquer corte transformaram a vida de toda a família, principalmente a de D. JoãoIV e D. Luisa de Gusmão que enfrentaram as maiores dificuldades para vencer a guerra contra Castela. Mas também Catarina viu a sua vida completamente alterada e tocada muitas vezes pela tragédia. Foi aqui que perdeu os seus dois irmãos mais velhos, Teodósio, o herdeiro do trono, e Joana, a sua confidente. Foi aqui que lhe disseram, que com a morte de sua irmã, lhe caberia a ela a tarefa de fazer um casamento útil ao esforço de guerra. Foi também aqui que começou a formar o seu carácter com a influência positiva de Padre António Vieira e de seus pais. Poderíamos dizer que Catarina herdou o melhor de cada um dos seus pais: o carácter forte da mãe e o feitio doce do pai.



Durante anos foi negociado o seu casamento com Charles, herdeiro do trono da Inglaterra, para assegurar a ajuda financeira desse país à nossa guerra da Restauração. Como já disse no post anterior o dote da princesa foi pago em açúcar vindo do Brasil, especiarias vindas do Oriente, e também a praça de Bombaim, muito útil aos ingleses que assim iniciaram o sua intensa actividade comercial com a Índia, mais tarde colónia inglesa. Foi também D. Catarina que introduziu na corte inglesa o hábito de tomar chá a meio da tarde, hoje tão típico dos ingleses!A sua atribulada vida de casada fica por contar, quem quiser saber mais tem que ler o livro.
Em resumo, achei a obra muito interessante, muito rigorosa em termos históricos e muito agradável de ler. A autora, luso-britânica, mostra com subtileza as diferenças culturais existentes na época entre os dois países, e o peso gigantesco da religião na sociedade da época. Leiam. Uma lição de história nunca fez mal a ninguém. Ficamos sempre a perceber um pouco melhor o presente, quanto conhecemos bem o passado.



Podem ler aqui no blog da Isabel.

terça-feira, 10 de março de 2009

O Sétimo Selo



Um livro da autoria de José Rodrigues dos Santos, jornalista da RTP.

Um excelente livro, pleno de aventuras e viagens (muito viaja o Tomás de Noronha, balhamedeus!!).

Foca o problema do aquecimento global e os podres do negócio do petróleo e de como este negócio - o mais importante do mundo - condiciona a vida de todos nós.

Foca também, e de uma maneira muito realista (se calhar até demais), embora não seja esse o assunto principal do livro, os problemas dos velhos e da velhice.

Gostei imenso do livro (só não gostei muito dos diálogos...), por isso o recomendo.


Um livro a não perder!



Podem ler aqui no blog da Saltapocinhas.

terça-feira, 3 de março de 2009

Irei cuspir-vos nos túmulos

“Vian escreve muito acerca do amor e das mulheres. Creio que, para ele, só é possível encontrar mulheres bonitas ou mulheres inteligentes. Nunca a fusão desses dois pormenores :)”

O Engenheiro Vian publicou esta obra sob o pseudónimo de Vernon Sullivan. É um dos livros mais fantásticos/perturbantes que já li…

Lou acaba assim:

“Ela contorcia-se como um verme. Nunca me passaria pela cabeça que lhe custasse tanto a morrer; fez um movimento tão violento que eu julguei que o meu antebraço ia desprender-se; dei-me conta de que se apossava de mim uma tamanha cólera que de boa vontade a esfolaria; então, ergui-me para acabar com ela a pontapé, e apoiei todo o meu peso em cima dela, colocando-lhe um sapato de través na garganta. Quando ela deixou de bulir, senti de novo a sensação que pouco antes me assediara.”

Depois desta descrição:

“E havia-se perfumado com uma droga complicada, decerto muito cara; provavelmente um perfume francês. Tinha cabelo castanho todo puxado para um só lado da cabeça e olhos amarelos de gato selvagem num rosto triangular bastante pálido; e cá um destes corpos… Prefiro não pensar nele. O vestido aguentava-se sozinho, não sei como, nem nos ombros nem à roda do pescoço, nada, excepto os seus seios”.




Podem ler aqui no blog do Cupido.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A filha do Capitão


Um romance de José Rodrigues dos Santos, de que gostei bastante.
Este romance inicia-se no fim do séc. XIX, quando nasce Afonso Brandão, num ambiente bem pobre, no Ribatejo.
É um livro imperdível para quem gosta de história.
Foca essencialmente o fim da monarquia e o início (bem conturbado) da república.
Mas o assunto principal é a 1.ª Guerra Mundial, vista - e sofrida - pelo lado português.
Também interessante pelas dúvidas do capitão Afonso (que são também minhas!) sobre onde começa o destino e acaba o livre arbítrio.
(O que nos acontece está pré destinado?)Vale a pena ler!

Podem ler aqui no blog da Saltapocinhas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Codex 632


A American History Foundation contacta o Prof. Tomás Noronha e propõe-lhe que conclua a investigação que o Prof. Toscano fazia antes de morrer inesperadamente. Para Tomás, um jovem professor na Universidade Nova de Lisboa especialista em paleografia e criptologia, esta é uma oportunidade muito boa, tanto em termos financeiros como do ponto de vista profissional, mas as coisas nem sempre são o que parecem. Tomás descobre que no decorrer da sua investigação o Prof. Toscano havia descoberto algo muito importante sobre as origens do grande navegador das descobertas: Cristóvão Colombo. É assim que começa uma grande aventura que passa por vários países em busca do que realmente aconteceu na época dos descobrimentos.

Ao longo do livro são muitas as referências a autores, livros e documentos históricos, em determinada altura é um pouco maçador, mas é interessante saber que todos estes documentos existem realmente e que estão mesmo guardados nos locais que Tomás visitou, são genuínos e tão reais como o mistério que envolve as origens de Cristóvão Colombo. Lamento apenas um certo repetivismo na explicação de algumas teorias

Confesso que quando li o1º capítulo e me deparei com a descrição da morte inesperada do Prof. Toscano pensei que este livro fosse uma "imitação" do livro de Dan Brown "O Código de Davinci", mas "O Codex 632" segue por trilhos mais históricos que misteriosos, o que faz deste livro uma obra mais interessante, pois apresenta mais provas que suposições. Quem gosta de decifrar charadas e enigmas vai encontrar bons desafios.

Valeu a pena conhecer o Tomás, que além de ser um excelente historiador, é também chefe de uma família muito especial, ainda que a sua vida particular seja relegada para segundo plano ao longo de quase todo o romance.

Sobre o autor:
José Rodrigues dos Santos é professor universitário e jornalista na RTP.
Já publicou vários romances best-sellers.
Para escrever este livro, inspirou-se numa obra do historiador Augusto Mascarenhas Barreto: "Cristóvão Colombo - Agente Secreto de El Rei D.João II".

"O Codex 632" encontra-se editado em Portugal, Brasil, Espanha, Itália e Reino Unido.
Pode ler aqui no blog da Moonlight.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

História Universal da Infâmia


A História Universal da Infâmia, é um pequeno grande livro desse grande autor que é Jorge Luis Borges que é uma delícia de se ler!
Jorge Luis Borges, escreveu este conjunto de pequenos contos/relatos/biografias na sua juventude entre 1933 e 1934 e dá-nos a conhecer de uma forma simples, eficaz, resumida e até mesmo divertida, os nomes e a história da vida de certas personagens que foram autênticos criminosos, assassinos e vigaristas ao longo de vários séculos e locais.
Temos desde pistoleiros do velho oeste como Billy The Kid, a uma mulher pirata chinesa, samurais caídos em desgraça ou pretensos profetas árabes, tudo narrado de uma forma maravilhosa que nos prende da primeira à última página.
Deixo aqui uma nota explicativa do próprio autor sobre esta sua obra: "(A História Universal da Infâmia) são a irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu em fabricar e tergiversar (sem justificativa estética, vez ou outra) alheias histórias. (...) Derivam, creio, das minhas releituras de Stevenson e de Chesterton e também dos primeiros filmes de Von Sternberg e talvez de certa biografia de Evaristo Carriego."
Li a edição da colecção Biis da Leya, que traz grandes obras a um preço muito acessível e num formato de "bolso" mas que se leêm muito bem.


Podem ler aqui no blog do Pipas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Expiação


Não consigo acreditar que só aos 33 anos descobri Ian McEwan. Mas assim que comecei, não consegui mais largar. Já li três, mas pretendo ler todos os livros deste autor. Como já aqui disse estou completamente apaixonada pela escrita de Ian McEwan. Faz-me vibrar. Leio e releio frases de tão lindas que são, de tão inteligentes, de tão bem escritas.



O último livro que li foi este magnífico Expiação, que recomendo vivamente. Já tinha visto o filme, que achei muito bom, mas o livro consegue ser mil vezes superior. E arrebatador. Acho que vou fazer apenas um pequeníssimo resumo da história para não estragar a surpresa de quem não leu: Uma criança imaginativa demais julga mal alguns acontecimentos que presencia e comete um erro que marcará para sempre três vidas, a dela, Briony Tallis, a da irmã mais velha, Cecília Tallis e a de Robbie Turner.



Fiquem com este bocadinho:
"Enquanto esteve preso, a única mulher por quem podia ser visitado era a mãe. Caso estivesse "inflamado", diziam eles. Cecilia escrevia todas as semanas. Apaixonado por ela, desejoso de manter a sanidade por ela, estava naturalmente apaixonado pelas palavras dela. Quando lhe escrevia fingia ser como era antigamente, mentia para se mostrar são. Por medo do psiquiatra, que funcionava como censor, nunca podiam ser sensuais, nem sequer emotivos. Estava numa prisão considerada moderna, esclarecida, apesar do seu ar vitoriano. Tinham diagnosticado, com precisão clínica, que ele era um indivíduo com uma hipersexualidade mórbida, que precisava tanto de ajuda como de correcção. Não devia ser estimulado. Algumas cartas - tanto dele como dela - eram confiscadas por uma tímida expressão de afecto. Por isso escreviam sobre literatura, usando as personagens como código. Em Cambridge tinham-se cruzado na rua. Tantos livros, tantos casais felizes ou trágicos sobre os quais nunca se tinham encontrado para discutir! Tristão e Isolda, o Conde Orsino e Olívia, Troilus e Criseyde, Mr Knightley e Emma, Vénus e Adónis. Turner e Tallis. Uma vez, em desespero, referiu-se a Prometeu, acorrentado a uma pedra, com o fígado a ser devorado diariamente por um abutre. Por vezes ela era a paciente Griselde. A referência a "um canto tranquilo na biblioteca" era um código para êxtase sexual. Também descreviam a sua rotina diária com um pormenor ao mesmo tempo monótono e amoroso. Ele relatava todos os aspectos da vida da prisão, mas nunca lhe dizia a que ponto era estúpida. Era óbvio. Nunca lhe dizia que tinha medo de morrer. Era demasiado claro. Ela nunca escrevia que o amava, embora o tivesse dito, se soubesse que essas palavras chegariam até ele. Mas ele sabia.
Disse-lhe que tinha cortado com a família. Não voltaria a falar com os pais nem com os irmãos. Ele seguiu de perto todos os passos dela para ter o diploma de enfermeira. Quando ela escreveu:" Hoje fui à biblioteca buscar o livro de anatomia de que te falei. Arranjei um canto sossegado e fingi que estava a ler", ele soube que Cecilia bebia das mesmas memórias que o consumiam todas as noites, por baixo dos finos cobertores da prisão."
Expiação, Ian McEwan


Podem ler aqui no blog da Isabel.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Uma vida normal

Vocês devem estar a pensar "Outro livro já lido? Mas ainda no dia 01 ela começou a ler este livro e já o terminou?"
Pois é... este livro é tão envolvente e tão lindo, que se lê de um fôlego.Uma história verídica de um jovem que, quis o destino (por razões ainda hoje desconhecidas) que nascesse sem mãos e sem pernas.
Graças a Deus que o Paulo Azevedo nasceu no seio de uma família especial, que sempre o tratou como qualquer outra criança, nunca o escondeu do mundo e fez tudo para que ele se tornasse uma pessoa autónoma.
Este é um livro que todos deveriam ler, este jovem é um exemplo de força e coragem e uma lição de vida para todos nós.Não vos vou falar mais sobre o livro... espero que o comprem (ou peçam emprestado a alguém) e depois digam-me se eu tenho ou não razão.



Paulo Azevedo nasceu no dia 29 de Outubro de 1981.
Sem aviso, e após uma gravidez de oito meses, a ainda adolescente Clara via-se com um filho diferente nos braços. O bébé não tinha mãos nem pernas e os médicos não auguraram nada de bom.O choque foi tremendo. Mas a fé, a coragem e determinação foram maiores.Sem mãos e sem pernas, Paulo tem hoje uma vida normal.


Pode ler aqui no blog da Risonha.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A vida num sopro


Acabei de ler “A vida num sopro” de José Rodrigues dos Santos e posso dizer que fiz uma bela viagem no tempo. Recuei ao ano de 1929 para conhecer Luís, um jovem transmontano que estuda no liceu de Bragança e que se apaixona por Amélia, uma menina de olhos cor de mel.

Este livro tem como base a história de amor entre Luís e Amélia, dois jovens estudantes cujo amor vai crescendo e enfrentando muitas dificuldades. De inicio a mãe de Amélia opõe-se ao relacionamento da filha, depois a vida vai pregando algumas partidas: separações, reencontros, surpresas, um crime, as teias de PVDE, a Guerra Civil Espanhola, enfim, vicissitudes próprias dos tempos conturbados que se viviam na altura.

Eu sei que quando se aconselha a leitura de um livro não se deve dizer muito, mas gostei tanto de ler este livro que não resisto a contar mais um pouquinho. Não vou contar a história, porque isso José Rodrigues dos Santos faz com mestria no livro, vou só relembrar os mais “distraídos” que os anos 30 foram muito agitados, em termos político/sociais. António de Oliveira Salazar tentava organizar Portugal, impondo a ordem e o respeito, para isso contava com a ajuda da pevide… cof … cof, quer dizer, PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) cuja missão era silenciar a vozes opositoras do governo cof… cof… cof, desculpem, cujo objectivo era fazer cumprir a lei da moral e dos bons costumes.
Mas convém salientar que este livro é, acima de tudo, um retrato social de Portugal entre 1929 e 1939. São espectáculos no Parque Mayer e filmes no São Luíz Cine, são vidas que se cruzam, emoções que se vivem.Um romance para ler com prazer!

Sobre o autor:
José Rodrigues dos Santos nasceu em Moçambique, actualmente é professor na Universidade Nova de Lisboa, também é jornalista e apresentador do Telejornal na RTP. Já trabalhou na Rádio Macau, na BBC e foi colaborador permanente na CNN. É um dos jornalistas portugueses mais premiados e já publicou seis romances.



Pode ler aqui no blog da Moonlight.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Belas mentiras

Não se assustem com o título da postagem... Vou falar do último livro que li..."Que postagem estranha para o primeiro dia do ano, ela deveria era falar do reveillon!" - devem pensar vocês...Mas como o último dia de 2008 foi passado na cama, bem como a passagem de ano, tive tempo de sobra para acabar de ler o livro que já tinha iniciado há alguns dias.Foi um reveillon diferente, mas sabem que mais? Tenho é que dar graças a Deus por, tanto eu como os meus, estarmos vivos e juntos... melhores reveillons virão.E nada melhor do que iniciar o ano de 2009 com uma postagem de algo que eu adoro: livros/ler.
Por isso cá fica o meu contributo para a Academia da qual sou sócia:




E se a sua família fosse uma mentira?

E se o seu nome fosse uma mentira?

E se a sua vida fosse um conjunto de Belas Mentiras?


Se Ridley Jones tivesse acordado dez minutos mais tarde ou tivesse apanhado o metro em vez de um táxi, ainda estaria a viver a bela mentira a que costumava chamar vida. Ainda seria a filha mimada de uns pais extremosos. A sua vida ainda seria perfeita - apenas maculada pela existência de um irmão toxicodependente e de um tio alcoólico com ligações ao submundo.Mas duas decisões insignificantes colocam-na no local e no instante certos para praticar uma boa acção, desencadeando uma série de acontecimentos que irá virá do avesso o mundo de Ridley...



Notas sobre a autora:

Natural de Connecticut, este é o romance revelação da autora. Lisa Unger, que passou grande parte da sua infância entre cidades, cedo aprendeu a observar os lugares e as pessoas, e a eleger a escrita como a sua melhor forma de expressão. Depois de vários anos em Nova Iorque, cidade que conhece a fundo e que a apaixona, vive actualmente com o marido na Florida onde se dedica a tempo inteiro à escrita.

Pode ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O pecado de Darwin


Mesmo tendo estado em casa demorei mais de três meses a ler este livro. Não é que não gostasse dele mas durante o dia tinha outras coisas para fazer e quando me ia deitar dava-me o sono e acabava por não o ler. Agora com as viagens de comboio voltei às leituras, terminei este e já estou quase a acabar o Sétimo Selo. O facto de admirar o trabalho de Darwin fez com que gostasse deste livro, das revelações feitas e de toda a história que envolve a vida do naturalista. Aproveito para participar com mais um livro na Academia dos Livros.


O Pecado de Darwin, de John Darnton


“O Pecado de Darwin leva-nos à Inglaterra Vitoriana para nos revelar os segredos que rodeiam a vida e a obra do cientista britânico Charles Darwin, num romance que, além de combinar harmoniosamente factos históricos e ficção, responde a questões como: o que levou Darwin a formular a teoria da evolução? Porque demorou vinte e dois anos a publicar A Origem das Espécies?
Ao longo desta obra, Darnton reescreve a verdadeira história de Darwin sob três perspectivas diferentes: a do próprio explorador enquanto jovem, a da sua filha Lizzie e a dos investigadores Hugh Kellem e Beth Dulcimer, cuja obsessão pelo naturalista (e um pelo outro) os leva muito além de uma mera investigação académica. Ao descobrirem os diários e as cartas de Lizzie, Hugh e Beth encontram um capítulo oculto da bibliografia de Darwin, que vai revelar inúmeros segredos, no quais reside o nascimento da teoria da evolução.”

Pode ler aqui no blog da Carla.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Operário em Construção

Conhecem Vinicius?
Ele vive nas músicas e nas palavras que deixou. Nunca ninguém cantou o amor como ele! Nas paixões, desilusões, angústias e alegrias. Vinicius é um artista completo, ele usa as palavras e a música como forma de demonstrar o que lhe vai na alma. As palavras destilam sentimentos, promovem sensações, provocam pensamentos!
Vinicius é um vício bom, seja na música ou na poesia. Deleitem-se com as palavras e com os vídeos. Ficam aqui alguns dos meus sonetos favoritos e o poema "O Operário em Construção" que dá nome ao livro.

Soneto de Separação






De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Soneto do amor total




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afin, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


O Operário em Construção 1ª parte





O Operário em Construção 2ª parte







Era ele que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas se fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela casa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer sua profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia nada no mundo
Coisa que fosse mais bela
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
«... Convençam-no» do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!


Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.


Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão


Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Evangelho segundo Jesus Cristo

De José Saramago não há muito a dizer; paradoxalmente amado e reconhecido ou desprezado e ignorado, faz parte com Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Miguel Torga de um ínclito grupo de enormes Autores Portugueses. Pois e ganhou o Nobel.

Com Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço faz parte de um grupo de ilustres Portugueses que não quis viver em Portugal…
Como Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Milan Kundera ou Ernest Hemingway marcou de uma forma profunda a literatura do século XX.

Há outros grandes escritores na história da literatura? Claro que há, era o que faltava.

Assim, o que torna Saramago tão especial? Uma assombrosa Cosmogonia? Uma apurada reflexão sobre assuntos incómodos à maioria das pessoas? Uma desassombrada morfologia linguística que poupa virgulas e pontos finais ao ponto de deixar o leitor sem respiração? Como dizia o meu Professor de História do 6º ano: “não só, mas também”…

Efectivamente, confesso que a sua Cosmogonia me perturba menos que a de Bóris Vian ou a de Pier Paolo Pasolini. Ou mesmo a de Woddy Allen ou Patricia Highsmith. Ou se quiser recuar uns anos, à de Ludwig Van Beethoven. Ou mesmo à de Manoel de Oliveira ou Agustina Bessa Luís. E será assim tão incómodo? Talvez, mas a quem já leu Franz Kafka ou Georges Bataille ou Henry Miller ou o Marquês de Sade ou mesmo E. G. Wells não incomodará por aí além. Ou para quem leu Nietsche… E o ritmo alucinante das narrativas? Basta ouvir o “movimento perpétuo” de Carlos Paredes para se poder ouvir/ler o discurso de Saramago.


E já agora, porquê esta Obra? Não seria eventualmente mais confortável falar d’o Memorial do Convento, essa obra maior da nossa literatura, ou d’o Ensaio sobre a cegueira, ainda por cima agora recriada em filme por Fernando Meirelles? Claro que sim, mas a tentação de Saramago de reflectir sobre uma personagem que marcou de uma forma tão profunda a nossa história nos últimos vinte séculos deve ter sido tudo menos estimulante. Desde os Concílios Medievais que “fabricaram” a Bíblia Sagrada até às reflexões sobre a história do Cristianismo ou mesmo obras de referência do século passado, temos uma grande panóplia de obras sobre a figura de Jesus Cristo, muitas delas produzidas no século passado (tempo a que não serão alheios os estudos sobre o Santo Sudário ou as aparições Marianas – aliás, a Virgem Maria é figura central na teologia do século XX). Nikos Kanzantzakis escreveu uma grande obra sobre Jesus Cristo e levada à tela por Martin Scorcese (“a última tentação de Cristo”, com Willem Dafoe, Harvey Keitel e Barbara Hershey, realizado em 1998); se Mel Gibson (“a paixão de Cristo”) também quis apresentar a sua “reflexão”, para não falar da soberba “Ópera-Rock” Jesus Christ Superstar, de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber também “convertida” em filme, o que poderia impedir um grande Escritor de escrever um “Evangelho” - apócrifo – e neste “mostrar” a sua Magna personagem?


Provavelmente nada…


E, José Saramago, como grande escritor universal, que transcende mesmo o seu tempo, apresenta-nos neste Evangelho uma visão intemporal e muito própria sobre Jesus Cristo, perturbante e genial, para ser lida com a abertura intelectual de quem não se importar de manter a Bíblia Sagrada ao lado e eventualmente alternar a leitura… afinal de contas estamos a falar de uma das figuras mais importantes, perturbantes e eventualmente a mais incontornável da nossa Civilização.

E o grande Saramago, a páginas 283 a 285 da primeira edição da Caminho relata desta forma extraordinária o encontro com Jesus e Maria de Magdala, um dos mais perturbantes “encontros” para a Teologia da Igreja Católica Romana:


“Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir que o aliviasse das dores e curasse as chagas que, mas isso não o sabia ela, tinham nascido noutro encontro, no deserto, com Deus. Deus dissera a Jesus, A partir de hoje pertences-me pelo sangue, o Demónio, se o era, desprezara-o, Não aprendeste nada, vai-te, e Maria de Magdala, com os seios escorrendo suor, os cabelos soltos que parecem deitar fumo, a boca túmida, olhos como de água negra, Não te prenderás a mim pelo que te ensinei, mas fica comigo esta noite. E Jesus, sobre ela, respondeu, O que me ensinas, não é prisão, é liberdade. Dormiram juntos, mas não apenas essa noite. Quando acordaram, já manhã alta, e depois de uma vez mais os seus corpos se terem buscado e achado, Maria foi ver como estava a ferida do pé de Jesus, Tem melhor ar, mas não devias ir ainda para a tua terra, vai-te fazer mal o caminho, com esse pó, Não posso ficar, e se tu mesma dizes que estou melhor, Ficar, podes, a questão é que tenhas a vontade, quanto à porta do pátio, estará fechada por todo o tempo que quisermos, A tua vida, A minha vida, nesta hora, és tu, Porquê, Respondo-te com as palavras do Rei Salomão, o meu amado meteu a mão pela abertura da porta e o meu coração estremeceu, E como posso ser o teu amado se não me conheces, se sou apenas alguém que te veio pedir ajuda e de quem tiveste pena, pena das minhas dores e da minha ignorância, Por isso te amo, porque te ajudei e te ensinei, mas tu a mim é que não poderás amar-me, pois não me ensinaste nem ajudaste, Não tens nenhuma ferida, Encontrá-la-ás se a procurares, Que ferida é, Essa porta aberta por onde entravam outro e o meu amado não, Disseste que sou o teu amado, Por isso a porta se fechou depois de entrares, Não sei nada que possa ensinar-te, só o que de ti aprendi, Ensina-me também isso, para saber como é aprendê-lo de ti, Não podemos viver juntos, Queres dizer que não podes viver com uma prostituta, Sim, Por todo o tempo que estiveres comigo, não serei uma prostituta, não sou prostituta desde que aqui entraste, está nas tuas mãos que continue a não o ser, Pedes-me demasiado, Nada que não possas dar-me por um dia, por dois dias, pelo tempo que o teu pé leve a sarar, para que depois se abra outra vez a minha ferida, Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais não te farão diferença, ainda és novo, Tu também és nova, Mais velha do que tu, mais nova que a tua mãe, Conheces a minha mãe, Não, Então porque disseste, Porque eu nunca poderia ter um filho que tivesse hoje a tua idade, Que estúpido sou, Não és estúpido, apenas inocente, Já não sou inocente, Por teres conhecido mulher, Não o era já quando me deitei contigo, Fala-me da tua vida, mas agora não, agora só quero que a tua mão esquerda descanse sobre a minha cabeça e a tua direita me abrace.”


E Jesus e Madalena são aqui “perdoados”, num discurso sublime… Jesus e Maria aparecem aqui muito mais humanos que na Liturgia.


É preciso mais para ler ou reler este livro fantástico?


Podem ler aqui no blog do Cupido.

A herança de Eszter



Já que ando numa de livros pequenos em tamanho mas grandes em qualidade, aqui fica outro que li a seguir ao A Morte de Ivan Ilitch que se enquadra nessa categoria:
A Herança de Eszter - de Sándor Márai.
Sándor Márai, escritor húngaro de quem já falei aqui sobre outro livro que li dele, Rebeldes, traz-nos esta pequena história de um amor mal resolvido e de uma separação de mais de 20 anos.
Eszter, apaixonada por Lajos, um homem sem escrúpulos, vigarista, ambicioso e mentiroso, que casou com a irmã mais velha dela, está há mais de 20 anos sem o ver e sem ter notícias dele, vivendo pacatamente na sua casa de família apenas com uma tia mais velha como companhia, até ao dia em que recebe um telegrama a avisa-la da chegada de Lajos.
A partir daí vem ao de cima todo um conjunto de emoções, dúvidas e certezas acerca do seu amor por lajos e por tudo o que passou nesses 20 anos devido a ele.
Com a chegada de Lajos, com os seus filhos e mais dois estranhos acompanhantes inicia-se um desfilar de conversas, de situações contraditórias, desabafos, descobertas surpreendentes e outras mentiras, terminando com a "queda" de Eszter nas "garras" de Lajos sendo enganada novamente, embora com plena consciência e permissão dela para isso, apesar dos avisos dos amigos mais chegados.
Sándor Márai com este livro fala-nos do amor, do destino, das leis da vida e da nossa força ou fraqueza perante essas forças que se juntam ou separam transformando a nossa vida de várias formas.
Mais um dos livros que recomendo a sua leitura, pequeno, com uma escrita simples mas também muito directa.


Pode ler aqui no blog do Pipas.