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domingo, 15 de novembro de 2009

Notas de Cozinha


Leonardo da Vinci (1452-1519) é uma das figuras mais multifacetadas da história. Considerado desde o séc. XVI como uma espécie da “mago”, foi pintor, escultor, arquitecto e mestre de banquetes nas cozinhas de Ludovico Sforza.

É assim que é apresentado o Autor deste livro, que li e que é mais uma contribuição para a Academia.

Em 1469, com 17 anos, Leonardo vai como aprendiz para Florença, para a oficina de Verrochio, onde fica durante 3 anos. Passado esse tempo e enquanto se procura impor como pintor, começa a trabalhar à noite como criado de mesa, na Taverna dos Três Caracóis. Na Primavera de 1473, todos os cozinheiros morrem misteriosamente por envenenamento e Leonardo é incumbido de supervisionar as cozinhas. Com o seu espírito inquieto, rapidamente transforma a sensaborona polenta com carnes, em pratos novos e requintados.
Em 1478, a Taverna dos Três Caracóis é destruída por um incêndio e Leonardo, com Sandro Boticelli, abre uma nova taverna nesse sítio, decorada com telas de Verrochio e denominada A Marca das Três Rãs de Sandro e Leonardo. O estabelecimento não foi propriamente um sucesso e em 1482, Leonardo parte para Milão, onde fica ao serviço de Sforza, como Conselheiro sobre Fortificações e Mestre das Folias e Banquetes. A princípio, Leonardo pouco mais faz do que “animar os pós-prandiais”, com o seu alaúde, mas aos poucos vai fazendo outras coisas, como o projecto de alteração das cozinhas do Palácio Sforza.
E Leonardo lista os requisitos básicos de uma cozinha:

“Primeiro que tudo [é preciso] um lume permanente. Depois, um fornecimento constante de água a ferver. A seguir, um chão que esteja sempre limpo. Então, vêm dispositivos para limpar, moer, talhar, pelar e cortar. Seguidamente, um dispositivo para manter a cozinha livre de cheiros e fedores, enobrecendo-a com uma atmosfera suave e sem fumo. E música, pois que os homens trabalham melhor e com mais alegria quando há música. Finalmente um dispositivo para eliminar as rãs dos barris de água potável".

Ao longo da sua vida, Leonardo vai desenvolvendo alguns utensílios para facilitar o trabalho na cozinha e discorrendo sobre a cozinha e a comida, no Codex Romanoff.

Deixo uma nota sobre etiqueta à mesa:

“O meu Senhor Ludovico tem o costume de atar coelhos adornados com fitas às cadeiras dos seus comensais, a fim de que estes possam limpar as mãos engorduradas às costas do animal, costume que eu considero impróprio na época em que vivemos. E quando, depois da refeição, os animais são recolhidos e trazidos para a lavandaria, o fedor infiltra-se nos outros panos que são lavados conjuntamente com eles. Também não me apraz o hábito de o meu Senhor limpar a faca às vestes do vizinho. Porque razão não lhe é possível fazer como os outros membros da corte que a limpam à toalha trazida para o efeito?”

Podem ler aqui no blog do Cupido.

domingo, 25 de outubro de 2009

Caim

Caim, o último livro de José Saramago que tanta poeira tem levantado. Depois da patetice de um senhor ligado à cultura aquando do evangelho segundo Jesus Cristo e que se recusou a enviar a obra nem me lembro para onde, porque ofendia a fé dos católicos, temos agora outro, que de Bruxelas, vem dizer que o Saramago devia renunciar à nacionalidade Portuguesa. Presumo que nem um nem outro tenham lido os livros que os levaram a ter os seus minutos de fama. De qualquer modo isto nem é importante, como não foram importantes as afirmações de José Saramago sobre a bondade ou confiabilidade de Deus nem mesmo as dos representantes da Igreja sobre a honestidade intelectual de Saramago. A Obra é superior a essas “tricas”.

Quando comprei o livro, hesitei entre lê-lo naturalmente, como um outro qualquer romance, ou fazer uma leitura cruzada com a narrativa do Antigo Testamento, nomeadamente do Pentateuco; optei pela primeira.

Saramago está cada vez mais igual a si próprio, ou seja genial; a forma como ele conta a história de Caim, num tempo longo desde a expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden até à chegada da Arca do Noé ao monte Ararat é sublime. São 181 páginas de puro prazer, duma escrita que com o passar do tempo vai precisando de menos palavras para nos transmitir mundos de imagens e pensamentos e que nos leva frequentemente a voltar para trás, para tentar apanhar algo que escapou. E quando se volta a voltar atrás descobrem-se mais coisas que escaparam anteriormente. É maquiavelicamente deliciosa esta escrita…

Deixo um excerto, dos mais marcantes para mim, num diálogo entre Caim e seu filho Isaac, depois de aquele ter desobedecido a Deus, não sacrificando o seu filho, tal como era Seu desejo:

“…Perguntou Isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, Isaac, Então porque quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor, que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor dos nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou Isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom do mau e do pior, Assim é…” (pag. 85).

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A Bimby na Cozinha Regional Portuguesa

Este é um livro que eu “quase” li… e uma nova contribuição para a Academia dos Livros.

“A Bimby na Cozinha Regional Portuguesa”, edição da Worwerk.
Fiz o download da publicação em PDF (147 páginas - cerca de 33Mb) que começa com uma introdução da directora comercial da Worwerk Portugal, um índice que apresenta 55 receitas e textos do Chef Albano Lorenço e do Rui Falcão. Depois das receitas (e cada receita tem uma proposta de vinho para acompanhar) tem uma ficha técnica que refere que a 1ª edição é de Outubro de 2008 e ainda que é interdita a reprodução de textos e imagens por quaisquer meios. Esta parte não percebi, ou melhor, acho que percebi, porque a edição em papel custava € 30,00 (o que dá cerca de € 0,55 por receita, quase o preço de um café – a mim saiu por menos de um euro, ligação à net, electricidade e uma água incluídas) e ainda tiveram que pagar às pessoas.

Com efeito, quase nada me move contra a “bimby”, tirando (e não é pouco) o facto de reduzir o acto apaixonado de cozinhar a um mero conjunto de “operações” que passam por “ler receitas”, pesar ingredientes, regular o termostato, programar o programa (é mesmo para ser um pleonasmo), rezar para que a máquina (com duplo sentido) não se engane e desfaça a comida, lavar a máquina, lavar a máquina, não lavar a máquina, acabar a comida no forno…

Na verdade, a bimby pode ser um auxiliar interessante na cozinha, mas não é a cozinheira.

Quando li o texto de introdução da Isabel Padinha, retive isto:

“Verificará, com prazer, que pela simplicidade de processos que as novas tecnologias nos oferecem, é fácil recuperar a tradição e trazê-la para a mesa do nosso dia a dia. Sentirá, ao passear por este livro, que a bimby vale a pena e que quem a conhece embarca numa viagem sem retorno.”

Não percebi se o discurso se destina a vender a maquineta, porque se presume que o livro se destina a quem já comprou, mas enfim…

Os textos seguintes, do Albano Lourenço e do Rui Falcão dizem pouco mais que isto:

“Ok, levem lá o texto, ponham os nossos nomes para credibilizar isto e passem o cheque..."

Quanto às receitas, não se pode dizer que tenha havido um trabalho cuidado por parte de quem fez o livro; não se percebe bem porque se escolhe a receita A em detrimento da B. Ainda assim, em relação a algumas receitas, tive o cuidado de as comparar com os “originais” e algumas até convencem.

O que não convence é apresentar o Bacalhau à Zé do Pipo como sendo da Beira Alta, mesmo que se refira em nota que faz parte do Receituário do Porto… Vou ali ao GoogleMaps e já volto, mas antes deixo a receita transcrita, embora seja proibido.






Não será a melhor coisa para cozinhar, mas faz umas t - shirt' s fantásticas...



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sábado, 30 de maio de 2009

O Canto e as Armas

Manuel Alegre é um dos grandes poetas Portugueses. O pequeno livro "o Canto e as Armas", na verdade é um livro enorme. É para mim fantástico ouvir estes poemas pela voz de Alegre com a guitarra de Paredes em fundo ou pela voz e musica de Adriano.


RAIZ

Canto a raiz do espaço na raiz
do tempo. E os passos por andar nos passos
caminhados. Começa o canto onde começo
caminho onde caminhas passo a passo.
E braço a braço meço o espaço dos teus braços:
Oitenta e nove mil quilómetros quadrados.
E um país por achar neste país.

PEREGRINAÇÃO

Depois o bosque se fez barco. E ramo a ramo
Foi leme e quilha.
Era um povo a perder-se por seu amo
Que perdia o seu povo de ilha em ilha.

Eras tu que morrias na morte das lavras
Eras tu que ficavas cada vez mais nu.
E a cada terra onde chegavas eras tu
Que morrias na terra que deixavas.

Porque nenhum Brasil foi teu. Nenhuma
Ilha a tua. Em cada barco terra a terra
Perdeste a pátria por achar. E guerra a guerra
Por tuas armas te perdeste. E o mais foi espuma.

E o teu sangue corria por dentro das lavras.
Construías muralhas e ficavas
Pedra a pedra cercado. E desarmado
Eras tu que morrias nas batalhas
Enredado nas armas que tecias:
Malhas onde sem glória te perdias.

E as fogueiras ardiam. Inventavas fantasmas.
E era o teu corpo o corpo que queimavas.
Eras tu que cantavas dentro das palavras
Tecendo desarmado o canto e as armas.

E ALEGRE SE FEZ TRISTE

Aquela clara madrugada que
Viu lágrimas correrem do teu rosto
E alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno Agosto.

Ela só viu meus dedos nos teus dedos
Meu nome no teu nome. E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silencio dissemos separados.

A clara madrugada em que parti
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde um automóvel se afastava.

E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.





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quinta-feira, 19 de março de 2009

Concha Buika



A Concha Buika veio ao meu encontro por acaso; a Mariza convidou-a para gravar uma musica, a musica passou na antena 1, eu ouvi e fiquei fã (não da Mariza, claro).

Como queria mesmo ter essa musica (as pequenas verdades) e não me apetecia nada comprar um disco da Mariza passei na Fnac e procurei - bem, não foi bem procurar, limitei-me a perguntar o que havia por lá da Concha, a menina disse que só tinham o livro – afinal era um livro e mais dois CD’s – fixe.

O CD1 – Niña de fuego

O CD2 – Aquí hay amor

De destacar, la falsa moneda (a preferida das Mission), as pequenas verdades (a minha preferida), luz de luna (a mais detestada pelos vizinhos), volver (Mr. Gardel, a rapariga esforçou-se, não dê tantas voltas no túmulo).
E prontes, highly recomended…
E com uma singela homenagem a Chavela Vargas…

Tu cara y Chavela

Es una noche sosegada,
Limpia y pura.
Hay una luz traicionera
Manipulando las sombras.
O tu cara o ninguna
Entre mis ojos y la luna.

Y al fondo canta Chavela,
Porque hoy Chavela canta
Y nosotros extasiados,
No nos decimos nada.

La musa siempre lloró cantando,
Los que a morir de amor fueron com miedo,
Lloran hoy com ella.
Yo, que hacia el desamor fluyo serena,
Me desvanezco
Tatuando deseos inconfesos
Sobre tu piel aceitunada,
Gracias, por este aplauso dice Chavela.

Gracias por darme tu nombre.
Tu abrazo sabe a más,
Cuando ella canta Las Ciudades.



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quinta-feira, 12 de março de 2009

O Doutor Jivago

Boris Pasternak (1890 – 1960) – Doutor Jivago

Estudou filosofia, mas renunciou ao trabalho nessa área (como antes renunciara à música) para se dedicar à poesia. Publicou os primeiros versos em 1913, mas é na prosa que se destaca. A síntese da sua obra, segundo o próprio, é Doutor Jivago (1945/56). Proibido na URSS, por ser considerado “não-revolucionário”, o romance foi publicado em Itália em 1957 e traduzido para as principais línguas depois de o autor, precursor de toda a dissidência, ser Nobel no ano seguinte (prémio que declinou por não poder sair da URSS).


“Quem é Iura Jivago? Um homem dividido entre duas mulheres? Um poeta? Um burguês que não se adapta a uma revolução inevitável? O drama do Dr. Jivago reside, somente, na atracção por Lara Guicharova e na infinita ternura por Tonia, sua mulher? Ou terá um alcance mais vasto?”

Acho que, respostas, só lendo esta masterpiece da literatura do século XX…

Já agora, parece-me que um tipo chamado David Lean fez um filme baseado no livro, por aí em 1965.

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terça-feira, 3 de março de 2009

Irei cuspir-vos nos túmulos

“Vian escreve muito acerca do amor e das mulheres. Creio que, para ele, só é possível encontrar mulheres bonitas ou mulheres inteligentes. Nunca a fusão desses dois pormenores :)”

O Engenheiro Vian publicou esta obra sob o pseudónimo de Vernon Sullivan. É um dos livros mais fantásticos/perturbantes que já li…

Lou acaba assim:

“Ela contorcia-se como um verme. Nunca me passaria pela cabeça que lhe custasse tanto a morrer; fez um movimento tão violento que eu julguei que o meu antebraço ia desprender-se; dei-me conta de que se apossava de mim uma tamanha cólera que de boa vontade a esfolaria; então, ergui-me para acabar com ela a pontapé, e apoiei todo o meu peso em cima dela, colocando-lhe um sapato de través na garganta. Quando ela deixou de bulir, senti de novo a sensação que pouco antes me assediara.”

Depois desta descrição:

“E havia-se perfumado com uma droga complicada, decerto muito cara; provavelmente um perfume francês. Tinha cabelo castanho todo puxado para um só lado da cabeça e olhos amarelos de gato selvagem num rosto triangular bastante pálido; e cá um destes corpos… Prefiro não pensar nele. O vestido aguentava-se sozinho, não sei como, nem nos ombros nem à roda do pescoço, nada, excepto os seus seios”.




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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Evangelho segundo Jesus Cristo

De José Saramago não há muito a dizer; paradoxalmente amado e reconhecido ou desprezado e ignorado, faz parte com Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, Eça de Queiróz, Fernando Pessoa e Miguel Torga de um ínclito grupo de enormes Autores Portugueses. Pois e ganhou o Nobel.

Com Jorge de Sena ou Eduardo Lourenço faz parte de um grupo de ilustres Portugueses que não quis viver em Portugal…
Como Mário Vargas Llosa, Gabriel Garcia Marquez, Milan Kundera ou Ernest Hemingway marcou de uma forma profunda a literatura do século XX.

Há outros grandes escritores na história da literatura? Claro que há, era o que faltava.

Assim, o que torna Saramago tão especial? Uma assombrosa Cosmogonia? Uma apurada reflexão sobre assuntos incómodos à maioria das pessoas? Uma desassombrada morfologia linguística que poupa virgulas e pontos finais ao ponto de deixar o leitor sem respiração? Como dizia o meu Professor de História do 6º ano: “não só, mas também”…

Efectivamente, confesso que a sua Cosmogonia me perturba menos que a de Bóris Vian ou a de Pier Paolo Pasolini. Ou mesmo a de Woddy Allen ou Patricia Highsmith. Ou se quiser recuar uns anos, à de Ludwig Van Beethoven. Ou mesmo à de Manoel de Oliveira ou Agustina Bessa Luís. E será assim tão incómodo? Talvez, mas a quem já leu Franz Kafka ou Georges Bataille ou Henry Miller ou o Marquês de Sade ou mesmo E. G. Wells não incomodará por aí além. Ou para quem leu Nietsche… E o ritmo alucinante das narrativas? Basta ouvir o “movimento perpétuo” de Carlos Paredes para se poder ouvir/ler o discurso de Saramago.


E já agora, porquê esta Obra? Não seria eventualmente mais confortável falar d’o Memorial do Convento, essa obra maior da nossa literatura, ou d’o Ensaio sobre a cegueira, ainda por cima agora recriada em filme por Fernando Meirelles? Claro que sim, mas a tentação de Saramago de reflectir sobre uma personagem que marcou de uma forma tão profunda a nossa história nos últimos vinte séculos deve ter sido tudo menos estimulante. Desde os Concílios Medievais que “fabricaram” a Bíblia Sagrada até às reflexões sobre a história do Cristianismo ou mesmo obras de referência do século passado, temos uma grande panóplia de obras sobre a figura de Jesus Cristo, muitas delas produzidas no século passado (tempo a que não serão alheios os estudos sobre o Santo Sudário ou as aparições Marianas – aliás, a Virgem Maria é figura central na teologia do século XX). Nikos Kanzantzakis escreveu uma grande obra sobre Jesus Cristo e levada à tela por Martin Scorcese (“a última tentação de Cristo”, com Willem Dafoe, Harvey Keitel e Barbara Hershey, realizado em 1998); se Mel Gibson (“a paixão de Cristo”) também quis apresentar a sua “reflexão”, para não falar da soberba “Ópera-Rock” Jesus Christ Superstar, de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber também “convertida” em filme, o que poderia impedir um grande Escritor de escrever um “Evangelho” - apócrifo – e neste “mostrar” a sua Magna personagem?


Provavelmente nada…


E, José Saramago, como grande escritor universal, que transcende mesmo o seu tempo, apresenta-nos neste Evangelho uma visão intemporal e muito própria sobre Jesus Cristo, perturbante e genial, para ser lida com a abertura intelectual de quem não se importar de manter a Bíblia Sagrada ao lado e eventualmente alternar a leitura… afinal de contas estamos a falar de uma das figuras mais importantes, perturbantes e eventualmente a mais incontornável da nossa Civilização.

E o grande Saramago, a páginas 283 a 285 da primeira edição da Caminho relata desta forma extraordinária o encontro com Jesus e Maria de Magdala, um dos mais perturbantes “encontros” para a Teologia da Igreja Católica Romana:


“Durante todo o dia, ninguém veio bater à porta de Maria de Magdala. Durante todo o dia, Maria de Magdala serviu e ensinou o rapaz de Nazaré que, não a conhecendo nem de bem nem de mal, lhe viera pedir que o aliviasse das dores e curasse as chagas que, mas isso não o sabia ela, tinham nascido noutro encontro, no deserto, com Deus. Deus dissera a Jesus, A partir de hoje pertences-me pelo sangue, o Demónio, se o era, desprezara-o, Não aprendeste nada, vai-te, e Maria de Magdala, com os seios escorrendo suor, os cabelos soltos que parecem deitar fumo, a boca túmida, olhos como de água negra, Não te prenderás a mim pelo que te ensinei, mas fica comigo esta noite. E Jesus, sobre ela, respondeu, O que me ensinas, não é prisão, é liberdade. Dormiram juntos, mas não apenas essa noite. Quando acordaram, já manhã alta, e depois de uma vez mais os seus corpos se terem buscado e achado, Maria foi ver como estava a ferida do pé de Jesus, Tem melhor ar, mas não devias ir ainda para a tua terra, vai-te fazer mal o caminho, com esse pó, Não posso ficar, e se tu mesma dizes que estou melhor, Ficar, podes, a questão é que tenhas a vontade, quanto à porta do pátio, estará fechada por todo o tempo que quisermos, A tua vida, A minha vida, nesta hora, és tu, Porquê, Respondo-te com as palavras do Rei Salomão, o meu amado meteu a mão pela abertura da porta e o meu coração estremeceu, E como posso ser o teu amado se não me conheces, se sou apenas alguém que te veio pedir ajuda e de quem tiveste pena, pena das minhas dores e da minha ignorância, Por isso te amo, porque te ajudei e te ensinei, mas tu a mim é que não poderás amar-me, pois não me ensinaste nem ajudaste, Não tens nenhuma ferida, Encontrá-la-ás se a procurares, Que ferida é, Essa porta aberta por onde entravam outro e o meu amado não, Disseste que sou o teu amado, Por isso a porta se fechou depois de entrares, Não sei nada que possa ensinar-te, só o que de ti aprendi, Ensina-me também isso, para saber como é aprendê-lo de ti, Não podemos viver juntos, Queres dizer que não podes viver com uma prostituta, Sim, Por todo o tempo que estiveres comigo, não serei uma prostituta, não sou prostituta desde que aqui entraste, está nas tuas mãos que continue a não o ser, Pedes-me demasiado, Nada que não possas dar-me por um dia, por dois dias, pelo tempo que o teu pé leve a sarar, para que depois se abra outra vez a minha ferida, Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais não te farão diferença, ainda és novo, Tu também és nova, Mais velha do que tu, mais nova que a tua mãe, Conheces a minha mãe, Não, Então porque disseste, Porque eu nunca poderia ter um filho que tivesse hoje a tua idade, Que estúpido sou, Não és estúpido, apenas inocente, Já não sou inocente, Por teres conhecido mulher, Não o era já quando me deitei contigo, Fala-me da tua vida, mas agora não, agora só quero que a tua mão esquerda descanse sobre a minha cabeça e a tua direita me abrace.”


E Jesus e Madalena são aqui “perdoados”, num discurso sublime… Jesus e Maria aparecem aqui muito mais humanos que na Liturgia.


É preciso mais para ler ou reler este livro fantástico?


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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Crime no Expresso do Oriente

Agatha Christie nasceu em 1890, filha de pai americano e mãe inglesa. Passou a infância em Devonshire e cedo se familiarizou com a literatura inglesa, através da leitura de Charles Dickens e Jane Austen. Mais tarde seria leitora fervorosa de Sherlock Holmes. A sua educação escolar não foi além de dois anos de estudo de canto e piano em França.

Em 1915 casou-se com o coronel Archibald Christie de quem se separou em 1926. Quatro anos mais tarde casou-se com Sir Max Mallowan, famoso arqueólogo e professor da Universidade de Oxford que acompanhou em numerosas viagens e expedições arqueológicas. Até à sua morte, Agatha Christie escreveu as mais empolgantes ficções policiais, criando personagens curiosíssimas, tais como o celebérrimo Hercule Poirot, Miss Marple, Tuppence e Tommy, o superintendente Battle e Ariadne Oliver.

A obra de Agatha Christie permanecerá no património cultural internacional como testemunho inesquecível da extraordinária capacidade humana nos domínios da ficção, do raciocínio e do conhecimento da psicologia do comportamento - , obra imorredoira a vários títulos e retrato imperecível de uma época e de um modo de encarar os conflitos fundamentais da vida.



Este livro é daqueles que se calhar toda a gente leu. Ou viu o filme. Ou as duas coisas. Ou o tem na mesinha de cabeceira. Ou na estante. Ou viu na FNAC. Ou na Bertrand. Ou já ofereceu a alguém. Ou já lhe foi ofertado. Ou não.

Claro que não conto a história, mas cheira-me que deve ter havido um crime no Expresso do Oriente…~

Ah, e este é o 13º volume da colecção Vampiro, editada pela Editora Livros do Brasil, SA, com sede na Rua dos Caetanos, 22. Tel. 346 26 21 - Lisboa. (ulha, não tem código postal e o nº de telefone não começa por 21 – estranho…).


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terça-feira, 25 de novembro de 2008

O Perfume

Esta extraordinária história passa-se no século XVIII e há todo um extraordinário trabalho de reconstituição histórica, não só da época e das mentalidades como do ofício de perfumista, que era então particularmente valorizado e que estava a cargo de artesãos especializados. Patrick Suskind conduz o leitor de página em página, de odor em odor, de perfume em perfume, inebriando-o, arrebatando-o nessa alquímica busca do Absoluto que é a do seu personagem: a busca do perfume ideal, isto é, a forma suprema da Beleza. Nessa busca nada deterá Jean-Baptiste Grenouille – que nascera no meio dos mais nauseabundos fedores, numa banca de peixe - , nem mesmo os crimes mais hediondos. Este personagem monstruoso possui no entanto algo de extremamente inquietante, a sua própria incorrupta pureza.


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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Aventuras de João sem medo

Aventuras de João sem medo, panfleto mágico em forma de romance

José Gomes Ferreira

Este livro é absolutamente fantástico. Lido pela primeira vez no sexto ano, foi usado como base de uma peça de fantoches organizada na turma pela Professora de Português. Claro que tinha que ler o original…
Narra as aventuras de João sem medo, que vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, exígua aldeia de chorincas situada (ou melhor, aninhada) perto do muro construído em redor da Floresta Branca e onde os homens construíram uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos. Claro que ninguém se aventurava pela floresta, porque os choraquelogobebenses preferiam choramingar e lastimar-se, andando sempre de monco caído, sempre constipados por causa da humidade, e a ouvirem com delícia canções de cemitério ganidas por cantores trajados de luto, ao som de instrumentos plangentes e monótonos. Um dia João, o único que por capricho de contradizer e instinto de refilar resistia à choradeira, não aguenta mais e atreve-se a saltar o muro, que ostentava este aviso:

É PROIBIDA A ENTRADA
A QUEM NÃO ANDAR
ESPANTADO DE EXISTIR

e embrenha-se na Floresta Branca…
A partir daí sucedem-se aventuras e seres milagrosos como a Fada dos Dois Caminhos, o Homem sem Cabeça, a Menina de Cristal, o Gramofone com Asas, o Príncipe das Orelhas de Burro, o Rocinante (sim, o cavalo de Dom Quixote), a Princesa nº 46734, o João Medroso, a Menina dos Pés Ocos ou a Pedra numa narrativa que nos deixa literalmente agarrados ao livro. No fim, João sem medo, cheio de saudades de comer um bacalhau cozido com batatas e grelos, volta para Chora-Que-Logo-Bebes. De regresso àquela choraminguisse toda, decide abrir uma fábrica de lenços. Deve ter enriquecido…

Esta Obra, de um dos maiores escritores Portugueses, constitui-se numa viagem de João sem medo a um mundo fantástico que no essencial se encontrava dentro dele. Magistralmente narrada, é sem dúvida uma Obra incontornável do século XX Português. Dedicada aos filhos do Autor, Raúl Hestnes Ferreira e ao irmão, Alexandre.

Dedicatória da primeira edição (1963):

Para os meus dois filhos:

Para ti, Raul José, homem há muito – e homem autêntico -, que aprendeste à tua custa que a verdadeira coragem é a força do coração…
Para ti, Alexandre, ainda criança, mas já com todas as tendências para não te tornares num desses falsos adultos que sujam o mundo e odeiam a imaginação…
Para os meus dois filhos – o homem e a criança – este Divertimento escrito por quem sempre sonhou conservar a Criança bem viva no Homem.








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segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Os Lusíadas

Mais um daqueles livros que se tem que ler na escola...
Confesso que no nono ano achei uma enorme estopada ler esta Enorme Obra. Ele era figuras de estilo, palavras de que se desconhecia o significado, uma Professora que tinha acabado o Curso havia pouco tempo, que nos mandava ler as passagens entre as que se liam nas aulas e a fazer um resumo (na altura não havia net, mas felizmente havia um Senhor chamado Adolfo Simões Muller que escreveu uma versão para crianças e que eu, obviamente utilizei - claro que a Professora nunca soube) eram as leituras na aula, bem, tudo menos interessante.
Mais tarde e com mais alguma capacidade intelectual li esta Opus Magnun da Cultura Portuguesa, sempre nesta magnífica edição do Circulo de Leitores de 1980.
O Alvará Régio, a autorização da Santa Inquisição e as primeiras estrofes...








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sábado, 25 de outubro de 2008

A Biblioteca, de Gonçalo M. Tavares

Este livro, como o próprio Autor refere, pode não ser lido de uma vez. Trata-se de uma série de pequenos textos acerca da obra de muitos Autores. Deixo aqui a transcrição dos textos sobre Boris Vian, Ezra Pound, García Márquez, Hermann Broch e o último Nobel, J. M. Le Clésio.
Mais informações sobre o Autor aqui.


Boris Vian


O meu saxofone é uma garrafa de rum que me faz cantar, mesmo com a boca cheia de garrafa.E tenho bombas atómicas em comprimidos que se tomam: dois depois do almoço, um após o lanche, e um antes de deitar. Pode um método de destruição maciça ser individualizado sem perder as suas principais características? Eis uma pergunta interessante a que ainda não se deu a devida atenção.
E havia um homem cujo saxofone não tinha notas, mas metáforas.


Ezra Pound


Um violino tocado por um corpo de estômago grosseiro.
«A espiritualidade avança no organismo apesar do aparelho mecânico colocado no coração. O By-pass não interfere com Deus: os batimentos dos dois mundos seguem caminhos diferentes. Os médicos não recomendam canções; e cometem ainda outros erros.
Negócios com os beijos não se fazem, caro Lorde, a não ser nas boas sociedades.


Gabriel García Márquez


Na Primavera os mortos não têm ossos. No Inverno, sim.
Na Primavera os mortos terão pólen e vísceras, mas ossos não. No Inverno, sim.
Mas os homens morrem todos no Inverno.


Hermann Broch


Um homem caminhava depressa. Havia a chuva por cima, lenta mas constante; e o chão por baixo: a caminhar tão rápido como o homem, mas em sentido inverso. A chuva ao cair no medo de um homem faz dele mais forte, e ao cair no metal – em cima de um carro, por exemplo – faz dele mais fraco.
O metal enfraquece com a chuva; e os homens, como algumas plantas, crescem com certa água em certa inclinação.


J. M. G. Le Clezio


Duas narinas para dois pulmões, a mão direita para escrever o livro, a mão esquerda para acariciar o gato.
Gatos pretos devem ser acariciados com a mão esquerda e gatos brancos devem ser acariciados com a mão direita. O contrário dá azar.
A nudez é o uniforme do massacre. Mas a nudez dos homens que não trazem a Natureza em baldes para a despejar em fábricas inteligentes, é outra. A nudez pode ser o uniforme do amor como se por vezes existisse um exército de dois, que não tem no mundo um único inimigo.
Aquele que ama é um exército de 2, sem inimigos.
Aquele que escreve é um exército de 1, sem inimigos.

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terça-feira, 7 de outubro de 2008

O labirinto da saudade


Que Eduardo Lourenço (fez 85 anos no outro dia) é uma das incontornáveis figuras do pensamento Português é um facto indiscutível. O Labirinto da Saudade - Psicanálise Mítica do Destino Português é uma das suas obras mais conhecidas. Quando ontem vi a entrevista que lhe fizeram na dois fui buscar o livro e devo confessar que é uma obra fantástica, de leitura obrigatória.

Informação sobre ele aqui


O tradicional grito de “pouca sorte”


A célebre mentalidade milagreira portuguesa procede desta situação, em si não insólita, mas aberrante pela extensão e o tempo em que se prolongou. O resultado, o imediato gozo que proporciona, independentemente do esforço com que se alcança, equivalem “à graça” ao “milagre” que num segundo restaura a ordem do mundo até aí desfavorável. A imprevidência histórica de que várias vezes demos provas desde Alcácer-Quibir até à Descolonização, a eterna surpresa que sublinha as catástrofes mais evitáveis, o nacional grito de “pouca sorte” com que comentamos os desastres que nós próprios elaborámos por inércia ou confiança infinita nas boas disposições da Providência, são só alguns dos aspectos com que mais brutalmente se manifesta a nossa riquíssima mentalidade de pobres milionários por direito divino. Tutti principi, como na Itália, onde tão comum “commedia dell’ arte” social serve, felizmente, para ninguém se tomar a sério como tal, o que não é o nosso caso, de gente que a bem dizer não visa mesmo “ser rico” responsabilizando-se nessa situação, mas apenas não ser tão pobre como o vizinho e suplantá-lo. É a função e o conteúdo formal da riqueza que importam, não a objectiva e tranquilizante vontade de poderio que ela assegura. O comportamento sinistramente ostentatório e bárbaro que William Beckford notou na nossa aristocracia portuguesa que frequentou, não tinha mais função que a de se extenuar na pantagruélica exibição da sua diferença em relação ao comum povo esfomeado. Essa gente que era a nossa “nobre gente” não celebrava nenhum ritual de posse ou gozo feliz da sua existência, mas afirmava apenas, para o exterior, a satisfação vil de um privilégio. Esta aristocracia não estava em condições mínimas de fazer um uso humano do abuso económico e social que representava. A função de aparato e de aparência esgotava toda a sua realidade por não haver no espaço social português termo algum de comparação que pudesse constituir uma crítica implacável desse estilo de vida sem objecto próprio, pois a Corte, imobilista e grotesca, também o não exemplificava.


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Eu já posso imaginar que faço

Este livro circulou pelo país muito antes de ser editado, pelas casas e pelas vidas de algumas pessoas. Nasceu de uma extensa conversa radiofónica. Da Rádio Comercial chegou à letra da Assírio & Alvim. De que se trata? Da vida das pessoas. Propõe um sentido poético, a reflexão, “dar forma aos sonhos” contra a normalização e apatia que abafam a vida. O diálogo, as hesitações, os silêncios, as divergências pontuais, a coloquialidade tornam-no tão próximo como se se tratasse literalmente de um livro de bolso, perto do calor do corpo e do escuro dos sonhos. Formalmente é uma conversa interminável, sem mestre, chave d’ouro ou indiscutíveis verdades.

retirado daqui


Resolvi falar deste livro de algum modo por causa da escrita de Lobo Antunes, que se me afigura algo impenetrável. Já tinha dito na academia que tentei mais do que uma vêz ler obras dele e nunca consegui. No fim de semana peguei n' a morte de Carlos Gardel e não consegui passar da primeira página. Tenho pena, mas, como diria o Eng. Guterres: "É a vida..."


Entretanto comecei a pensar na escrita e na palavra dos psi's e lembrei-me deste título que li com enorme prazer há uns anos. Não será obra de grande alcance literário, até porque resulta da transcrição de um programa de rádio, mas seduz.Deixo um pequeno excerto:


Todos nascemos com uma doença mortal que é a vida


C.A.D. – Claro. E lá diz o povo: mãe há só uma. Penso que foi o código napoleónico que tentou introduzir um pouco o pai, mas à força. Porque, de facto, é a mulher que tem sempre o segredo da maneira como gerou os seus filhos. Tenho um conhecimento, digamos, microscópico, de míriades de fantasma que se geram à volta da criança.


Acompanhei várias mulheres que estiveram grávidas durante a análise e pude aperceber-me que há sempre um mistério sobre a criança que nunca é partilhado com o pai. Os casais modernos pensam que isto de homens e de mulheres é tudo a mesma coisa e propõem a divisão das tarefas com o bebé em planos de igualdade, como se fosse indiferente para o bebé ser tratado por um ou pelo outro. O impulso maternal é comum a toda a espécie humana, mas a mulher não permite ao homem a comunhão da maternidade. Acaba sempre por lembrar que o filho andou foi na barriga dela. A mão outorga-se o privilégio de ser o paraíso perdido da criança…


J.S.M. – Voltamos, afinal, ao paraíso perdido, mas desta vez um paraíso bastante mais real que o da Bíblia, talvez o único paraíso perdido verdadeiro…


C.A.D. – E voltamos também à questão que me pôs no outro dia, sobre a importância dos mitos da origem. É que todos nascemos com uma doença mortal que é a vida. E aí também a religião católica dá uma bela resposta ao dizer: “da terra vieste, à terra voltarás”. Já falámos também do Édipo em Colono, onde aquele acaba por se dissolver num coito com a terra-mãe. Ora, é precisamente porque morremos que temos necessidade de uma origem. Seria terrível srmos mortais! Se o fôssemos, ninguém faria coisa alguma! Pelo menos os criadores, esses aspiram sempre à imortalidade. Penso que era o Herberto Hélder que dizia que o desejo mais mortal é o desejo da imortalidade. E eu estou de acordo com ele.


In, Eu já posso imaginar que faço, 1989


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domingo, 5 de outubro de 2008

Dinis Machado - Qual é o lado mais cómico disto?

Dinis Machado faleceu.

O Título do post pode parecer não fazer sentido nesta altura, mas é facilmente compreendido se se ler o texto abaixo, escrito por ele e publicado num livro chamado "Reduto quase final" em 1989.

Até sempre.


Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer esta pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito de sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto?

Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos – e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim: -Qual é o lado mais cómico disto?

Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.

Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.


In: Reduto quase final, 1989

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terça-feira, 30 de setembro de 2008

Der Prozess, by Franz Kafka

O Processo, de Franz Kafka é, indubitavelmente um dos maiores livros do século XX. Já li este livro há uns bons anos, mas sempre que leio algo que me desassossega lembro-me de K. e do "seu" Processo, daquela subtil e estranha cosmogonia, daquele engolir em seco, da Metamorfose, do Castelo, d' (...)


Ler Kafka é decifrar um código que, parecendo simplista e redundante, acaba por se mostrar extremamente complexo. O Processo é isso mesmo. É-nos apresentado Joseph K., um singular personagem, funcionário de uma instituição bancária sem nome, habitante de uma cidade da qual nada sabemos e cidadão de um país que desconhecemos totalmente.
Como o título indica, a trama gira em torno de um processo: o processo de K. E continuamos sem nada saber. Qual a acusação feita a K.? Qual o crime por si cometido? Que justiça é aquela, que o encarcera mantendo-o livre? Irrespondível! Nem ele mesmo sabe. Ou sabe e prefere não revelar.


Impregnada de uma profunda, mas subtil, apreciação social, esta obra é o espelho de uma mente crítica, em desconformidade com os ritos sociais vigentes, aos quais lança inúmeros ataques. Publicado postumamente, bem como a maioria dos restantes escritos de Kafka, este livro apenas nos é acessível porque Max Brod, amigo e confidente do autor, não lhe foi fiel (ou louco) ao ponto de satisfazer o seu último pedido: que queimasse todas (!) as páginas por si escritas. Haverá talvez quem considere que nada de importante se teria perdido. Respeito tal posição. Eu prefiro pensar que, se tais palavras tivessem sido queimadas, o fumo que delas teria emanado seria senhor de um dos mais belos, densos e desconcertantes odores alguma vez concebido.


retirado daqui.


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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

E do disco se fez livro



Há livros, grandes livros e canções, grandes canções e músicos (não uso a palavra "artistas" porque infelizmente cada mais vem tendo sentido pejorativo...), grandes músicos.

E como admiro a tranversalidade na arte, e gosto de poesia e do Paco Ibañez e ouvi este disco no outro dia (Paco Ibañez, Por una Canción, de 1990) pensei: "se estou a ouvir este disco e a ler grandes poetas, não será de algum modo este disco um livro?" (e se alguém quiser dizer, olha este, armado em pseudo-intelectual, devo dizer que conheço o disco do Caetano que se chama "Livro"...).

Não quero dizer mais. Deixo este belo, embora deficientemente traduzido texto do grande José Agustín Goytisolo e os poemas que Paco interpreta no disco, bem como alguns videos. No fim, imagens retiradas do folheto de um Concerto que Paco deu em Coimbra em 2001 (aparecem em fundo umas "coisas" - pois, é o autógrafo que ele me deu, mas que se vê muito mal).

De Trovadores e Jograis

Quando as civilizações grega e romana foram derrubadas, na Europa começou um longo período de retrocesso cultural. Desapareceram os grandes poetas, desapareceram os grandes teatros, onde se encenava para um grande público. A cultura encerrou-se em alguns mosteiros e encontrava-se só ao alcance de uma minoria.
Foi na Provença, no século XII, que apareceram os primeiros trovadores (trovador ou faladores) de palavras felizes, que não escreviam em latim, mas na língua de OC.
Chamavam-se assim para se distinguirem dos intelectuais que falavam em latim. Os trovadores eram gente culta, alegre e satírica que se expressavam no idioma do cidadão comum. Compunham a letra e a música das suas canções, era o seu ofício. As suas obras eram interpretadas pelos jograis, origem dos cantautores actuais, e que para além de saber cantar, dominavam diversos instrumentos musicais. Em algumas situações os jograis compunham também a letra e a música das canções, como os cantautores actuais.
O êxito de trovadores e jograis, bem como a sua enorme influência junto das populações, muitas vezes assustou os detentores do poder: o IV concílio de Latrão proibiu a clérigos e monjas ter trato com trovadores e jograis, tendo-os definido como gente dissoluta e libertina. Mas também dentro do mesmo poder eclesiástico houve gente que não pensava da mesma forma: Francisco de Assis e seus discípulos romperam com esta proibição ao auto intitularem-se “Jograis do Senhor”.
Os trovadores, jograis e cantautores actuais mantiveram e enriqueceram este ofício, mas também, como outrora, foram mal vistos em muitos países, foram proibidos, marginalizados e até encarcerados.
Mas aí estão, trovadores e jograis de hoje, como antigos e gastos lutadores a favor da alegria e da liberdade.

José Agustín Goytisolo (traduzido do original em Castelhano)



No te pude ver
No te pude vercuando eras soltera
mas de casada te encontraré.

Te desnudaré

casada e romera
cuando en la noche las doce den.


Federico Garcia Lorca


Córdoba

Jaca negra, luna grande
y aceitunas en mi alforja.
Aunque sepa los caminos
yo nunca llegaré a Córdoba

Córdoba lejana y sola¡
Ay qué camino tan largo!

¡Ay mi jaca valerosa!
¡Ay que la muerte me espera!
Antes de llegar a Córdoba.

Córdoba

lejana y sola

Federico Garcia Lorca


Amada

Amada, en esta noche, tú te has crucificado
entre los dos maderos cruzados de mi beso.
Y tu pena me há dicho que Jesús ha llorado
y que hay un Viernes Santo mas dulce que esse beso.
Y tu pena me há dicho que Jesús ha llorado
y que hay un Viernes Santo mas dulce que esse beso.
Amada, en esta noche, tú te has crucificado.


Amada, moriremos los dos juntos, muy juntos
y ya no habrán reproches en tus ojos benditos
ni volveré a ofenderte. Y en uma sepultura
dormiremos los dos como dos hermanitos.

Cesar Vallejo








Juventud, divino tesoro

Juventud, divino tesoro.
¡Ya te vas para no volver!
Cuando quiero llorar no lloro
y as veces, lloro sin querer.

Juventud, divino tesoro.
¡Ya te vas para no volver!

En vano busqué a la princesa
que estaba triste de esperar.
La vida es dura, amarga, y pesa.
Ya no hay princesa que cantar.

Juventud, divino tesoro
¡Ya te vas para no volver!

A pesar del tiempo terco
mi sed de amor, no tiene fin.
Cabello gris, asi me acerco
a los rosales de jardin.

Juventud, divino tesoro
¡Ya te vas para no volver!

Ruben Dario


Ya no hay locos

Ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, en España ya no hay locos.


Se murió aquel manchego,
Aquel esrajalário fantasma del desierto.


Ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.


Todo el mundo está cuerdo
terrible, horriblemente cuerdo.


Ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, en España ya no hay locos.


¿Cuándo se pierde el juicio?
Yo pregunto: ¿Cuando se pierde, cuándo?
Si no es ahora, que la justicia
vale menos que el orín de los perros.


Ya no hay locos, ya no hay locos
ya no hay locos, amigos ya no hay locos.

Leon Felipe







Rosal

¿De qué sirve presumir,

rosal, de buen parecer
sí aún no acabas de nacer
quando empiezas a morir?
Hay que llorar e reir
vivo y muerto, tu arrebol.

Rosal, menos presunción
¿donde estan las clavellinas?
Pues serán mañana espinhas
las que ahora rosas son.

No es muy grande la ventaja
que tu calidad mejora,
si es tumantilla la aurora
es la noche su mortaja.
Se está riendo la malva
cabellera de un terrón.

Rosal, menos presunción
¿donde estan las clavellinas?
Pues serán mañana espinhas
las que ahora rosas son.

Francisco de Quevedo








Tus ojos me recuerdan

Tus ojos me recuerdan
las noches de verano.
Negra noche sin luna
orilla al mar salado.
Y un chispear de estrellas
de un cielo negro y bajo.
Tus ojos me recuerdan
las noches de verano.
Y tu morena cara
los trigos requemados
de un suspirar de fuego
de los maduros campos

Tus ojos me recuerdan
las noches de verano.

De tu morena cara
de tu soñar gitano
de tu mirar de sombras
quiero llenar mi vaso.
Me enbriagaré una noche
de un cielo negro y bajo
para cantar contigo
orilla al mar salado,
una cancion que deje
cenizas en los lábios
de tu mirar de sombra
quiero llenar mi vaso.

Tus ojos me recuerdan
las noches de verano.

Antonio Machado







Cancion de la muerte

Débil mortal, no te assuste
mi oscuridad ni mi nombre.
En mi seno encuentra el hombre
un término a su pesar.
Yo, compassiva, le ofrezco
lejos del mundo un asilo
donde en mi sombra, tranquilo
para siempre duerma en paz.

Soy la virgen misteriosa
de los últimos amores
y ofrezco un lecho de flores
sin espinhas ni dolor.
Y, amante, doy mi cariño
sin vanidad ni falsia.
No doy placer, ni alegria,
mas es eterno mi amor.

Deja que inquieten al hombre
que, loco, al mundo se lanza
mentiras de la esperanza,
recuerdos del bien que huió.
Mentiras son sus amores,
mentiras son sus victorias
y son mentiras sus glorias
i mentira su ilusion.

José de Espronceda


La Romeria

¡Ay qué blanca la triste casada!
¡Ay, como se queja entre las ramas!
Amapola y clavel será luego
cuando el macho despliegue su capa.

Si tú vienes a la Romería
a pedir que tu vientre se abra
no te pongas un velo de luto
sino dulce camisa de Holanda.

¡Ay, como relumbra!
¡Ay, como relumbraba!

Vete sola detrás de los muros
donde estan las higueras cerradas
Yy suporta mi cuerpo de tierra
hasta el blanco gemido del alba.

Federico Garcia Lorca







El Rey Almutamid

Soñaba en su lecho el rey
soñaba de madrugada
que entre las ondas del rio
buscaba manzanas blancas

Noche de medo en Sevilla
víspera de la batalha

Y el rey Almutamid
en el sueño contemplaba
la dulce fruta de nieve
que en los espejos temblaba

Noche de medo en Sevilla
víspera de la batalha

En Sevilla, Almutamid
abrió los ojos al alba
quando el sol enrogecia
en la ventana mas alta.
Y ni amanecer halló
ni arrayán bajo la almohada
ni del agua el dulce nido
donde vio manzanas brancas

Fanny Rubio








Volverán las oscuras golondrinas

Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcon sus nidos a colgar
y otra vez con el alla a sus cristales
jugando llamarán.

Pero aquellas que el vuelo refrenaban
tu hermosura i mi dicha al contemplar,
aquellas que aprendieron nuestros nombres,
essas… ¡no volverán!


Volverán las tupidas madresselvas
de tu jardin las tapias a escalar,
y outra vez a la tarde, aún más hermosas,
sus flores se abrirán;

Pero aquellas cuajadas de rocio,
cuyas gotas mirábamos temblar
y caer, como lágrimas del dia…
essas… ¡no volverán!

G. A. Becquer

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sábado, 20 de setembro de 2008

Sucupira, ame-a ou deixe-a

Venturas e desventuras de Zeca Diabo e sua gente na terra de Odorico, o Bem-Amado

Já li este livro mais que uma vez e confesso que o acho fantástico.
A partir da peça “O Bem-Amado” de Dias Gomes, foi feita (para mim) uma das mais geniais e hilariantes telenovelas brasileiras. Na sequela dessa telenovela foi feita ainda uma série de televisão (com os actores da novela original). São desta série os sete contos que integram este livro ameno e alegre, zombeteiro e hilariante que, através da caricatura e da graça, critica a realidade político-social brasileira, dessacralizando mitos, comportamentos e costumes.

Seguem pequenos excertos…


“- Zeca Diabo… - Dirceu se encolhe no banco traseiro do carro que se distancia do Descampado, ainda não refeito do susto – com essa eu não contava.
-Esse cangacista… o padre italiano fez a cabeça dele. – Odorico coloca a gravata, veste o paletó. – Tá repetindo tudo que nem papagaio. E é um papagaísmo que pode alastrar talqualmente uma praga.
- O senhor acha?
-Foi assim que começou a Revolução Francesa. Com uns papagaístas que papagaiavam o que os outros diziam. E foram papagaiando, papagaiando… e deu no que deu.
- Acabaram cortando a cabeça de Luís XVI.
- É… - Odorico passa as mãos no pescoço, como se sentisse o fio da guilhotina – temos que dar um jeito nesse padreco.



- Licença, seu coroné? – Caboré pára na porta da sala de jantar, respeitoso, chapéu na mão, o cano do 38 aparecendo por baixo do paletó-saco. – Seu coroné mandou-me chamar?
- Mandei. – Odorico acaba de descascar um camarão, engole, chupa os dedos, limpa as mãos e a boca num guardanapo. – Reúna toda a rapaziada. Tenho pra você um serviço de profilaxia da peste subversiva.
- Tem o quê? – O jagunço arregala os olhos. – Entendo disso não, seu coroné.
- Entende sim. Entende e é doutor, de anel no dedo e canudo.


- Por esse rápido expositório dos sabidos e acontecidos, o Dr. Delegado pode ver que existem sobejíssimas provas de que esse padre é um subversionista contumaz da ordem política e social. – Odorico quebra o tom com uma inflexão maliciosa. – Noves fora os concernentes à moral pública… Contam-se dele coisas do arco-da-velha.
- É mesmo? O Delegado Pacheco tira os óculos raiban, mostrando os olhos acinzentados e cheios de pornográfico interesse.
- Um debochista praticante e juramentado. Tem que ser expulso do País.”








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sábado, 6 de setembro de 2008

Os passos em volta - Herberto Helder

Herberto Hélder (de seu nome completo Herberto Hélder de Oliveira) nasceu no Funchal, ilha da Madeira, no dia 23 de Novembro de 1930. Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa, tendo trabalhado em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio. Começou desde cedo a escrever poesia, colaborando em várias publicações de que se destacam: Graal, Cadernos do Meio-Dia, Pirâmide, Poesia Experimental (1 e 2), Hidra e Nova. É um dos introdutores do movimento surrealista em Portugal nos anos cinquenta, de que mais tarde se viria a afastar.


Obras: Poesia – O Amor em Visita (1958), A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), O Bebedor Nocturno (1968), Vocação Animal (1971), Cobra (1977), O Corpo o Luxo a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), Flash (1980), A Cabeça entre as Mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Do Mundo, (1994), Poesia Toda (1º vol. de 1953 a 1966; 2º vol. de 1963 a 1971) (1973), Poesia Toda (1ª ed. em 1981). Ficção – Os Passos em Volta (1963).

retirado daqui...

Um pequeno excerto de um livro magnífico:

TEORIA DAS CORES

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.


Compreendendo esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.

Este livro não é propriamente um best-seller; a primeira vez que o li foi para aí em 1992, na altura emprestado; só o comprei uns anos mais tarde, por aí em 1999.



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