quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A filha do Capitão


Um romance de José Rodrigues dos Santos, de que gostei bastante.
Este romance inicia-se no fim do séc. XIX, quando nasce Afonso Brandão, num ambiente bem pobre, no Ribatejo.
É um livro imperdível para quem gosta de história.
Foca essencialmente o fim da monarquia e o início (bem conturbado) da república.
Mas o assunto principal é a 1.ª Guerra Mundial, vista - e sofrida - pelo lado português.
Também interessante pelas dúvidas do capitão Afonso (que são também minhas!) sobre onde começa o destino e acaba o livre arbítrio.
(O que nos acontece está pré destinado?)Vale a pena ler!

Podem ler aqui no blog da Saltapocinhas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O Codex 632


A American History Foundation contacta o Prof. Tomás Noronha e propõe-lhe que conclua a investigação que o Prof. Toscano fazia antes de morrer inesperadamente. Para Tomás, um jovem professor na Universidade Nova de Lisboa especialista em paleografia e criptologia, esta é uma oportunidade muito boa, tanto em termos financeiros como do ponto de vista profissional, mas as coisas nem sempre são o que parecem. Tomás descobre que no decorrer da sua investigação o Prof. Toscano havia descoberto algo muito importante sobre as origens do grande navegador das descobertas: Cristóvão Colombo. É assim que começa uma grande aventura que passa por vários países em busca do que realmente aconteceu na época dos descobrimentos.

Ao longo do livro são muitas as referências a autores, livros e documentos históricos, em determinada altura é um pouco maçador, mas é interessante saber que todos estes documentos existem realmente e que estão mesmo guardados nos locais que Tomás visitou, são genuínos e tão reais como o mistério que envolve as origens de Cristóvão Colombo. Lamento apenas um certo repetivismo na explicação de algumas teorias

Confesso que quando li o1º capítulo e me deparei com a descrição da morte inesperada do Prof. Toscano pensei que este livro fosse uma "imitação" do livro de Dan Brown "O Código de Davinci", mas "O Codex 632" segue por trilhos mais históricos que misteriosos, o que faz deste livro uma obra mais interessante, pois apresenta mais provas que suposições. Quem gosta de decifrar charadas e enigmas vai encontrar bons desafios.

Valeu a pena conhecer o Tomás, que além de ser um excelente historiador, é também chefe de uma família muito especial, ainda que a sua vida particular seja relegada para segundo plano ao longo de quase todo o romance.

Sobre o autor:
José Rodrigues dos Santos é professor universitário e jornalista na RTP.
Já publicou vários romances best-sellers.
Para escrever este livro, inspirou-se numa obra do historiador Augusto Mascarenhas Barreto: "Cristóvão Colombo - Agente Secreto de El Rei D.João II".

"O Codex 632" encontra-se editado em Portugal, Brasil, Espanha, Itália e Reino Unido.
Pode ler aqui no blog da Moonlight.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

História Universal da Infâmia


A História Universal da Infâmia, é um pequeno grande livro desse grande autor que é Jorge Luis Borges que é uma delícia de se ler!
Jorge Luis Borges, escreveu este conjunto de pequenos contos/relatos/biografias na sua juventude entre 1933 e 1934 e dá-nos a conhecer de uma forma simples, eficaz, resumida e até mesmo divertida, os nomes e a história da vida de certas personagens que foram autênticos criminosos, assassinos e vigaristas ao longo de vários séculos e locais.
Temos desde pistoleiros do velho oeste como Billy The Kid, a uma mulher pirata chinesa, samurais caídos em desgraça ou pretensos profetas árabes, tudo narrado de uma forma maravilhosa que nos prende da primeira à última página.
Deixo aqui uma nota explicativa do próprio autor sobre esta sua obra: "(A História Universal da Infâmia) são a irresponsável brincadeira de um tímido que não se animou a escrever contos e que se distraiu em fabricar e tergiversar (sem justificativa estética, vez ou outra) alheias histórias. (...) Derivam, creio, das minhas releituras de Stevenson e de Chesterton e também dos primeiros filmes de Von Sternberg e talvez de certa biografia de Evaristo Carriego."
Li a edição da colecção Biis da Leya, que traz grandes obras a um preço muito acessível e num formato de "bolso" mas que se leêm muito bem.


Podem ler aqui no blog do Pipas.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Expiação


Não consigo acreditar que só aos 33 anos descobri Ian McEwan. Mas assim que comecei, não consegui mais largar. Já li três, mas pretendo ler todos os livros deste autor. Como já aqui disse estou completamente apaixonada pela escrita de Ian McEwan. Faz-me vibrar. Leio e releio frases de tão lindas que são, de tão inteligentes, de tão bem escritas.



O último livro que li foi este magnífico Expiação, que recomendo vivamente. Já tinha visto o filme, que achei muito bom, mas o livro consegue ser mil vezes superior. E arrebatador. Acho que vou fazer apenas um pequeníssimo resumo da história para não estragar a surpresa de quem não leu: Uma criança imaginativa demais julga mal alguns acontecimentos que presencia e comete um erro que marcará para sempre três vidas, a dela, Briony Tallis, a da irmã mais velha, Cecília Tallis e a de Robbie Turner.



Fiquem com este bocadinho:
"Enquanto esteve preso, a única mulher por quem podia ser visitado era a mãe. Caso estivesse "inflamado", diziam eles. Cecilia escrevia todas as semanas. Apaixonado por ela, desejoso de manter a sanidade por ela, estava naturalmente apaixonado pelas palavras dela. Quando lhe escrevia fingia ser como era antigamente, mentia para se mostrar são. Por medo do psiquiatra, que funcionava como censor, nunca podiam ser sensuais, nem sequer emotivos. Estava numa prisão considerada moderna, esclarecida, apesar do seu ar vitoriano. Tinham diagnosticado, com precisão clínica, que ele era um indivíduo com uma hipersexualidade mórbida, que precisava tanto de ajuda como de correcção. Não devia ser estimulado. Algumas cartas - tanto dele como dela - eram confiscadas por uma tímida expressão de afecto. Por isso escreviam sobre literatura, usando as personagens como código. Em Cambridge tinham-se cruzado na rua. Tantos livros, tantos casais felizes ou trágicos sobre os quais nunca se tinham encontrado para discutir! Tristão e Isolda, o Conde Orsino e Olívia, Troilus e Criseyde, Mr Knightley e Emma, Vénus e Adónis. Turner e Tallis. Uma vez, em desespero, referiu-se a Prometeu, acorrentado a uma pedra, com o fígado a ser devorado diariamente por um abutre. Por vezes ela era a paciente Griselde. A referência a "um canto tranquilo na biblioteca" era um código para êxtase sexual. Também descreviam a sua rotina diária com um pormenor ao mesmo tempo monótono e amoroso. Ele relatava todos os aspectos da vida da prisão, mas nunca lhe dizia a que ponto era estúpida. Era óbvio. Nunca lhe dizia que tinha medo de morrer. Era demasiado claro. Ela nunca escrevia que o amava, embora o tivesse dito, se soubesse que essas palavras chegariam até ele. Mas ele sabia.
Disse-lhe que tinha cortado com a família. Não voltaria a falar com os pais nem com os irmãos. Ele seguiu de perto todos os passos dela para ter o diploma de enfermeira. Quando ela escreveu:" Hoje fui à biblioteca buscar o livro de anatomia de que te falei. Arranjei um canto sossegado e fingi que estava a ler", ele soube que Cecilia bebia das mesmas memórias que o consumiam todas as noites, por baixo dos finos cobertores da prisão."
Expiação, Ian McEwan


Podem ler aqui no blog da Isabel.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Uma vida normal

Vocês devem estar a pensar "Outro livro já lido? Mas ainda no dia 01 ela começou a ler este livro e já o terminou?"
Pois é... este livro é tão envolvente e tão lindo, que se lê de um fôlego.Uma história verídica de um jovem que, quis o destino (por razões ainda hoje desconhecidas) que nascesse sem mãos e sem pernas.
Graças a Deus que o Paulo Azevedo nasceu no seio de uma família especial, que sempre o tratou como qualquer outra criança, nunca o escondeu do mundo e fez tudo para que ele se tornasse uma pessoa autónoma.
Este é um livro que todos deveriam ler, este jovem é um exemplo de força e coragem e uma lição de vida para todos nós.Não vos vou falar mais sobre o livro... espero que o comprem (ou peçam emprestado a alguém) e depois digam-me se eu tenho ou não razão.



Paulo Azevedo nasceu no dia 29 de Outubro de 1981.
Sem aviso, e após uma gravidez de oito meses, a ainda adolescente Clara via-se com um filho diferente nos braços. O bébé não tinha mãos nem pernas e os médicos não auguraram nada de bom.O choque foi tremendo. Mas a fé, a coragem e determinação foram maiores.Sem mãos e sem pernas, Paulo tem hoje uma vida normal.


Pode ler aqui no blog da Risonha.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A vida num sopro


Acabei de ler “A vida num sopro” de José Rodrigues dos Santos e posso dizer que fiz uma bela viagem no tempo. Recuei ao ano de 1929 para conhecer Luís, um jovem transmontano que estuda no liceu de Bragança e que se apaixona por Amélia, uma menina de olhos cor de mel.

Este livro tem como base a história de amor entre Luís e Amélia, dois jovens estudantes cujo amor vai crescendo e enfrentando muitas dificuldades. De inicio a mãe de Amélia opõe-se ao relacionamento da filha, depois a vida vai pregando algumas partidas: separações, reencontros, surpresas, um crime, as teias de PVDE, a Guerra Civil Espanhola, enfim, vicissitudes próprias dos tempos conturbados que se viviam na altura.

Eu sei que quando se aconselha a leitura de um livro não se deve dizer muito, mas gostei tanto de ler este livro que não resisto a contar mais um pouquinho. Não vou contar a história, porque isso José Rodrigues dos Santos faz com mestria no livro, vou só relembrar os mais “distraídos” que os anos 30 foram muito agitados, em termos político/sociais. António de Oliveira Salazar tentava organizar Portugal, impondo a ordem e o respeito, para isso contava com a ajuda da pevide… cof … cof, quer dizer, PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado) cuja missão era silenciar a vozes opositoras do governo cof… cof… cof, desculpem, cujo objectivo era fazer cumprir a lei da moral e dos bons costumes.
Mas convém salientar que este livro é, acima de tudo, um retrato social de Portugal entre 1929 e 1939. São espectáculos no Parque Mayer e filmes no São Luíz Cine, são vidas que se cruzam, emoções que se vivem.Um romance para ler com prazer!

Sobre o autor:
José Rodrigues dos Santos nasceu em Moçambique, actualmente é professor na Universidade Nova de Lisboa, também é jornalista e apresentador do Telejornal na RTP. Já trabalhou na Rádio Macau, na BBC e foi colaborador permanente na CNN. É um dos jornalistas portugueses mais premiados e já publicou seis romances.



Pode ler aqui no blog da Moonlight.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Belas mentiras

Não se assustem com o título da postagem... Vou falar do último livro que li..."Que postagem estranha para o primeiro dia do ano, ela deveria era falar do reveillon!" - devem pensar vocês...Mas como o último dia de 2008 foi passado na cama, bem como a passagem de ano, tive tempo de sobra para acabar de ler o livro que já tinha iniciado há alguns dias.Foi um reveillon diferente, mas sabem que mais? Tenho é que dar graças a Deus por, tanto eu como os meus, estarmos vivos e juntos... melhores reveillons virão.E nada melhor do que iniciar o ano de 2009 com uma postagem de algo que eu adoro: livros/ler.
Por isso cá fica o meu contributo para a Academia da qual sou sócia:




E se a sua família fosse uma mentira?

E se o seu nome fosse uma mentira?

E se a sua vida fosse um conjunto de Belas Mentiras?


Se Ridley Jones tivesse acordado dez minutos mais tarde ou tivesse apanhado o metro em vez de um táxi, ainda estaria a viver a bela mentira a que costumava chamar vida. Ainda seria a filha mimada de uns pais extremosos. A sua vida ainda seria perfeita - apenas maculada pela existência de um irmão toxicodependente e de um tio alcoólico com ligações ao submundo.Mas duas decisões insignificantes colocam-na no local e no instante certos para praticar uma boa acção, desencadeando uma série de acontecimentos que irá virá do avesso o mundo de Ridley...



Notas sobre a autora:

Natural de Connecticut, este é o romance revelação da autora. Lisa Unger, que passou grande parte da sua infância entre cidades, cedo aprendeu a observar os lugares e as pessoas, e a eleger a escrita como a sua melhor forma de expressão. Depois de vários anos em Nova Iorque, cidade que conhece a fundo e que a apaixona, vive actualmente com o marido na Florida onde se dedica a tempo inteiro à escrita.

Pode ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O pecado de Darwin


Mesmo tendo estado em casa demorei mais de três meses a ler este livro. Não é que não gostasse dele mas durante o dia tinha outras coisas para fazer e quando me ia deitar dava-me o sono e acabava por não o ler. Agora com as viagens de comboio voltei às leituras, terminei este e já estou quase a acabar o Sétimo Selo. O facto de admirar o trabalho de Darwin fez com que gostasse deste livro, das revelações feitas e de toda a história que envolve a vida do naturalista. Aproveito para participar com mais um livro na Academia dos Livros.


O Pecado de Darwin, de John Darnton


“O Pecado de Darwin leva-nos à Inglaterra Vitoriana para nos revelar os segredos que rodeiam a vida e a obra do cientista britânico Charles Darwin, num romance que, além de combinar harmoniosamente factos históricos e ficção, responde a questões como: o que levou Darwin a formular a teoria da evolução? Porque demorou vinte e dois anos a publicar A Origem das Espécies?
Ao longo desta obra, Darnton reescreve a verdadeira história de Darwin sob três perspectivas diferentes: a do próprio explorador enquanto jovem, a da sua filha Lizzie e a dos investigadores Hugh Kellem e Beth Dulcimer, cuja obsessão pelo naturalista (e um pelo outro) os leva muito além de uma mera investigação académica. Ao descobrirem os diários e as cartas de Lizzie, Hugh e Beth encontram um capítulo oculto da bibliografia de Darwin, que vai revelar inúmeros segredos, no quais reside o nascimento da teoria da evolução.”

Pode ler aqui no blog da Carla.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Operário em Construção

Conhecem Vinicius?
Ele vive nas músicas e nas palavras que deixou. Nunca ninguém cantou o amor como ele! Nas paixões, desilusões, angústias e alegrias. Vinicius é um artista completo, ele usa as palavras e a música como forma de demonstrar o que lhe vai na alma. As palavras destilam sentimentos, promovem sensações, provocam pensamentos!
Vinicius é um vício bom, seja na música ou na poesia. Deleitem-se com as palavras e com os vídeos. Ficam aqui alguns dos meus sonetos favoritos e o poema "O Operário em Construção" que dá nome ao livro.

Soneto de Separação






De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Soneto do amor total




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afin, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


O Operário em Construção 1ª parte





O Operário em Construção 2ª parte







Era ele que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas se fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela casa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer sua profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia nada no mundo
Coisa que fosse mais bela
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
«... Convençam-no» do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!


Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.


Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão


Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Evangelho segundo Jesus Cristo

De José Saramago não há muito a dizer; paradoxalmente amado e reconhecido ou desprezado e ignorado, faz parte com Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Miguel Torga de um ínclito grupo de enormes Autores Portugueses. Pois e ganhou o Nobel.

Com Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço faz parte de um grupo de ilustres Portugueses que não quis viver em Portugal…
Como Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Milan Kundera ou Ernest Hemingway marcou de uma forma profunda a literatura do século XX.

Há outros grandes escritores na história da literatura? Claro que há, era o que faltava.

Assim, o que torna Saramago tão especial? Uma assombrosa Cosmogonia? Uma apurada reflexão sobre assuntos incómodos à maioria das pessoas? Uma desassombrada morfologia linguística que poupa virgulas e pontos finais ao ponto de deixar o leitor sem respiração? Como dizia o meu Professor de História do 6º ano: “não só, mas também”…

Efectivamente, confesso que a sua Cosmogonia me perturba menos que a de Bóris Vian ou a de Pier Paolo Pasolini. Ou mesmo a de Woddy Allen ou Patricia Highsmith. Ou se quiser recuar uns anos, à de Ludwig Van Beethoven. Ou mesmo à de Manoel de Oliveira ou Agustina Bessa Luís. E será assim tão incómodo? Talvez, mas a quem já leu Franz Kafka ou Georges Bataille ou Henry Miller ou o Marquês de Sade ou mesmo E. G. Wells não incomodará por aí além. Ou para quem leu Nietsche… E o ritmo alucinante das narrativas? Basta ouvir o “movimento perpétuo” de Carlos Paredes para se poder ouvir/ler o discurso de Saramago.


E já agora, porquê esta Obra? Não seria eventualmente mais confortável falar d’o Memorial do Convento, essa obra maior da nossa literatura, ou d’o Ensaio sobre a cegueira, ainda por cima agora recriada em filme por Fernando Meirelles? Claro que sim, mas a tentação de Saramago de reflectir sobre uma personagem que marcou de uma forma tão profunda a nossa história nos últimos vinte séculos deve ter sido tudo menos estimulante. Desde os Concílios Medievais que “fabricaram” a Bíblia Sagrada até às reflexões sobre a história do Cristianismo ou mesmo obras de referência do século passado, temos uma grande panóplia de obras sobre a figura de Jesus Cristo, muitas delas produzidas no século passado (tempo a que não serão alheios os estudos sobre o Santo Sudário ou as aparições Marianas – aliás, a Virgem Maria é figura central na teologia do século XX). Nikos Kanzantzakis escreveu uma grande obra sobre Jesus Cristo e levada à tela por Martin Scorcese (“a última tentação de Cristo”, com Willem Dafoe, Harvey Keitel e Barbara Hershey, realizado em 1998); se Mel Gibson (“a paixão de Cristo”) também quis apresentar a sua “reflexão”, para não falar da soberba “Ópera-Rock” Jesus Christ Superstar, de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber também “convertida” em filme, o que poderia impedir um grande Escritor de escrever um “Evangelho” - apócrifo – e neste “mostrar” a sua Magna personagem?


Provavelmente nada…


E, José Saramago, como grande escritor universal, que transcende mesmo o seu tempo, apresenta-nos neste Evangelho uma visão intemporal e muito própria sobre Jesus Cristo, perturbante e genial, para ser lida com a abertura intelectual de quem não se importar de manter a Bíblia Sagrada ao lado e eventualmente alternar a leitura… afinal de contas estamos a falar de uma das figuras mais importantes, perturbantes e eventualmente a mais incontornável da nossa Civilização.

E o grande Saramago, a páginas 283 a 285 da primeira edição da Caminho relata desta forma extraordinária o encontro com Jesus e Maria de Magdala, um dos mais perturbantes “encontros” para a Teologia da Igreja Católica Romana:


“Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir que o aliviasse das dores e curasse as chagas que, mas isso não o sabia ela, tinham nascido noutro encontro, no deserto, com Deus. Deus dissera a Jesus, A partir de hoje pertences-me pelo sangue, o Demónio, se o era, desprezara-o, Não aprendeste nada, vai-te, e Maria de Magdala, com os seios escorrendo suor, os cabelos soltos que parecem deitar fumo, a boca túmida, olhos como de água negra, Não te prenderás a mim pelo que te ensinei, mas fica comigo esta noite. E Jesus, sobre ela, respondeu, O que me ensinas, não é prisão, é liberdade. Dormiram juntos, mas não apenas essa noite. Quando acordaram, já manhã alta, e depois de uma vez mais os seus corpos se terem buscado e achado, Maria foi ver como estava a ferida do pé de Jesus, Tem melhor ar, mas não devias ir ainda para a tua terra, vai-te fazer mal o caminho, com esse pó, Não posso ficar, e se tu mesma dizes que estou melhor, Ficar, podes, a questão é que tenhas a vontade, quanto à porta do pátio, estará fechada por todo o tempo que quisermos, A tua vida, A minha vida, nesta hora, és tu, Porquê, Respondo-te com as palavras do Rei Salomão, o meu amado meteu a mão pela abertura da porta e o meu coração estremeceu, E como posso ser o teu amado se não me conheces, se sou apenas alguém que te veio pedir ajuda e de quem tiveste pena, pena das minhas dores e da minha ignorância, Por isso te amo, porque te ajudei e te ensinei, mas tu a mim é que não poderás amar-me, pois não me ensinaste nem ajudaste, Não tens nenhuma ferida, Encontrá-la-ás se a procurares, Que ferida é, Essa porta aberta por onde entravam outro e o meu amado não, Disseste que sou o teu amado, Por isso a porta se fechou depois de entrares, Não sei nada que possa ensinar-te, só o que de ti aprendi, Ensina-me também isso, para saber como é aprendê-lo de ti, Não podemos viver juntos, Queres dizer que não podes viver com uma prostituta, Sim, Por todo o tempo que estiveres comigo, não serei uma prostituta, não sou prostituta desde que aqui entraste, está nas tuas mãos que continue a não o ser, Pedes-me demasiado, Nada que não possas dar-me por um dia, por dois dias, pelo tempo que o teu pé leve a sarar, para que depois se abra outra vez a minha ferida, Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais não te farão diferença, ainda és novo, Tu também és nova, Mais velha do que tu, mais nova que a tua mãe, Conheces a minha mãe, Não, Então porque disseste, Porque eu nunca poderia ter um filho que tivesse hoje a tua idade, Que estúpido sou, Não és estúpido, apenas inocente, Já não sou inocente, Por teres conhecido mulher, Não o era já quando me deitei contigo, Fala-me da tua vida, mas agora não, agora só quero que a tua mão esquerda descanse sobre a minha cabeça e a tua direita me abrace.”


E Jesus e Madalena são aqui “perdoados”, num discurso sublime… Jesus e Maria aparecem aqui muito mais humanos que na Liturgia.


É preciso mais para ler ou reler este livro fantástico?


Podem ler aqui no blog do Cupido.

A herança de Eszter



Já que ando numa de livros pequenos em tamanho mas grandes em qualidade, aqui fica outro que li a seguir ao A Morte de Ivan Ilitch que se enquadra nessa categoria:
A Herança de Eszter - de Sándor Márai.
Sándor Márai, escritor húngaro de quem já falei aqui sobre outro livro que li dele, Rebeldes, traz-nos esta pequena história de um amor mal resolvido e de uma separação de mais de 20 anos.
Eszter, apaixonada por Lajos, um homem sem escrúpulos, vigarista, ambicioso e mentiroso, que casou com a irmã mais velha dela, está há mais de 20 anos sem o ver e sem ter notícias dele, vivendo pacatamente na sua casa de família apenas com uma tia mais velha como companhia, até ao dia em que recebe um telegrama a avisa-la da chegada de Lajos.
A partir daí vem ao de cima todo um conjunto de emoções, dúvidas e certezas acerca do seu amor por lajos e por tudo o que passou nesses 20 anos devido a ele.
Com a chegada de Lajos, com os seus filhos e mais dois estranhos acompanhantes inicia-se um desfilar de conversas, de situações contraditórias, desabafos, descobertas surpreendentes e outras mentiras, terminando com a "queda" de Eszter nas "garras" de Lajos sendo enganada novamente, embora com plena consciência e permissão dela para isso, apesar dos avisos dos amigos mais chegados.
Sándor Márai com este livro fala-nos do amor, do destino, das leis da vida e da nossa força ou fraqueza perante essas forças que se juntam ou separam transformando a nossa vida de várias formas.
Mais um dos livros que recomendo a sua leitura, pequeno, com uma escrita simples mas também muito directa.


Pode ler aqui no blog do Pipas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Princesas e raínhas



É impossível deixar de vos trazer um poema que acho lindíssimo, de um poeta um pouco esquecido, ou talvez pouco valorizado por ter vivido num tempo em que os lobbies gays ainda não tinham o poder que hoje têm.
De espírito exuberante, apaixonado, e sem preconceitos nem pudores, marcou o panorama nacional pelas letras (poemas) incontornáveis das canções que escreveu para o festival da canção.
Ouvi-lo dizer os seus próprios poemas é mais emocionante do que lê-los, porque à força das suas palavras se junta a força da voz, da presença e dos gestos. Porque é mais difícil falar genericamente de uma obra poética do que de uma narrativa, deixo-vos um excerto do longo poema de...

ARY DOS SANTOS

TEMPO da LENDA das AMENDOEIRAS – 1964

Rimance da Princesa do País dos Gelos que em Terras da Moirama Suspirava Contando em Louvor da Fantasia dum Povo que Nasce, Vive e Morre entre o Céu e a Água.


Era uma vez um país
Na ponta do fim do mundo
Onde o mar não tinha eco
Onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
Mais longe que a ventania
Mais longe que a flor de sombra
Ou a flor da maresia
Em sete lagos de pedra
Sete castelos de nuvens
Em sete cristais de gelo
Uma princesa vivia.



A Princesa
Em sete cristais de gelo
Nesse país eu vivia.



Era uma vez um país
Na ponta do fim do mundo
Onde o mar não tinha eco
Onde o céu não tinha fundo.
Onde longe longe longe
Mais longe que a luz do dia
Com a sua coroa de abetos
E seus anéis de silêncio
Suas sandálias de tempo
Seu tear de nostalgia
Uma princesa tecia
O seu tapete de espanto
No fio da fantasia
Do seu casulo de encanto.



A Princesa
O meu tapete de espanto
Num tear de nostalgia.



Era longe longe longe
Mais longe que a luz do dia.



Tinha cabelos de rio
Olhar de brisa serena
Boca de rosa de estio
Vermelha, porém pequena.



Tinha cintura de bruma
Andar de orquídea de neve
Perfume de flor nenhuma
Intensa, porém mas breve.


Em seu corpete bordado
Os seios duros trazia
Virgem de sangue domado
Contida, porém não fria.


Era longe longe longe
Mais longe que a luz do dia.


E enquanto em sete cristais
Sete anémonas de espanto
Enquanto em sete corais
Uma princesa tecia
O seu tapete de espanto
Num tear de nostalgia
Levava-lhe o vento os ais
Por mares ares tormentas
Ondas naufrágios marés
Ilhas iras sons e escolhos
Para longe longe longe
Mais longe que a luz dos olhos.


Levava-lhe o vento os ais
Para uma terra distante
Bordada de laranjais
Vestida de céu brilhante
Onde com sete punhais
sete crescentes de lua
sete pecados mortais
em seus olhos faiscantes
um rei poderoso montava
sete cavalos possantes.
Levava-lhe o vento os ais
Para uma terra distante
Onde o céu era lidado
Na arena da maré cheia.
Terra de cheiro molhado
Terra de cravos de carne
Onde o silêncio escoado
Pelos aromas do nardo
Molhava de mel de sombra
Os lábios secos da tarde.
Levava-lhe o vento os ais

Para uma terra distante
Terra de festas de sangue
Baía de cimitarra
Moiras com olhos de alfange
Onde o amor se matava
Terra terraço mirante
Aonde o mar se mirava
Umbela de flor gigante
Colo moreno de escrava
Terra pantera ondulante
Terra guitarra tocada
Pelo barulho das folhas
Mexendo de madrugada.

Terra distante distante
Onde seus ais repousava.


Ouviu-lhe o rei o suspiro
Quando em seu castelo estava.
Mandou guardar seus cavalos
Suas bandeiras reais
Mandou fechar suas portas
Seus pátios suas janelas
Afogar a horas mortas
Sete pecados mortais
Em suas sete cisternas
E aparelhar um veleiro
Com velas soltas de espuma
Para cruzar sete mares
Sete céus de nevoeiro
Sete procelas de inverno
Sete postigos de bruma
Sete correntes de inferno
Sete cabos de segredos
Sete caminhos de medos
Sete muralhas de fumo
Até encontrar os olhos
Até encontrar os dedos
Do suspiro que o chamava
Da ponta do fim do mundo.
( .................)



O Rei



Fi-la rainha do vento
Rainha da maresia
Sombra do meu pensamento
Pedra da minha magia
Janela do meu palácio
Fresta de melancolia
Por onde passava o sol
Que ao país dos sete gelos
o meu desejo trazia.
Fi-la rainha do sangue
Que em minhas veias corria.
Rainha da ferida aberta
De que o meu povo sofria
Da chaga das descobertas
Que nos seus flancos se abria
Daquelas portas abertas
Onde o mar o fecharia
Daquelas ondas redondas
Onde o sonho o enredaria
Daquelas ilhas desertas
Onde a água o prenderia
E com a adaga dos olhos
O veneno da memória
A distância o marcaria
Para cadáver da história.
Rainha da minha audácia
E da minha cobardia
Dos copos da minha espada
Do punho da minha angústia
Da minha boca molhada
Pela saliva de Agosto
Dos poros da minha pele
Dos cabelos do meu peito
Da pedra do meu anel
E dos lençóis do meu leito


Era rainha a princesa
Que no silêncio dormia
Ungida pelo desejo
Coroada pelo agrado
Dum rei moiro que bebia
Pela chaga do seu lado
Em vez de cidra macia
Sangue de virgem sagrado.
Era rainha a princesa
E o seu reino consumado.


E depois de sete luas
De sete noites de chama
De sete donzelas nuas
Ardendo na sua cama
Levou o rei a princesa
Num carro de labaredas
Por montes vales caminhos
Serras atalhos veredas
Tergos cerros e devezas
Para longe longe longe
Mais longe que a tristeza.
(...................)

Passei-vos oito páginas deste poema. Ele prolonga-se por mais dezanove páginas. Espero que vos tenha aguçado o apetite para lerem este e os outros poemas que podem encontrar no livro José Carlos Ary dos Santos, obra poética, das edições Avante.




Podem ler aqui no blog da Noémia.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Crime no Expresso do Oriente

Agatha Christie nasceu em 1890, filha de pai americano e mãe inglesa. Passou a infância em Devonshire e cedo se familiarizou com a literatura inglesa, através da leitura de Charles Dickens e Jane Austen. Mais tarde seria leitora fervorosa de Sherlock Holmes. A sua educação escolar não foi além de dois anos de estudo de canto e piano em França.

Em 1915 casou-se com o coronel Archibald Christie de quem se separou em 1926. Quatro anos mais tarde casou-se com Sir Max Mallowan, famoso arqueólogo e professor da Universidade de Oxford que acompanhou em numerosas viagens e expedições arqueológicas. Até à sua morte, Agatha Christie escreveu as mais empolgantes ficções policiais, criando personagens curiosíssimas, tais como o celebérrimo Hercule Poirot, Miss Marple, Tuppence e Tommy, o superintendente Battle e Ariadne Oliver.

A obra de Agatha Christie permanecerá no património cultural internacional como testemunho inesquecível da extraordinária capacidade humana nos domínios da ficção, do raciocínio e do conhecimento da psicologia do comportamento - , obra imorredoira a vários títulos e retrato imperecível de uma época e de um modo de encarar os conflitos fundamentais da vida.



Este livro é daqueles que se calhar toda a gente leu. Ou viu o filme. Ou as duas coisas. Ou o tem na mesinha de cabeceira. Ou na estante. Ou viu na FNAC. Ou na Bertrand. Ou já ofereceu a alguém. Ou já lhe foi ofertado. Ou não.

Claro que não conto a história, mas cheira-me que deve ter havido um crime no Expresso do Oriente…~

Ah, e este é o 13º volume da colecção Vampiro, editada pela Editora Livros do Brasil, SA, com sede na Rua dos Caetanos, 22. Tel. 346 26 21 - Lisboa. (ulha, não tem código postal e o nº de telefone não começa por 21 – estranho…).


Podem ler aqui no blog do Cupido.

Na praia de Chesil

Há já algum tempo que não colaboro com a nossa Academia dos Livros, porque tenho andado a ler em inglês e não quis fazer citações nessa língua, pois sei que nem todos percebem o inglês literário. Assim, agora que li Ian McEwan em português, não hesitei em sugerir este pequeno grande livro chamado Na Praia de Chesil. É um livro pequenino que se lê facilmente num fim-de-semana ou mesmo num dia. A acção principal passa-se apenas nalgumas horas do dia do casamento de um jovem e inexperiente casal, no início dos anos sessenta. Como todos os livros de Ian McEwan é um livro perturbador que fala de amor, de humilhação, de ridículo, de sofrimento e duma trágica perda de inocência.
Deixo apenas um pequeno excerto para que possam apreciar a escrita deste grande escritor britânico e para que fiquem com mais um bocadinho de vontade de o ler:
"A brisa, que mudara de rumo, fazia entrar pela janela entreaberta uma sedução, um odor salgado de oxigénio e de vastidão que parecia contradizer a toalha de linho engomada, o molho engrossado com farinha de trigo e a prata bem polida que tinham nas mãos. Não estavam com fome, pois o almoço do casamento havia sido lauto e prolongado. Teoricamente, era a eles que cabia decidir se iriam abandonar os pratos, agarrar na garrafa de vinho pelo gargalo, correr para a praia, atirar ao ar os sapatos e exultar com a sua liberdade. Não havia ninguém no hotel disposto a detê-los. Finalmente eram adultos, em férias, livres de fazerem o que quisessem. Dentro de poucos anos esse seria o tipo de coisas que jovens banais fariam. Mas por agora, a época impedia-os. Mesmo quando Edward e Florence estavam sozinhos, mil regras não oficiais continuavam em vigor. Era precisamente por serem adultos que não faziam coisas infantis como deixarem a comida que outros se tinham dado ao trabalho de preparar. Aliás, era hora de jantar. Além disso, ser infantil ainda não era respeitável, nem estava na moda."

Podem ler aqui no blog da Isabel.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Perfume

Esta extraordinária história passa-se no século XVIII e há todo um extraordinário trabalho de reconstituição histórica, não só da época e das mentalidades como do ofício de perfumista, que era então particularmente valorizado e que estava a cargo de artesãos especializados. Patrick Suskind conduz o leitor de página em página, de odor em odor, de perfume em perfume, inebriando-o, arrebatando-o nessa alquímica busca do Absoluto que é a do seu personagem: a busca do perfume ideal, isto é, a forma suprema da Beleza. Nessa busca nada deterá Jean-Baptiste Grenouille – que nascera no meio dos mais nauseabundos fedores, numa banca de peixe - , nem mesmo os crimes mais hediondos. Este personagem monstruoso possui no entanto algo de extremamente inquietante, a sua própria incorrupta pureza.


Podem ler aqui no blog do Cupido.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Eu era a menina do papá

Uma vez mais venho deixar a minha contribuição para a "Academia dos Livros" com um livro que acabei de ler.

Não vou falar muito sobre esta obra, penso que ao lerem o resumo ficam a perceber do que se trata. Fala de uma realidade que está bem presente na nossa sociedade, se bem que sempre de uma forma encoberta.
Gostei muito deste livro: é uma história verídica e é de louvar que a sua autora tenha conseguido ultrapassar todos os seus traumas de infância e transcrito para o papel tudo aquilo porque passou.
E já agora... o Natal está à porta, por isso nada melhor do que oferecer livros, nem que seja a vocês próprios.

A família de Julia era a imagem de respeitabilidade.
Para o mundo exterior era classe média, decente, carinhosa.
Mas a mãe não a amava o suficiente. E o pai amava-a demais.
Entre os oito e os treze anos, o pai de Julia abusou dela sexualmente. Leal à família e desesperada por mantê-la intacta, aquilo tornou-se o segredo de ambos. Mesmo enquanto tentava entender o que lhe estava a acontecer, Julia percebeu que revelar a verdade destruiria a sua família.
Quando finalmente gritou a pedir ajuda, foi rotulada de mentirosa.
Durante a adolescência, começou a duvidar da sua própria sanidade. Teria o abuso realmente acontecido? O pai não podia ter feito aquilo... pois não?
Esta é a dolorosa história de como o pai de Julia abusou da sua confiança e a privou da infância; mas é também a história de como, anos mais tarde, Julia confrontou com êxito o seu passado doloroso e começou a criar para si própria um futuro cheio de significado.





Sobre a autora:

Julia Latchem-Smith nasceu em Basildon, Essex, em 1981.Mora agora em Bridgend, no País de Gales, com o marido, Jonathan, e os três filhos, Molly, Katelyn e Zack.


Podem ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O Jogo do Anjo



Terminei hoje de ler, às 3h30m da madrugada, « O jogo do Anjo».

Já sei sou doida! Que lindas horas para ir para a cama quando no dia seguinte é dia de trabalho. Também foi o que me disse o meu marido.

Mas leitura para mim é assim, sem horas, sem ninguém que nos interrompa, sem obrigações nem compromissos a não ser com o livro que temos nas mãos!

Normalmente é a isso que eu chamo férias e que fiz durante este fim de semana.


Quanto ao livro, como devem calcular pelo acima descrito é cativante, enreda-nos num sem número de peripécias e mistérios e não conseguimos largá-lo até ao final.

Costuma-se dizer que em equipa vencedora não se mexe.

Acho que Zafón fez isso.

Enquanto li as primeira páginas achei o livro “morno”, as espectativas eram altas depois da « Sombra do Vento ». O enredo avança e eu penso, bem é giro mas não tem força. As personagens não nos convencem. Há muita coisa igual ao outro, parece uma cópia.Vai ser um policial. Mas surpreendentemente, não é assim.

O estilo jornalístico confere à narrativa um ritmo rápido, o entrar e sair de personagens mais os capítulos curtos, aceleram e a narrativa torna-se alucinante e alucinada. Misterioso sim, policial sim, com muitas mortes mas muito interessante.


Zafón, retomou a mesma Barcelona, mais cedo, no ano de 1917, e a mesma livraria Sempere com o avô e o pai do Daniel, da «Sombra do Vento». Retomou também Barceló, o cemitério dos livros e um escritor, desta vez David Martín, que é também jornalista. Há um protector rico, Vidal; um amor impossível, Cristina; uma apaixonada que se torna a melhor amiga, Isabelle e toda uma galeria de personagens mais ou menos importante que vai cruzando e saindo da vida deste David. O paralelismo entre as vivências de David e de outro escritor, que habitou na mesma casa, tornam-se flagrantes e ele vai tentar descobrir o porquê, para salvar o seu destino e tentar ser feliz. E depois, há o patrão, alguém que lhe encomenda um livro especial. O patrão...sempre presente, omnipotente, desconcertante, determinante em toda a história...o Patrão!


Os capítulos são curtos, Zafón cortou às descrições prolongadas e às reflexões filosóficas, transformou-as em diálogos das suas personagens.

Em volta deste escritor jovem e talentoso que acaba por escrever um único livro com o seu nome e “ montes “ deles com nomes de outras pessoas, discute-se o bem e o mal, a vaidade humana e o preço da alma, a morte e a vida, a crendice, o espiritismo e a espititualidade, o amor, a amizade e a literatura, sem nunca se falar abertamente sobre isso.

Deixo só esta frase, que já aparecia no outro livro, e que acho muito interessante:


« Todos os livros, todos os volumes têm alma. A alma de quem os escreveu, a alma daqueles que os leram e viveram e sonharam com eles. De cada vez que um livro muda de mãos, de cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte...»


O final é surpreendente e dá uma nota de esperança e happy end, estabelecendo a ponte com o já escrito, « A Sombra do Vento ».


Podem ler aqui no blog da Noémia.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Aventuras de João sem medo

Aventuras de João sem medo, panfleto mágico em forma de romance

José Gomes Ferreira

Este livro é absolutamente fantástico. Lido pela primeira vez no sexto ano, foi usado como base de uma peça de fantoches organizada na turma pela Professora de Português. Claro que tinha que ler o original…
Narra as aventuras de João sem medo, que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia de chorincas situada (ou melhor, aninhada) perto do muro construído em redor da Floresta Branca e onde os homens construíram uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos. Claro que ninguém se aventurava pela floresta, porque os choraquelogobebenses preferiam choramingar e lastimar-se, andando sempre de monco caído, sempre constipados por causa da humidade, e a ouvirem com delícia canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto, ao som de instrumentos plangentes e monótonos. Um dia João, o único que por capricho de contradizer e instinto de refilar resistia à choradeira, não aguenta mais e atreve-se a saltar o muro, que ostentava este aviso:

É PROIBIDA A ENTRADA
A QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR

e embrenha-se na Floresta Branca…
A partir daí sucedem-se aventuras e seres milagrosos como a Fada dos Dois Caminhos, o Homem sem Cabeça, a Menina de Cristal, o Gramofone com Asas, o Príncipe das Orelhas de Burro, o Rocinante (sim, o cavalo de Dom Quixote), a Princesa nº 46734, o João Medroso, a Menina dos Pés Ocos ou a Pedra numa narrativa que nos deixa literalmente agarrados ao livro. No fim, João sem medo, cheio de saudades de comer um bacalhau cozido com batatas e grelos, volta para Chora-Que-Logo-Bebes. De regresso àquela choraminguisse toda, decide abrir uma fábrica de lenços. Deve ter enriquecido…

Esta Obra, de um dos maiores escritores Portugueses, constitui-se numa viagem de João sem medo a um mundo fantástico que no essencial se encontrava dentro dele. Magistralmente narrada, é sem dúvida uma Obra incontornável do século XX Português. Dedicada aos filhos do Autor, Raúl Hestnes Ferreira e ao irmão, Alexandre.

Dedicatória da primeira edição (1963):

Para os meus dois filhos:

Para ti, Raul José, homem há muito – e homem autêntico -, que aprendeste à tua custa que a verdadeira coragem é a força do coração…
Para ti, Alexandre, ainda criança, mas já com todas as tendências para não te tornares num desses falsos adultos que sujam o mundo e odeiam a imaginação…
Para os meus dois filhos – o homem e a criança – este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.








Podem ler aqui no blog do Cupido.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Crónica de uma morte anunciada

Uma vez mais venho deixar a minha colaboração para a Academia dos Livros, com uma sugestão de leitura muito leve... Este livro de Gabriel García Márquez é daqueles que se lê num instante, uma escrita fluída, nada maçadora e faz-nos pensar numa questão: se soubessem que alguém ia ser morto daí a pouco tempo, e se o resto da população do sítio onde vivem também o soubesse, avisavam a vítima ou esperavam que outra pessoa o fizesse???




Esta é a história de um assassinato numa pequena localidade colombiana, próxima da costa caribenha, cuja única ligação com o exterior é um rio.
Toda a localidade celebra o casamento de Bayardo San Román, rico e recém-chegado, com Ángela Vicario. Mas Bayardo descobre que a sua esposa não é virgem e devolve-a à casa dos pais.
Ángela acusa Santiago Nasar, um rico jovem de origem árabe. Obrigados pela defesa da honra familiar, os irmãos de Ángela anunciam aos quatro ventos a sua determinação de acabar com a vida de Santiago.
Todos os habitantes da localidade conhecem as intenções dos dois irmãos menos o interessado, e ninguém faz ou pode fazer nada para evitar o desenlace trágico...
Passados mais de 20 anos, um cronista reconstrói passo a passo os acontecimentos.






Notas sobre o autor: Gabriel García Márquez nasceu em Aracata em 1928. Formou-se no campo do jornalismo e trabalhou como redactor para diversos jornais colombianos e para a agência cubana de notícias La Prensa.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1982 e é provavelmente o escritor vivo mais reconhecido internacionalmente.
Entre a sua vasta obra pode destacar-se, além de Crónica de uma Morte Anunciada (1981), Ninguém Escreve ao Coronel, Cem Anos de Solidão, Olhos de Cão Azul, O Outono do Patriarca, O Amor em Tempos de Cólera, O General no seu Labirinto ou Memórias das minhas Putas Tristes.


Podem ler aqui no blog da Risonha.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Os Lusíadas

Mais um daqueles livros que se tem que ler na escola...
Confesso que no nono ano achei uma enorme estopada ler esta Enorme Obra. Ele era figuras de estilo, palavras de que se desconhecia o significado, uma Professora que tinha acabado o Curso havia pouco tempo, que nos mandava ler as passagens entre as que se liam nas aulas e a fazer um resumo (na altura não havia net, mas felizmente havia um Senhor chamado Adolfo Simões Muller que escreveu uma versão para crianças e que eu, obviamente utilizei - claro que a Professora nunca soube) eram as leituras na aula, bem, tudo menos interessante.
Mais tarde e com mais alguma capacidade intelectual li esta Opus Magnun da Cultura Portuguesa, sempre nesta magnífica edição do Circulo de Leitores de 1980.
O Alvará Régio, a autorização da Santa Inquisição e as primeiras estrofes...








Podem ler aqui no outro blogue do Cupido.