terça-feira, 16 de setembro de 2008

A hora da morte


“Dia após dia, esperava que o primeiro cadáver fosse descoberto – um corpo contendo todas as pistas de que os detectives precisavam para encontrar a segunda vítima, que aguardava uma morte lenta mas certa.
As horas passavam – o salvamento era possível, mas a polícia nunca chegou a tempo. Passaram-se anos, porém, para este assassino o tempo parara. Quando uma vaga de calor se abate sobre a região, o jogo recomeça. Duas raparigas desaparecem – e as horas continuam a passar.
A agente do FBI Kimberly Quincy sabe que terá de infringir algumas regras para vencer um criminoso cruel no jogo que ele aperfeiçoou. A hora da morte chegou.”


A Hora da Morte, de Lisa Gardner, é um livro que nos deixa transporta até à mente de um criminoso ecológico. Os últimos capítulos foram lidos pela noite dentro, sem preocupação com as horas, só pensando em quem seria capaz de tal barbaridade e se a vítima conseguiria sobreviver. Os detalhes são horripilantes e dei por mim a fazer muitas caretas enquanto o lia.... “as feridas nos braços e nas pernas haviam começado a mexer-se nessa manhã. Espremera uma delas entre os dedos e observava, horrorizada, quatro larvas brancas a sair lá de dentro. Tinha a carne a apodrecer. Os insectos já se reuniam para o banquete. Pouco tempo lhe restava.”
Nas minhas aventuras literárias, já me aconteceu descobrir o assassino ainda antes de ir a meio do livro. Neste foi diferente. Foi uma grande surpresa que no final me deixou feliz por não ser uma história previsível.

Se gostam de policiais com muita acção, pouca descrição, onde cada capítulo passa a correr, aconselho a leitura deste livro.
“ O relógio a fazer tiquetaque... o planeta a morrer... os animais a chorar... os rios a gritar. Não conseguem ouvir? O calor mata...”.
Podem ler aqui no blog da Carla.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A verdade da mentira

A verdade da mentira?
Apesar de não ser meu hábito ler este género de livros, muito menos comprá-los, desta vez abri uma excepção e nestas férias comprei e li o livro do Gonçalo Amaral, "A verdade da mentira".Gostei do livro: acessível, bem escrito, interessante e nada especulativo.
Nem ia falar do assunto se não fosse o agora mostrado vídeo da busca dos cães pisteiros.
Agiram tal e qual como é contado no livro, donde presumo que todo o livro seja um trabalho honesto.
Já o que o casal McCann diz (segundo o Expresso) acerca de Gonçalo Amaral ("Gonçalo Amaral é uma vergonha") é completamente despropositado.
Falar assim de uma pessoa que fez tudo o que estava ao seu alcance para lhes encontrar a filha (que eles deixaram sozinha em casa para irem jantar!!) não me parece uma atitude correcta de pessoas de bem, que deveriam acima de tudo, querer encontrar a filha!
Podem ler aqui no blog da Saltapocinhas.

sábado, 6 de setembro de 2008

O Principezinho


Começo esta série de sugestões literárias com um livro de ouro. Ele é a base da minha vida, pois marcou-me a adolescência e moldou-me a vida. Estou a falar de um livro de Antoine de Saint-Exupéry: "O Principezinho". Foi publicado pela primeira vez e 1943 e é das obras mais admiradas do nosso tempo.


Esta obra é a mistura de um conto infantil com uma parábola para adultos que nos transporta para um ambiente de planetas, asteróides, vulcões, rosas e muitas outras personagens. Um pouco de ficção com um fundo de realidade, ou será o contrário?


O Principezinho é um menino tão ambicioso como qualquer um de nós, tem muita curiosidade e gosta de aprender, mas vive num pequeno asteróide (B612), onde tudo é familiar e previsível. Por isso decide fazer uma viagem para conhecer outras coisas e começa por visitar os planetas/asteróides vizinhos, terminando a sua viagem no 7º planeta: a Terra.No seu percurso vai encontrando personagens tão diversas como, o rei autoritário, o vaidoso, o bêbado, o homem de negócios, o acendedor de candeeiros, o geógrafo... enfim, uma série de figuras tristes que vivem com a mente bloqueada e ainda não perceberam que "o essencial é invisível aos olhos".

No planeta Terra encontra quem lhe explique o que são "criar laços", e ao longo do livro o que não falta são lições de humanidade. Os diálogos exploram conceitos tão simples como a amizade pura, a lealdade e a dedicação.


Parece que disse tudo, mas acreditem que o livro é muito mais e lê-se num instante. Aconselho a leitura em diversas fases da vossa vida, é mesmo uma obra inteligente e intemporal.


Este Principezinho cativou-me!


Podem ler aqui no blog da Moonlight.

Os passos em volta - Herberto Helder

Herberto Hélder (de seu nome completo Herberto Hélder de Oliveira) nasceu no Funchal, ilha da Madeira, no dia 23 de Novembro de 1930. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Começou desde cedo a escrever poesia, colaborando em várias publicações de que se destacam: Graal, Cadernos do Meio-Dia, Pirâmide, Poesia Experimental (1 e 2), Hidra e Nova. É um dos introdutores do movimento surrealista em Portugal nos anos cinquenta, de que mais tarde se viria a afastar.


Obras: Poesia – O Amor em Visita (1958), A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), O Bebedor Nocturno (1968), Vocação Animal (1971), Cobra (1977), O Corpo o Luxo a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), Flash (1980), A Cabeça entre as Mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Do Mundo, (1994), Poesia Toda (1º vol. de 1953 a 1966; 2º vol. de 1963 a 1971) (1973), Poesia Toda (1ª ed. em 1981). Ficção – Os Passos em Volta (1963).

retirado daqui...

Um pequeno excerto de um livro magnífico:

TEORIA DAS CORES

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.


Compreendendo esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Este livro não é propriamente um best-seller; a primeira vez que o li foi para aí em 1992, na altura emprestado; só o comprei uns anos mais tarde, por aí em 1999.



Pode ler aqui no outro blog do Cupido.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O Que Diz Molero by Dinis Machado

Este livro é surpreendente. Parece que foi composto como se fosse uma peça musical, com um ritmo quase alucinante que não nos deixa parar de ler. O texto abaixo, da Autoria de Viriato Teles foi retirado daqui.


Mesmo que não tivesse escrito mais nada, um romance chegava para lhe garantir um lugar de destaque na Literatura do século XX. "O Que Diz Molero" é o título do livro, Dinis Machado o seu autor.


Publicado pela primeira vez vai para trinta anos, a história narrada por Austin e Mister Deluxe tornou-se num êxito sem precedentes e modificou a vida do homem que a criou: de um dia para o outro, viu-se projectado para a primeira linha do reconhecimento do público, da crítica e, mais difícil ainda, dos seus pares. Tudo com uma história simples feita de muitas histórias.


Com duas dezenas de edições em Portugal, o livro alcançou ainda um sucesso retumbante em França e no Brasil, onde foi também adaptado para teatro (em cena durante mais de quatro anos), e vai ter em breve uma versão cinematográfica. Pequenas coisas que são suficientes para encher de satisfação Dinis Machado, que responde também pelo nome de Dennis McShade, autor de três policiais que fizeram história e de um quarto que será publicado no ano que vem, assinalando os 40 anos da criação de Peter Maynard, um assassino com preocupações filosóficas.


Além disso, Dinis Machado tem, como diz, uma vida caótica. Feliz, apesar de tudo, ou por causa de tudo. Casou tarde e ficou viúvo cedo. Tem uma filha, Rita, por quem se meteu na pele de um escritor americano. E tem a Dulce, companheira e anjo-da-guarda, reduto quase final. E a vida toda, os caminhos por onde andou. Este Verão, o pai de Molero e Maynard deixou-se registar para o Arquivo da Memória dos Autores Portugueses que a SPA está a organizar. Uma longa conversa onde o escritor desfia as recordações de 75 anos de encantos, desencantos e descobertas, de que aqui se deixam alguns fragmentos, na primeira pessoa do singular.


Infância


A minha infância foi magnífica. Foi na rua. Saía de casa, a minha mãe depois batia-me porque chegava tarde, o meu pai às vezes ficava zangado. Eu andava na rua, com os outros miúdos. Ficou aquela nostalgia do tempo que já não volta. Nesse tempo não havia estas periferias, havia os sítios, e era aí que vivíamos. Os meus pais eram pessoas simples. A minha mãe cantava o fado muito bem, o meu pai era autor de fados. Foi ele que escreveu aquele fado muito famoso, "Bairro Alto aos seus amores tão dedicado", que depois foi publicado se calhar em nome de outro, estas coisas sempre se fizeram.


Bairro Alto


Vivi no Bairro Alto, na Rua do Norte, até aos 34 anos, quando me casei. Era um lugar extraordinário, que tinha um bocado de tudo: a ópera, o teatro, o cinema, os livros, as discussões nos cafés, a política, a música. Era uma coisa muito fervilhante. E eu cresci nesse ambiente, com uma costela política que nessa altura se chamava de esquerda, hoje já não sei como é que se chama. Chamava-se de esquerda porque tinha o desejo de combater as injustiças do mundo.


Cinema e poesia


Parte da minha vida passei-a no Cinema Loreto, a ver filmes de aventuras. Às vezes íamos para lá quando o cinema abria e ficávamos aí até à meia-noite. Tenho uma tentação cinematográfica grande. Vem-me desse tempo, também, a leitura dos poetas. Eu adoro poesia, encheu-me muito a vida. Desde os Cantares de Amigo até à mais recente, li quase tudo o que apanhei. Foi no cinema que aprendi a falar inglês. O meu inglês é americano, dos filmes. A minha formação não foi académica, pelo contrário: às vezes chumbava por faltas porque ia ao cinema ou ficava a ler poesia em vez de ir às aulas. E não passei nunca do que se chama agora 12º ano porque não queria, não me interessava. Sempre tive a tentação de subverter o que me rodeava.


Record


Comecei a escrever no Record. O meu pai levou-me lá um texto, e o Fernando Ferreira, que era uma excelente pessoa, disse-me "Oh, Dinis, você é um excelente escritor, mas isto é um jornal para analfabetos. Eu vou publicá-lo porque gosto do texto, mas não me mande mais nenhum assim". Não sei o que é feito desse primeiro texto, desapareceu. Eu não guardo nada, se tenho alguma coisa guardada é a minha mulher que o faz. A minha vida é caótica à partida, e eu não quero organizá-la, deixo-a correr caótica. Mas lá fui para o Record, fartei-me de fazer jogos de futebol. Depois fui para o Diário Ilustrado e para o Diário de Lisboa, sempre a escrever sobre desporto. Mas, ao mesmo tempo, escrevia poesia, fazia textos para revistas da época, nunca me sujeitei a estar só na área do desporto.


Diário Ilustrado


Um dia, o Roussado Pinto, que era o director do Diário Ilustrado, chamou-me e disse-me que o jornal ia fechar. Tinham-lhe dado o prazo de um mês e uma determinada verba para ele fazer o jornal durante esse tempo. E ele propôs-me fazermos aquilo os dois: ele fazia um caderno, eu fazia o outro, e dividíamos o dinheiro pelos dois. Inventávamos histórias, inventámos coisas que não sabíamos se as pessoas iam perceber ou não. E no dia em que o jornal fechou, despedimo-nos à porta, e ele disse-me: "Agora espera pela minha chamada". E quando me chamou foi para fazer a Rififi.


Rififi


Fui chamado para a Íbis pelo Roussado Pinto para dirigir a colecção Rififi, que era uma espécie de contraponto à Vampiro, mas muito mais desalinhada. Às vezes aparecia-me o restolho dos americanos, acho que cheguei a publicar o Dashiell Hammett e também o Raymond Chandler. E depois apareceram autores que eram considerados menores, como o Ross MacDonald ou o Frank Gruber, e que eu utilizava também como suportes do trabalho que eu queria fazer. Lia-os com o meu americano, sabia como é que diziam as coisas, aquela forma seca. A Censura fechava um bocado os olhos, achavam que aquilo não era importante. Não levavam a sério. Mas deviam.


Dennis McShade


Um dia, a minha filha estava para nascer, e eu precisava de vinte contos, fui falar com o Roussado Pinto. E ele disse: "Está bem, ganhas vinte contos, mas fazes três romances policiais com um nome americano, como eu faço". E fiz três romances policiais num ano. E pensei: "Bom, já agora aproveito o gozo da subversão do romance negro". Acho que fui um bocado subversor nos romances policiais: é a mistura do investigador com o assassino, um intelectual. Tem um lado de paródia: colocar um intelectual em zonas esconsas da vida, a fazer aquele tipo de trabalho. Foram três livros que fizeram escola: as pessoas que perceberam o que eu queria fazer, perceberam que ali estava o veículo para uma nova literatura. E a Censura também deve ter percebido, porque ao terceiro livro apareceu-me lá um tipo a perguntar quem era aquele McShade.


Tintim


Quando a Íbis faliu, a Bertrand ficou com o projecto de edição da revista Tintim para Portugal, e eu fiquei lá. Durante 15 anos fiz o Tintim todas as semanas, e deu-me muito gozo, também. Aquilo não era bem o nosso delírio, era já dentro dos cânones da aceitação, mas com muita qualidade literária e gráfica. Era um trabalho esmerado. E publicávamos coisas de autores portugueses, também. Mas fazia aindamuito trabalho fora do Tintim, editei muita coisa de autores que achava curiosos e que achava que tinham venda possível.


Molero


Quando apareci na Bertrand com "O Que Diz Molero", diz-me assim a Piedade: "Eu vou publicar este livro nem que seja despedida". Porque o livro tinha aquela linguagem um bocado desbragada... O Molero era uma ideia que me vinha de trás. Estava eu a escrever os policiais e já queria fazer o Molero. Eu queria fazer um livro subversor, um livro com uma linguagem própria desse livro. E foi assim que me saiu. E foi feliz, foi muito feliz. É um livro que tem a ver com a infância, com tudo. Foi um sucesso. Agora está para sair a vigésima edição, há um grupo de "molerianos" que estão sempre a activar o livro.


Consagração


O êxito do livro surpreendeu-me. Eu achava que estava a inovar, mas não tenho a certeza, nunca se sabe. O texto foi apadrinhado pela chamada vanguarda da literatura, os elogios foram enormes. Invejas? Mais tarde é que comecei a sentir. Mas eu não tenho razão de queixa. Os outros livros foram como que prolongamentos de "O Que Diz Molero". Mas eu sabia que não se pode repetir a mesma coisa, criar um êxito generoso duas ou três vezes seguidas. Sempre fugi à lógica da repetição da receita.


Vida


Recentemente, o Molero foi publicado em França, e as revistas de cultura de Paris, desde o Magazine Littéraire, ao Figaro, vieram dizer que é "um dos grandes livros do século". E eu fiquei satisfeito com isso, naturalmente. E tenho que reconhecer que eles foram muito generosos comigo. "O Que Diz Molero" tem uma história, inacabada ainda, que me dá para preencher a vida. E portanto é uma história que espero que não acabe nunca, que as gerações novas possam lidar com isso. O mundo de hoje é feito de coisas tão fragmentadas, com tão pouco sentido, que as coisas acabadas perdem validade com o tempo. Mas eu acho que há coisas que vão ficando, o que me satisfaz bastante. Porque há sempre leitores exigentes, e eu gosto de leitores exigentes. Eles é que fizeram o livro. Eu só o escrevi.


Viriato Teles

Podem ver aqui no outro blog do Cupido.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A montanha da alma

Hoje em dia quando falamos da China temos duas abordagens possíveis e imediatas. Uma, é o nosso pensamento viajar no tempo e virem-nos à memória imagens de uma cultura milenar onde imperadores, porcelana de mil e uma cores, pagodes, paisagens que rompem os vapores das nuvens, sedas e concubinas são só pormenores de uma longa lista.

A outra abordagem é a de nos saltarem à ideia as incontáveis lojas de vende tudo, que povoam o nosso país, e o sentido pejorativo de “compraste no chinês?”.Parece que falamos de dois países diferentes e debatemo-nos entre sentimentos opostos.

Num tempo em que os jogos olímpicos estão, ainda, tão na ordem do dia e que nos mostraram uma China poderosa, que se esmerou por mostrar ao mundo as suas grandes capacidades, não só na organização do evento como também nos atletas medalhados ( um em cada modalidade, pelo menos) acho que vem a propósito falar de Gao Xingjian.

Gao Xingjian nasceu na China em 1940, vive em França desde 1988, é romancista, pintor, dramaturgo, encenador, crítico literário, poeta e o Prémio Nobel da Literatura pelo conjunto da sua obra em 2000.

Eu li, há já algum tempo, a Montanha da Alma que é um livro seu, de 546 páginas, e onde todas as características do autor, acima mencionadas, se revelam magistralmente.



Adorei lê-lo, saborei frases e passagens, tocou-me a alma, por isso vos falo dele!

O eu narrador que nos conta a sua viagem através do país profundo, à procura da Montanha da Alma, local mítico e incerto no mapa da China, vai-nos mostrando, com nostalgia, um país desconhecido, ancestral, intocado e puro ( também duro e pobre) que contrasta com um país burocrata, espartilhado, injusto e cego pela revolução maoísta, que, por sua vez, choca com as metrópoles modernas, industriais e capitalistas, onde pululam jovens ocidentalizados e incaracterísticos.

Somos confrontados com três épocas marcadas por ideologias diferentes cujas alterações profundas na sociedade traçam destinos, muitas vezes preversos, em algumas das pessoas que se cruzam com o autor e noutras deixam-nas cristalizadas como se não tivesse havido revolução ( evolução? ). Surge-nos um país pintado como um quadro, de fortes contrastes.

Não é um livro fácil com uma qualquer história que é contada. Não há uma história, há histórias que se vão contando, de ele ou ela que se cruzam com o narrador. As mulheres mais castigadas, sofridas, numa sociedade preconceituosa.

É díficil explicar as emoções que esta narrativa desperta, a poesia que destila na descrição de paisagens ou dos sentimentos, a delicadeza e o pudor das relações humanas ou religiosas (budista e taoísta essencialmente) .

« E é assim que uma paisagem vulgar a que não se presta a mínima atenção deixa no intímo uma impressão profunda. Em mim, faz nascer subitamente uma espécie de desejo, uma vontade de entrar nela, de entrar nessa paisagem de neve, não ser mais que uma silhueta, uma silhueta que obviamente não teria quarquer sentido se não estivesse a comtemplá-la da janela. O céu sombrio, o chão coberto de neve ainda mais brilhante em contraste com este céu sombrio, já não há melros, já não há pardais, a neve absorveu qualquer ideia e qualquer sentido. »

« Este "eu" no meio do tu não é senão um reflexo no espelho, a imagem invertida das flores na água; se não entrares no espelho, não conseguirás apanhar o que quer que seja e só terás piedade de ti próprio em pura perda. »

E depois como num texto dramático, em que alternam as personagens “ela diz, tu dizes” mas sempre com a poesia nas palavras:

« Tu dizes que acabas de sonhar, adormecido sobre ela. Ela diz que é verdade, há um momento ela falava contigo, tu não dormias, ela diz que te acariciava e enquanto tu sonhavas, ela tocou o teu pulso, apenas há um minuto. Dizes que é verdade, tudo era ainda distinto, sentias a doçura dos seus seios, a respiração do seu ventre. Ela diz que te abraçava, que te tocou o teu pulso. Dizes que viste erguer-se a superfície negra do mar,a superfície perfeitamente plana, levantou-se lenta e inexoravelmente.Comprimida, a linha entre o céu e o mar desapareceu e a superfície negra ocupou todo o espaço. Ela diz que dormiste colado ao seu peito. Dizes que sentiste os seus seios a crescer como uma maré negra, que o fluxo era como um desejo que aumenta, cada vez mais forte; quando ela ia engolir-te, dizes que sentiste uma espécie de inquietação. Ela diz: estavas sobre o meu peito como uma criança tranquila(...)»

A Viagem à procura da Montanha da Alma é como a demanda do Santo Graal. Uma viagem interior à procura da beleza, da pureza, do conhecimento, de si mesmo... E percebemos claramente isso quando, ao longo da leitura, sentimos que estamos nós próprios à procura de qualquer coisa, ... de nós mesmos.

Essa escalada à montanha, aos cinco mil metros, de altura ou profundidade na própria mente, é acompanhada da incapacidade das palavras, da mistura onírica da realidade, ou como diz Noel Dutrait no prólogo, “evocação da realidade absurda ou kafkiana contemporânea”.

E o livro termina:

« Fingir compreender, mas de facto, não compreender nada.

Na realidade, não compreendo nada, estritamente nada.É assim.»

Há livros que não se explicam, leêm-se!


Pode ler aqui no blog da Noémia.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Veneza: O encontro do Ocidente com o Oriente

uma diva na Academia dos Livros.....






Tudo começou com um convite da querida Cláudia ... a idéia é adorável, encantadora. Adoro ler, acredito que herdei o gosto pela leitura da mamãe, que é formada em Biblioteconomia e sempre nos incentivou muito a ler. A Cláudia juntou pessoas queridas que também dividem este prazer e criou a "Academia dos Livros". A Ameixinha está reunindo todos os posts da Academia aqui. Já escreveram sobre muita coisa interessante...autores que desconhecia, outros que aprecio, outros que li e reli .... muito bom.

Entre Clarice, Machado, Zafón vou falar sobre Fernanda de Camargo-Moro. A Fernanda tem tudo a ver com o Sopa pois fala muito sobre culinária ..... Nao precisamos ler mais do que uma página para se encantar com a Fernanda. Li dois livros da Fernanda e comecei o terceiro ontem. Seus livros sao pura história, cultura, arqueologia, dicas, receitas ..... Me encanta a riqueza dos detalhes, a veracidade dos fatos ..... A Fernanda é carioca, cursou Museologia e História, é autora de diversos livros e tem um currículo admirável. O primeiro livro que li da Fernanda foi a "Ponte da turquesas". Já falei sobre o livro aqui, aqui, aqui, aqui e ele mora no meu criado mudo. O sultão Fatih Mehmet que o diga ......

Atualmente estou lendo "Arqueologias culinárias da Índia" mas vou comentar sobre o último livro da Fernanda que li. O livro é intitulado " Veneza: O encontro do ocidente com o oriente."

A Fernanda conseguiu contar toda a história de Veneza através da culinária. É incrível como ela descreve a construção de Veneza e ao mesmo tempo a evolução e a consagração da culinária local.

O livro foi vencedor do Gourmand World Cook Awards 2003 na categoria história da gastronomia e cozinha italiana. Quando a Fernanda escreveu o livro ela disse que ele contribuiria muito com o movimento slow-food. Tenho certeza que contribuiu e que continua contribuindo. Sou de origem italiana, veneziana assim como a Fernanda e não foi nada difícil me encantar ainda mais por Veneza. Ela conhece aquela cidade como ninguém....cada cantinho, aroma, sabor ..... o livro é puro encanto, receitas, história .....


Em "Veneza: o encontro do oriente com o ocidente" matei minha curiosidade sobre a origem do risotto, descobri porque o carpaccio se chama carpaccio, tive uma aula sobre a polenta em Veneza, o cardápio das festas tradicionais, bebi muito café, aprendi sobre a influência judaica na culinária veneziana .... viajei da Turquia até Veneza...fui de figos à fígados ..... Pensei em citar muitos trechos que me fascinaram mas quando peguei o livro nas mãos ele abriu bem no trecho em que a Fernanda fala sobre o foie-gras ..... E vamos à provável origem do famoso foie-gras ......"

Oriundo das mesas refinadas dos faraós egípicios, grande sucesso nas mesas romanas, o fígado também foi adotado pela culinária do povo da Laguna, onde até hoje é prato obrigatório. Mas quem teria inventado a engorda dos fígados? Um baixo-relevo egípcio datado da V dinastia mostra que Ti, o chefe dos segredos do faraó em todas a suas casas, era um grande aficionado dos foie-gras. .......... e Ateneu escreveu no século III que gansos gordos tinham sido enviados como presente pelo faraó do Egito ao rei Agesilau de Esparta, em 400 a.C. No Banquete dos sofistas, é citado o foie-gras, e entre as frases admiráveis, uma o define: "Um fígado ou, antes, uma alma de ganso ...." Teria sido uma lembrança do saber dos povo da Mesopotâmia, que consideravam o fígado o lugar onde ficava o sentimento." (Fernanda de Camargo-Moro)


Uma receita com fígado citada por Fernanda....

"fígado aos aromas":

1 peça de fígado, 1 punhdo de folhas de alecrim, sálvia, tomilho e salsa, 1 cebola grande, meio copo de azeite de oliva, meio cálice de vinho branco, 1 punhado de pimentanegra do Malabar moída na hora.


Numa caçarola com água e um punhado de folhas de alecrim, sálvia, tomilho e salsa, colocar um pedaço inteiro de fígado, sem a pele, para cozinhar em fogo brando, durante uma hora. Retire o fígado, deixe esfriar e corte-o em iscas finas. Cubra-as com uma cebolada de fatias finas umidecida com vinagre e vinho, frita no óleo. Salgue e polvilhe com bastante pimenta-negra moída. Deixe num lugar bem fresco para servir no dia seguinte. Como contorno....o fígado pede polenta, e da mais clara!


O livro é muito, muito interessante mesmo......assim como todos os livros da Fernanda de Camargo-Moro que tenho na biblioteca. Quem sabe amanhã não descobrimos algo sobre a polenta .....

Pode ler aqui no blog da Fabrícia.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Aos olhos de Deus



Comprado em Abril, com direito a autógrafo do autor e tudo, só agora o li.

É um livro do meu género favorito (romance histórico) e gostei bastante.

O enredo passa-se em 1514 e conta-nos a história de amor entre o fidalgo da corte de D. Manuel I, Diogo Pacheco, e a judia Raquel Aboab, que ele salvou da fogueira quando ela ainda era criança.

Mas, o valor acrescido deste romance, é que não se passa apenas em Lisboa, na corte.

O cenário deste romance é a riquíssima expedição da embaixada portuguesa a Roma, ao Papa.

Muito interessante ficarmos a saber pormenores da famosa viagem e das ofertas do rei de Portugal ao Papa Leão X!

Interessantes também ( e de certa maneira inesperados!) os muitos podres da igreja católica da época!

Uma das impreeões que também me ficou deste livro é a de que o autor não aprecia lá muito o "venturoso" rei, D. Manuel I.

Achei estranho porque normalmente D. Manuel é tido como um grande rei, que reinou numa época de vacas gordas e a quem tudo correu bem!


Pode ler aqui no blog da Saltapocinhas.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Aconteceu na Argentina


Mais um excerto do livro Aconteceu na Argentina:

"(...) "Carlos", disse ela, "está a acontecer uma coisa na Plaza de Mayo que tu tens que ver.""E não pode esperar?"
"Não", respondeu ela, "estão lá umas mulheres a fazer uma manifestação."
"E ainda não aconteceu nada?"

Toda a gente sabia que o regime havia proibido ajuntamentos públicos. (...) As novidades de Esme entusiasmaram Carlos, que punha a hipótese de a manifestação significar que os generais haviam mudado de maneira de pensar.

(...) Assim que Esme e Carlos chegaram à praça, este percebeu que os cartazes continham epitáfios e que o denominador comum destas mulheres era serem mães. As fotografias dos desaparecidos estavam no centro de cada cartaz, e debaixo destas liam-se as incrições a letras pretas e gordas:

ONDE ESTÁ RUBÉN MACIAS?

ONDE ESTÁ JULIA OBREGON?

PARA ONDE LEVARAM A MINHA FILHA E O MEU NETO?

Conforme as mulheres passavam, caminhando silenciosamente, ele quase conseguia ouvir a angústia das suas perguntas, mas esse som imaginário era menos perturbador do que os rostos das mães e dos que tinham desaparecido de suas vidas."
Pode ler aqui no blog da Isabel.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Aconteceu na Argentina


Acabei agora de ler o livro Aconteceu na Argentina, de Lawrence Thornton. Não conhecia o autor, nem o livro. Descobri-o no outro dia na estante da minha irmã e resolvi lê-lo. É um livro interessante, que me fez conhecer um pouco mais de um período negro da história da Argentina, a ditadura que durou de 1976 a 1983.
Carlos, Cecília e Teresa são uma família feliz, até ao dia em que Cecília, jornalista, escreve um artigo que não agrada aos generais:
"(...) Cecília, com os seus artigos, já acenava e chamava a atenção dos generais. O último que ela escrevera tinha como tema a questão de uns alunos de liceu em La Plata terem andado a protestar pedindo transportes públicos a preços mais acessíveis. Os generais interpretaram as suas queixas como "subversão nas escolas" e, uma semana depois, foi encontrado um autocarro abandonado numa estrada secundária do interior. Tudo o que restava, dos quinze alunos que tinham constituído a carga de passageiros, era três livros do currículo obrigatório do liceu e o casaco de malha de uma garota. Cecília perguntava até quão baixo estavam os generais dispostos a chegar e pedia a libertação imediata das crianças.(...) Na tarde em que o artigo foi publicado, Cecília desapareceu.
Gosto de pensar que, quando tudo aconteceu as palavras dela ainda pesavam no ar; que, enquanto os polícias se aproximavam da Calle Cordova, aquelas palavras ainda soavam na cabeça de milhares de argentinos; e que aqueles que emitiram a ordem de rapto se sentiram frustrados por se saberem incapazes de raptar também as palavras de Cecília, de destruir o que ela tinha escrito e publicado."
To be continued...
Pode ler aqui no blog da Isabel.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

A sombra do vento

Há uns dias atrás a ameixa seca convidou-me para fazer parte duma tertúlia literária e comentar um livro de que eu tivesse gostado. Aceitei o convite, lisonjeada, mas surgiu-me uma crise existencial...que livro comentar quando gosto de tantos?

Ler é, e sempre foi, uma paixão! Tinha três anos apenas e já vislumbrava que a leitura seria um passaporte para viagens e amigos incontáveis e, quando ia às compras com a minha avó, entrava na drogaria, ela sentava-me no balcão e eu punha-me a ler os rótulos da embalagens; O-mo, Ti-de...espertalhona soletrava e tudo! As pessoas à minha volta maravilhavam-se com o prodígio. Tão pequenina e já sabia ler! Pois, eu tinha e tenho é uma memória fotográfica!

Aos doze anos tinha já devorado tudo o que era próprio para a minha idade, Enid Blyton, Odete de Saint Maurice, Júlio Dinis etc. Então o meu pai deu-me autorização para ler as prateleiras de baixo de determinada estante. Eram esses os livros que eu lia de dia e dos quais já nem me lembro dos títulos...Porque à noite...Li às escondidas Stefan Zweig, Dostoievski, Baudelaire. Claro que não percebia aqueles "frissons" apaixonados mas, mais tarde, reli esses autores e entendi.

Percebem agora a minha dúvida? Que livro partilhar? Há livros que nos marcam terrivelmente consoante a idade em que os lemos ou a fase de vida por que passamos.

Assim, porque estou de férias e não tenho grande parte dos livros que amo perto de mim, resolvi comentar « A sombra do vento » de Carlos Ruiz Zafón, vencedor de alguns prémios, nascido em Barcelona e morador em Los Angeles onde colabora com alguns jornais.


A acção deste livro desenrola-se em Barcelona e atravessa diversas épocas, o pós guerra, a Guerra Civil espanhola e o Franquismo, dando-nos uma visão histórica e de costumes. Mas isso é só a paisagem...

O livro começa numa madrugada, com um pai que leva pela mão o seu filho, no maior dos segredos, ao cemitério dos livros esquecidos para que ele escolha um que terá que manter sempre vivo.

« - Este lugar é um mistério, Daniel, um santuário. Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte....»

Este adolescente escolherá, ao acaso, um livro maldito e deixar-se-á cativar de tal maneira pelo enredo que não descansará enquanto não resgatar o seu autor do anonimato. Este facto modificará para sempre a sua vida e arrasta-o para um labirinto de intrigas e segredos em que o passado se cruza com o presente, através de uma Barcelona obscura.

O amor está presente ao longo de toda a narrativa, numas personagens, alucinado e não correspondido; noutras, épico, ingénuo e puro; noutras ainda, doentio e vagabundo.

«Ao atravessar a sala na base da escadaria, Julian ergueu a vista e vislumbrou de raspão uma silhueta a subir com a mão no corrimão. Sentiu que se perdia numa visão.(...) Tinha sonhado com ela em inúmeras ocasiões, com aquela mesma escada, aquele vestido azul e aquela expressão no olhar de cinza, sem saber quem era nem por que lhe sorria.(...) Havia tempo que a aia tinha aprendido a reconhecer nos seus olhares o desafio e a arrogància do desejo: uma vontade cega de serem descobertos, de que o seu segredo fosse um escândalo apregoado e deixassem de se esconder nos cantos e desvãos para se amarem às apalpadelas. (...) Foi então que Julian conduziu Penélope até ao quarto de Jacinta no terceiro andar da casa. Despiram-se à pressa, com raiva e anseio, arranhando a pele e desfazendo-se em silêncios. Aprenderam os corpos um do outro de cor e enterraram aqueles seis dias de separação em suor e saliva...»

Surgem-nos personagens fantásticas, de uma densidade psicológica fascinante, que nos mantêm presos num suspense quase de narrativa policial, que nos levam a ler quase de um fôlego, página atrás de página.

Clara Barceló, cega e ninfomaníaca; Neri o professor de música e gigôlo; Fermin Romero de Torres, vagabundo resgatado à rua e que se revela um filósofo e braço direito de Daniel; Fumero, chefe da polícia que persegue tudo e todos como uma sombra derramando a sua raiva e esperando a sua presa com paciência de aranha; Nuria, tradutora e apaixonada infeliz de Julian; Miguel, o mais fiel dos amigos; Penélope e Bea as mulheres amadas por Julian e Daniel respectivamente; etc...

E, curiosamente, quanto mais Daniel investiga Julian Carax, o autor desconhecido do seu livro, mais a história que descobre se parece com a vida que ele próprio vai vivendo, num paralelismo que nos parece tão evidente que lhe adivinhamos o final trágico,... de um e de outro.

Mas seria demasiado óbvio para um romance tão bem construído!

É exactamente esta obstinada procura, esta fidelidade incorruptível deste jovem Daniel que levará a um desfecho inesperado que eu não vos vou contar, claro!

O autor deste livro tem um estilo único, uma linguagem forte, descrições pormenorizadas e poéticas. Irónico e até cínico na análise da vida. Hilariante e desconcertante quando menos esperamos.

Bea diz já no final da história « que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele aquilo que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos.» Eu digo isto quase todos os dias na ânsia de motivar para a leitura.

Muito mais haveria a dizer mas acho que o post já vai longo demais. Espero ter conseguido aguçar-vos a curiosidade, suficientemente, para que tenham a tentação de ler o livro e, acreditem, é muito melhor do que eu o descrevi.
Pode ler aqui no blog da Noémia.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Filipa de Lencastre- A Rainha que mudou Portugal

Academia dos livros,
é uma ideia original da Cláudia.
Esta "academia", embora acabadinha de criar, tem já um número de sócias jeitoso (sócias porque, pelo menos por enquanto, é só mulherio...)
E que fazem as sócias?
Bom, temos de falar sobre um livro que tenhamos lido ou estejamos a ler.
Falamos sobre ele, dizemos de nossa justiça, copiamos passagens, convencemos os outros a lê-lo também (ou não!)...

O último livro que li foi "Filipa de Lencastre", de Isabel Stilwell.
Adorei!
Eu gosto muito de história (embora seja uma completa ignorante deste assunto) e se a vida das personagens forem assim contadas em forma de romance é muito mais divertido! (também costumo usar esta técnica com os alunos - associar uma personagem histórica a uma história - e eles assim aprendem muito melhor!)

Mas vamos ao livro:
A Isabel conta, de forma romanceada, a história da vida de Philippa of Lancaster - mais tarde Filipa de Lencastre.A história passa-se entre os anos 1360 e 1415 e gostei especialmente de "ver" como viviam as pessoas na Idade Média.
Incrível!
E gosto de imaginar como seriam essas pessoas se vivessem hoje ou apenas alguns séculos mais tarde, com outros recursos!
Gostei tanto do livro que dei por mim com a lágrima no canto do olho quando a heroína morre!




Sinopse:
"Filipa de Lencastre morreu de peste negra, tal como a sua mãe, a 15 de Julho de 1415 com 55 anos. No dia 25 partiam de Lisboa 240 embarcações e um exército de 20 mil homens, entre os quais D. Duarte, o Infante D. Henrique e D. Pedro.
A Praça de Ceuta caía cerca de um mês depois. D. Filipa não esperaria outra coisa dos seus filhos… Mulher de uma fé inabalável, conhecida pela sua generosidade, empreendedora e determinada a mudar os usos e costumes de uma corte tão diferente da sua, Filipa de Lencastre deu à luz, aos 29 anos, o primeiro dos seus oito filhos. A chamada Ínclita Geração, que um dia, como ela, partiria em busca de novos mundos e mudaria para sempre os destinos da nação. Frei John, o tutor já tinha previsto o seu destino nas estrelas.
Nasceu Phillipa of Lancaster, filha primogénita de John of Gaunt, mas aos 29 anos deixou para trás a sua querida Inglaterra para se casar com D. João I de Portugal.
A 11 de Fevereiro de 1387 o povo invadiu as ruas da cidade do Porto para aclamar carinhosamente D. Filipa de Lencastre, Rainha de Portugal.
Num romance baseado numa investigação histórica cuidada, Isabel Stilwell conta-nos a vida de uma das mais importantes rainhas de Portugal.
Desde a sua infância em Inglaterra, onde conhecemos a corte do século XIV, à sua chegada de barco a Portugal onde somos levados numa vertigem de sentimentos e afectos, aventuras e intrigas".
Pode ler aqui no blog da Saltapocinhas.

Contos da Montanha

Este post começa com um desafio feito pela Ameixa na sequência de uma espécie de intercambio de bloguers. Bem, no essencial a ideia é propor um livro que se esteja a ler ou que se tenha lido e que se considere marcante. Claro que por mero exercicio mental podia desencantar um belo grupo de livros que gostei particularmente de ler, um outro grupo de livros "pour eppáter les bourgeois" e ainda um outro com a Biblia.

Decidi escolher uma modesta Obra de um modesto Autor que até praticava medicina e que nos obrigavam a ler aos doze anos, bem como a interpretar "coisas".

O Autor dispensa apresentações (só não foi apresentado aos tipos do Nobel, infelizmente), a sua Obra é mais que lida e sobretudo, mais que reconhecida. Constitui, no seu todo uma das mais belas heranças do século passado, uma perturbante e às vezes arrepiante cosmogonia que por acaso mora mesmo aqui ao lado, em qualquer das aldeias, dos seus habitantes, dos factos narrados.


É ao mesmo tempo de um absoluto rigor e de uma desconcertante simplicidade (como é que se consegue condensar tanta vida em tão poucas páginas?).


Da Enorme Obra de Miguel Torga escolhi os "Contos da Montanha", publicados em 1941. Porquê? Porque é daqueles livros que sempre que se leem nos mostram um ou outro pormenor descurado em leituras anteriores, porque a sua dimensão física está nos antípodas do que intelectualmente nos dá e porque podemos sempre depois de um conto, fazer uma pausa... mas só depois de ler este prefácio:


Prefácio à Quarta Edição

Depois de muitos anos de desterro, regressam novamente ao torrão natal os heróis deste atribulado livro. Numa época em que tantos portugueses de carne e osso emigraram por fome de pão, exilaram-se eles, lusitanos de papel e tinta, por falta de liberdade. Enfarpelados num duro surrobeco de embarcadiços, lá se foram afoita- mente em demanda do Brasil, o seio sempre acolhedor das nossas aflições. E ali viveram, generosamente acarinhados, assistidos de longe pela ternura correctiva do autor. Voltam agora ao berço, roídos de saudades. E não é sem apreensão que os vejo pisar, já menos toscos de aparência, o amado chão da origem. É que muita água correu sob a ponte desde que se ausentaram. Quatro décadas de opressão desfiguraram completamente a paisagem do país. A humana e a outra. Velhos desamparados, adultos desiludidos, jovens revoltados - num palco de desolação. Almas amarfanhadas e terras em pousio. Que alento poderá receber dum ambiente assim uma esperança de torna-viagem? Mas a pátria é um iman, mesmo quando a universalidade do homem, como neste preciso momento, sai finalmente dos tacanhos limites do planeta. Poucos resistem à sua atracção ao verem-se longe dela, seja qual for a órbita em que se movam. Até os seus filhos de ficção. Por mais fortuna que tenham pelo mundo a cabo, é com o ninho onde nasceram que sonham noite e dia. É que só nele se exprimem correctamente, estão certos nos gestos, são realmente quem são. De maneira que não me atrevi a contrariar a vinda das minhas humildes criaturas, como a prudência talvez aconselhasse. Pelo contrário: favoreci-a. Pode ser que o exemplo seja seguido, e o êxodo, que empobreceu a nação, comece a fazer-se em sentido inverso, e as nossas misérias e tristezas mudem de fisionomia. Portugal necessita urgentemente de ser repovoado.



S. Martinho de Anta, Natal de 1968


Miguel Torga












Pode ler aqui no blog do Cupido.

domingo, 10 de agosto de 2008

A minha "Insustentável Leveza do Ser" cruzada com "Jules et Jim" ou ao contrário


Se bem me recordo, um colega de turma emprestou-me este livro tinha eu 15 anos. Comprei-o depois, mais tarde, emprestei-o e nunca o reavi. Foi-me oferecido por uma grande amiga em 2002. Um livro que marcou a minha tomada de consciência sobre as relações amorosas, quando ainda vivia na ignorância das mesmas. Uma história sobre pessoas que arriscam sair da fila e partir em direcção ao desconhecido. Não apenas Sabina, aparentemente a mais ousada das personagens, mas também todos os outros, mergulhados numa época confusa de ameaças de guerra e censura. Personagens menos intelectualizadas do que possamos imaginar dão corpo a histórias que, para alguns, nunca passarão de fantasias de vidas diferentes, e, para outros, são um retrato quase fiel das venturas e desventuras vividas no seio de uma sociedade mais ou menos moralista e limitada. Poderá um livro destes ser, meramente, um entretenimento? Poderá ser ignorado? As questões que este romance levanta são bem mais do que as respostas. Gostaria de aproveitar a deixa para vos falar de uma pequena teoria pessoal e perfeitamente transmissível (haja quem tenha percebido o mesmo que eu e talvez há mais tempo). Encontrei alguns paralelos entre a história de Kundera e o filme de 1962 realizado por François Truffaut, Jules et Jim. Em vez de vos maçar com um texto teórico deixo-vos as palavras, nomes próprios e conceitos abordados por Truffaut e mais tarde por Kundera (não será difícil pela cronologia perceber quem se inspirou, e muito bem, em quem):

- Tomas (Catherine, no filme de Truffaut interpretada por Jeanne Moreau, numa sequência logo no início do filme decide vestir-se de homem e sair com Jules e Jim para ver até que ponto as pessoas na rua a confundiam de facto com um homem. Esse "disfarce" chama-se Tomas, o nome de uma das principais figuras do livro de Kundera);

- Tereza é nome da mulher de Tomas em Kundera e foi uma das paixões de Jules ("la locomotive") antes de conhecer Catherine;

- Sabina (o nome de uma das personagens femininas do romance de Kundera e nome da filha de Catherine e Jules, no filme de Truffaut);

- o chapéu de coco que aparece estrategicamente nas duas histórias (mais explorada a sua simbologia no livro);

- o léxico de palavras mal entendidas (no romance aparece-nos como uma tentativa de aproximação aos significados diferentes que Sabina e Franz dão às mesmas coisas e no filme Catherine e Jules discutem sobre o facto de existirem palavras que numa língua são do género feminino e noutra do género masculino);

- o próprio enredo das duas histórias, marcadamente centrado na temática da efemeridade das relações e a entrega a várias paixões em simultâneo;

- Catherine, em Truffaut, é, nas palavras do narrador, "a mulher que se entrega, mentalmente, a um desconhecido" e, para a Sabina de Kundera, "nada há de mais belo do que partir em direcção ao desconhecido".

Aqui estão alguns excertos do romance de Milan Kundera para despertar a curiosidade dos que ainda não o leram ou fazer recordar aos que já o conhecem:

"No mundo do eterno retorno, todos os gestos têm o peso de uma insustentável responsabilidade."
(...)
"Sentiu então um amor inexplicável por essa rapariga que mal conhecia. Parecia uma criança que alguém pusera numa cesta untada com pez e abandonara às águas de um rio para ele recolher na margem da sua cama."
(...)
"Não poder viver senão uma vida é pura e simplesmente como não viver."
(...)
"Tomas ainda não sabia que as metáforas são uma coisa perigosa. Com as metáforas não se brinca. O amor pode nascer de uma única metáfora."
(...)
"Mesmo presa da maior agitação, nos braços dele, a calma acabava sempre por chegar. Tomas contava-lhe em voz baixa contos que inventava só para ela, pequenos nadas, coisas tranquilizantes ou divertidas que ia repetindo num tom monocórdico. Na cabeça de Tereza as palavras transmutavam-se em visões confusas que a transportavam ao primeiro sonho. Tomas tinha um poder absoluto sobre o seu sono e Tereza adormecia sempre no exacto segundo que ele escolhera para isso."
(...)
"O acaso tem destes sortilégios, a necessidade, não. Para um amor se tornar inesquecível é preciso que, desde o primeiro momento, os acasos se reúnam nele como os pássaros nos ombros de São Francisco de Assis."
(...)
"Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela."
(...)
"No chão, ao pé do espelho, havia um velho chapéu de coco enfiado numa cabeça postiça. Baixou-se, apanhou-o e pô-lo na cabeça. A imagem do espelho transformou-se imediatamente; agora, era a imagem de uma mulher em roupa interior, bela inacessível, fria, com um chapéu de coco completamente despropositado na cabeça. Estava de mão dada com um senhor de fato cinzento e de gravata."*
(...)
"Para Sabina, não há nada mais belo do que partir para o desconhecido."

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera, 1983.
* Magritte?
Pode ler aqui no blog da debbie harry.

Filipa de Lencastre - A Rainha que mudou Portugal

Em resposta ao interessante convite da Ameixinha, venho mostrar-vos o livro que acabei de ler e que se revelou uma agradável surpresa: FILIPA DE LENCASTRE A Rainha que mudou Portugal de Isabel Stilwell



Conheci a escritora Isabel Stilwell numa Mini-Feira do Livro que se realizou na minha escola, com o livro Histórias para Contar em 1 Minuto e 1/2, na qual participou como convidada.
Ela é jornalista e escritora, com um longo percurso na imprensa escrita e sempre se confessou apaixonada por romances históricos.


Desta vez pesquisou a vida de Philippa of Lancaster, mais tarde Filipa de Lencastre de Portugal, escrevendo uma biografia romanceada, que procurou manter muito próxima dos factos possíveis de apurar seiscentos anos depois.É uma aventura de reencontro com o passado.




«A escritora lembrou-se de escrever sobre Filipa de Lencastre também por uma questão de afinidade: "Há uma ligação muito forte com o facto de eu pertencer a uma família inglesa e da minha mãe ser de Lancaster - exactamente da mesma zona de onde veio a Filipa - e também ter tido oito filhos, exactamente como a Filipa", admitiu.


"Não me identifico nada com o lado rigoroso e inflexível da Filipa mas identifico-me com o lado dela de mãe, de pessoa determinada a mudar o mundo para melhor, que é uma ideia para o qual eu fui muito educada a de que estamos cá para prestarmos um serviço", apontou a autora.
Na sua óptica, a melhor qualidade da rainha passava pelo facto de ser "muito leal e muito determinada".


"Ela tirou o partido da vida, não no sentido da vida hedonista, mas no sentido da construção - e isso é fascinante", rematou Isabel Stilwell.»


Para mim, este livro revelou-se um agradável mergulho no passado, levou-me a perceber melhor as formas de pensar e de estar na vida dos habitantes do século XV.

Quando estudamos História, são normalmente os homens que aparecem como lideres, contribuindo com grandes feitos e decisões para o caminho tomado. Achei muito interessante descobrir o papel que esta Mulher, sem nunca se sobrepor ao seu rei e marido, teve na mudança de rumo que Portugal tomou neste século.


Sei que nunca mais vou olhar para as chaminés geminadas do Palácio da Vila (em Sintra) com os mesmos olhos...


Espero ter despertado a vossa curiosidade e apetite para a leitura deste romance...
Pode ler aqui no blog da Anna.

sábado, 9 de agosto de 2008

História do Rei Transparente

Aceitando, com muito prazer, o convite da Ameixinha , mostro um dos últimos livros de li e o que, dentre estes, mais me faz voltar a reler pedacinhos ou capítulos inteiros.
A autora, Rosa Montero, espanhola de Madri, já mereceu o Premio Grinzane Cavour 2005 de literatura estrangeira e o Premio Leer 2004 para melhor livro espanhol com A Louca da Casa.
Em História do Rei Transparente, ela nos leva para o mundo medieval em um romance cujo personagem, Leola, vestida com as roupas de ferro de um guerreiro morto num campo de batalha, atravessa os séculos XII e XII no espaço de uma vida e mostra o nascimento do individualismo e as raízes do Renascimento, bem como o surgimento de novas religiões cristãs por causa da intransigência da Inquisição.
Começa a narrativa assim: "Sou mulher e escrevo. Sou plebéia e sei ler. Nasci serva e sou livre. Vi coisas maravilhosas em minha vida. Fiz coisas maravilhosas em minha vida. Durante algum tempo, o mundo foi um milagre. Depois a escuridão voltou. A pena treme entre meus dedos a cada vez que o ariete investe contra a porta. ..."
Não vou contar mais não, se alguém já tiver lido, me conte o que achou.
Ao lado deste, venho olhando este livro interessante Corantes naturais da flora brasileira.- Guia Prático de Tingimento com Plantas. de Eber Lopes Ferreira, ilustrações de Hiroe Sazaki.
Após a apresentação e receitas de tingimento, cada planta tem uma lâmina encartada, com fios tingidos na cor e a receita de comoproceder em cada caso.

Pode ler aqui no blog da Márcia.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A Paixão segundo G.H

Nunca gostei de perder tempo. Na escola, os tempos livres eram passados a ler. (Ameixa seca)

Faço minhas as palavras simples e sábias da ameixa e, como ela, também gostaria de pertencer a um clube de leitura e discussão de livros. Em alternativa a isso, desafiemo-nos por ora virtualmente. Puxa-me a ameixa para o desafio lançado pela Cláudia M, que reza assim:

"cada um viria falar do livro que anda a ler, ou de um livro que já tenha lido e que queira recomendar. A ideia é cada um vir mostrar o seu livro, comentando-o, pondo citações, etc. O objectivo seria incentivar à sua leitura (ou não)."






Clarice. Ou se adere apaixonadamente à sua escrita visceral, pura e intuitiva ou se lhe é indiferente. Acredito que não haja meio termo para referir o encontro com Clarice Lispector.


1)
Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.


2)
Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.


3)
Oh, pelo menos no começo, só no começo. Logo que puder dispensá-la, irei sozinha. Por enquanto preciso segurar esta tua mão – mesmo que não consiga inventar teu rosto e teus olhos e tua boca.


4)
Mas embora decepada, esta mão não me assusta. A invenção dela vem da ideia de amor como se a mão estivesse realmente ligada a um corpo que, se não vejo, é por incapacidade de amar mais. Não estou à altura de imaginar uma pessoa inteira porque não sou uma pessoa inteira.Agora preciso da tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor.
Pode ler aqui no blog da Vague.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Julie & Julia

Fui convidada para participar de um Clube Literário, a Ameixa Seca lançou o desafio e fiquei muito lisonjeada! Quem lançou esta idéia foi a Claudia M.

Descobri a literatura aos nove anos, quando me vi de cama, com hepatite!!!Não tinha o que fazer, só repouso e comecei a ler e ler e ler e não parei mais.


Lia tudo, sem escolher muito, mas com o tempo fiquei mais seletiva.


Pensei muito sobre qual livro indicar e resolvi indicar este por várias razões:


Este livro descobri em um blog ,Comes e Bebes, foi adaptado de um blog e é sobre comida,e tem histórias muito hilárias e me identifiquei muito.


A partir deste livro comecei a pensar no meu blog.





O livro Julie & Julia mostra o lado mais imperfeito, humano e divertido da culináriaEsse lado está em "Julie & Julia - 365 Dias, 524 Receitas e 1 Cozinha Apertada", livro de uma norte-americana em crise que decide afogar os problemas não comendo, mas fazendo comida.


Mas não qualquer comida. Julie Powell, uma texana de 30 anos que mora em Nova York e está cansada das pressões profissionais e reprodutivas, resolve encarar o livro "Mastering the Art of French Cooking" ("Dominando a Arte da Cozinha Francesa"), escrito em 1961 por Julia Child, e a primeira a levar as técnicas da culinária francesa para os lares norte-americanos. Com muita manteiga e cremes. No lugar de ingredientes pré-preparados , o contato com peças inteiras de carne, ossos e vegetais. O livro virou best-seller nos EUA e deve chegar aos cinemas em 2009.

Julie conta histórias engraçadíssimas, como quando decidiu extrair o tutano de um osso sem os instrumentos adequados. "Você tem uma serra elétrica?", sugere o irmão da autora. Para ler a íntegra visite o blog "The Julie/Julia Project".
Pode ler aqui no blog da Alice.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Espuma dos Dias


Nunca gostei de perder tempo. Na escola, os tempos livres eram passados a ler. Sempre que não tinha os amigos por perto, tinha um livro. Ir ao médico e ter que esperar sem fazer nada, viajar de comboio, esperar por alguém, sempre foi um tempo preenchido de leitura.

Boris Vian foi escritor, engenheiro, músico, poeta, cantor, actor, cronista e morreu prematuramente aos 39 anos numa sala de cinema enquanto assistia à adaptação para filme do seu livro "Hei-de cuspir-vos nos túmulos".

Para conhecer o homem também é preciso ouvi-lo. Deixo-vos um vídeo de uma música que me diz muito. Porque Vian via o absurdo da guerra e o destaque do capitalismo, fez o favor de denunciar em canção a sua visão do mundo e em particular da invasão da Argélia.




"Le Déserteur"


Não deixem de ler Vian. Quem conhece o "Arranca corações", "As formigas", "O Outono em Pequim", "Erva vermelha", "Elas não dão por ela", "Morte aos feios" e "Hei-de cuspir-vos nos túmulos" (estes três últimos sob pseudónimo de Vernon Sullivan), sabe que são leituras simplesmente fantásticas, que nos transportam para um mundo novo :) De todos estes falta-me ler "Erva Vermelha" e "Hei-de cuspir-vos nos túmulos", uma falha imperdoável.

Vian escreve muito acerca do amor e das mulheres. Creio que, para ele, só é possível encontrar mulheres bonitas ou mulheres inteligentes. Nunca a fusão desses dois pormenores :)

As mulheres inteligentes são bem capazes de aceitar esta característica em Vian. Há capacidade para ultrapassar essa "falha" dele e apreciar a sua escrita sem ficar ofendida, porque a inteligência é isso mesmo. Não podemos dissociá-lo da época em que viveu.

No prefácio desta espuma Vian refere que «Só existem duas coisas: o amor de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, porque o resto é feio (...)»

O suficiente para inflamar alguns espíritos, hein? Vian é um provocador e eu adoro isso, politicamente incorrecto, frontal e sempre bem disposto :)

Como já tinha referido, escolhi uma trágica história de amor. Mas é uma história sublime, em nada igual a todas as outras que já leram. Vian usa o sarcasmo, o absurdo, a ironia e o bom humor para dar asas às histórias. É isso que o distingue de muitos outros.O livro de Vian que escolhi fala de um casal de apaixonados, cujo amor é intenso mesmo depois de uma tragédia. Colin fará de tudo por Chloé, porque "as paixões saem caro". No livro são muitas as incursões gastronómicas, como poderão ler nas citações.

O título que Vian deu a este livro diz tudo de nós, deu-lhe um significado sincero acerca da vida de todos nós e de todos os seus aspectos. No original, "l'Écume des Jours" traduzido para "A espuma dos dias". Fala do que constitui a espuma de todos os dias: os amigos, os amores, a culinária (Colin tem um cozinheiro particular- Nicolas), o trabalho, os excessos, as doenças, a morte e a vida na sua complexidade. Faz uma crítica ao exagero e a tudo que dele resulta. Porque o amor em excesso também enlouquece e transforma-nos em espuma.

Deixo-vos algumas passagens que me marcaram neste livro e espero que seja o suficiente para vos levar a ler uma história de Vian. Esta foi considerada a obra mais importante de Vian e nem sempre é possível adquirir bons livros por menos de 13€, não é? Espero que sejam motivos suficientes para que leiam mais Vian :)

Colin é um rapaz abastado, tem um cozinheiro particular e um amigo chamado Chick. Tem um rato como animal de estimação e conhece Chloé. A partir daí um grande amor passa por uma grande provação e por muitas situações estranhas em cenários incríveis.

«-Este pâté de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de o fazeres? -Foi o Nicolas quem teve a ideia - disse Colin. - Há (ou antes, havia) uma enguia que aparecia todos os dias, saída do cano da água fria, e ele encontrava no laboratório. -É curioso - disse Chick. - E por que é que isso acontecia? -Punha a cabeça de fora e, fazendo pressão com os dentes, esvaziava o tubo de pasta dentrífica. Como Nicolas só usa pasta americana, de ananás, isso deve tê-la tentado.»

«Pendurado na parede que ficava à frente de Colin, via-se Jesus numa grande cruz negra. Parecia satisfeito por ter sido convidado e olhava para tudo com interesse.»

Colin «Ia a correr o mais que podia, e à sua frente as pessoas inclinavam-se lentamente para cair como mecos e ficar estendidas no passeio fazendo um marulhar macio, (...). Chloé repousava, muito branca naquela cama bonita que fora das suas núpcias. Tinha os olhos abertos mas respirava mal (...). Colin, porém, não sabia o que tinha acontecido e corria, sentia medo porque não basta estarmos sempre juntos, também é preciso sentir medo, talvez tivesse sido um acidente, um automóvel que a tivesse atropelado (...).»

«-O doutor quer que ela vá para a montanha - disse Colin. - Está convencido de que o frio consegue matar essa porcaria... (...)
-Também disse que é preciso termos constantemente flores à sua volta - acrescentou Colin.- Para meterem medo à outra...»

A passagem mais admirável para mim é quando Colin arranja um emprego em que tem que semear espingardas e fazê-las crescer direitinhas com o seu calor humano. Cínico e absurdo não é? Acima de tudo, muito inteligente :)

Deixo-vos apenas algumas frases do livro. Não posso contar tudo porque não seria justo para quem quiser ler. É suposto ser apenas uma "entrada" a aguçar o apetite.

Leiam porque como Elie Wiesel diz: "O inferno é um local sem livros"

Perdoem-me o "testamento" mas Vian merece ;)
Pode ler aqui no blog da Ameixa Seca.

domingo, 3 de agosto de 2008

Desafio literário

Acalento um desejo antigo de pertencer a um clube de leitura. Gostava de reunir com um grupinho uma vez por mês para conversar acerca de livros, de autores, de frases, de interpretações, de vidas!


Vejo-me sempre numa mesa redonda com os livros no colo e uma chávena de chá a aconchegar a alma no Inverno ou uma taça de morangos no Verão.


Lembro-me de ler desde que me conheço. Vivo rodeada de livros desde muito criança. Como já tinha dito, o meu pai sempre apostou nos livros como acesso ao conhecimento, à aprendizagem e ao desenvolvimento intelectual dos filhos. Eu não me canso de lhe agradecer este pormenor.

Mas ao nível da literatura de lazer, como lhe chamo, foi o meu irmão mais velho que me abriu as portas a um mundo novo.


A minha mãe diz que, quando entrei para a escola, passado uns meses já estava em frente à televisão a tentar ler as letras que passavam. Acho que vem daí a minha incapacidade matemática :)


Quando fui operada e tive que permanecer uns dias no hospital, pedi que me levassem Banda Desenhada. Tinha 9 anos e estava sozinha num sítio arrepiante. Não sei se foi essa experiência traumatizante que me levou a não apreciar BD. Nunca mais li, passei aos livros de aventuras que lia velozmente para passar ao seguinte e por aí em diante. Quem não leu "Uma Aventura" e "O clube das chaves"? Eu li quase todos :) E a partir daí passei a outra fase. O desenvolvimento é isso mesmo, certo? Nós crescemos e os livros crescem connosco, como companheiros inseparáveis.

Li sempre muito e aprendi muito a ler.


Mas, estou a divagar... A Cláudia apresentou uma ideia fantástica e convidou-me para participar. Não sei se alguma vez lhe disse que adoro ler, mas se não disse, ela acertou em cheio. Lançou um desafio literário em que, cada uma das desafiadas tem que "falar" do livro que está a ler ou de um livro que tenham lido e que queiram recomendar. Obrigada pelo convite Cláudia ;)


Eu leio muito, tenho sempre livros ao pé de mim. Mas há sempre uns que gostamos mais que outros. Há escritores que, conhecendo o estilo, sabemos que gostamos. Eu tenho alguns que, há muitos anos, já foram eleitos como bons e favoritos: John Steinbeck, Albert Camus, Irvine Welsh, Boris Vian, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, entre muitos outros.


Eu sou daquelas pessoas que gosta das tragédias e das surpresas até ao final. Não sou grande fã de romances choramingosos que, a meio do livro, já adivinhamos o fim. E gosto da estranheza das histórias e das personagens, dos desvios de conduta, da riqueza de carácter e da profundidade de quem participa do enredo.


Há muitos anos, quando o meu irmão se apercebeu que eu não era tão estúpida como ele imaginava e quando me viu a ler umas coisas, ofereceu-me um livro. Um livro maravilhoso e mágico. Onde podemos dar asas à imaginação e moldar os personagens como os sentimos e pensamos. Não deixa de ser um romance, é! Não deixa de ser uma bonita história de amor, é! Mas é uma tragédia de amor que exige demasiado aos protagonistas, a Colin e Chloé.


Esta é apenas a primeira parte de um post demasiado longo... Quando dei por mim tinha divagado demais. Mas não vou cortar nada do que disse. Quando a Cláudia me convidou eu sabia que esta minha paixão pelos livros levar-me-ia a um post interminável e cansativo para quem lê. Decidi fazer isto por capitulos para não vos cansar :)
Pode ler aqui no blog da Ameixa Seca.