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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Danças & Contradanças


As sarcásticas histórias de 'Danças & Contradanças' podem ser resumidas em duas palavras - malévolas e maliciosas. Como em muitos dos seus romances, Joanne Harris consegue combinar situações e personagens comuns - e até banais - com o extraordinário e o inesperado. Mais do que nunca, a autora dá largas à sua imaginação e apresenta-nos uma exuberante e prodigiosa caixa de Pandora que contém tudo quanto é extravagante, estranho, misterioso e perverso. De bruxas suburbanas a velhinhas provocadoras, monstros envelhecidos, vencedores da lotaria suicidas, lobisomens, mulheres-golfinho e fabricantes de adereços eróticos, estas são vinte e duas histórias onde o fantástico anda de mãos dadas com o mundano, o amargo com o doce, e onde o belo, o grotesco, o sedutor e o perturbador estão sempre a um passo de distância. 'Danças & Contradanças' é o primeiro livro de contos de Joanne Harris.

Deixo-vos uma parte de um dos contos... hilariante:


Fé e Esperança vão às compras


Há quatro anos, a minha avó foi internada num lar de idosos
em Barnsley. Antes de ela morrer ia lá muitas vezes e essas
visitas estiveram na origem de muitas histórias. Esta é uma
delas.


Hoje é segunda-feira, pelo que lá deve vir outra vez o
arroz-doce. Não é tanto o facto de se preocuparem com os
nossos dentes, aqui em Meadowbank House, mas a habitual
falta de imaginação. Como eu dizia a Claire no outro
dia, há uma infinidade de coisas que podemos comer sem
termos de mastigar. Ostras. Foie gras. Abacate com molho
vinaigrette. Morangos com natas. Leite-creme com baunilha
e noz-moscada. Porquê então esta insistência nos pudins
moles e na carne pastosa? Claire – uma loura mal-humorada,
sempre a mascar pastilha elástica – ficou a olhar para
mim como se eu tivesse enlouquecido. Na opinião delas, os
pratos extravagantes desarranjam o estômago e Deus nos
livre de estimular em demasia as papilas gustativas que nos
restam. Vi Hope arreganhar um sorriso ao meter na boca
a última garfada de torta e percebi que tinha ouvido o que
eu disse. Hope pode ser cega mas não é nenhuma pateta.
Faith e Hope. Fé e Esperança. Com uns nomes como os
nossos, podíamos ser irmãs. (...)

Foi assim que ocupei os meus tempos livres do passado fim de semana, entre os contos fantásticos da Joanne Harris, repletos de imaginação!

Podem ler aqui no blog da Cenourita.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Verão das nossas vidas

O Verão foi intenso, de temperaturas elevadas demais para o meu gosto, mas já lá vai! O Verão das Nossas Vidas esteve (re)pousado imenso tempo na minha mesinha de cabeceira (isto têm-se tornado num hábito... grrrrr para mim), um dia abria e lia uma página, outro abria e lia meia duzia de linhas, noutro dia abria e conseguia ler um capítulo, mas... o sono apertava e o livro acabava caído sobre os lençóis quando não era mesmo no chão.

- Não gosto nada disto!
- Esta não sou eu!
- Mas que raio... eu sempre fui de pegar num livro e lê-lo de uma assentada!

Não há hipótese! Se ando absorvida com coisas que me consomem, falha-me a concentração para a leitura! Falta-me a vontade! Escasseia-se-me o espaço que necessito! Retirei o marcador ainda nas primeiras páginas, no ínicio da história. Deixei que o livro esperasse por mim, por um ataque meu, voraz de consumição de letras e palavras que se combinassem com a minha vontade de as absorver sem que nada nem ninguém me interrompesse o prazer de viver a história como se fizesse parte dela.

No passado fim de semana, abri-o, na primeira página e só descansei quando cheguei à ultima.

Deixo-vos a sinopse...

Capri, uma ilha lendária, mergulhada em sabedoria e mistérios seculares… Uma mulher que aprende finalmente a confiar na vida e no amor… Mãe e filha, separadas durante anos, à procura de uma forma de enfrentarem juntas o futuro…

Há dez anos, Lyra Davis deixou para trás as pessoas que mais amava, incapaz de reconciliar as expectativas da família com as aspirações do seu próprio coração. Agora vive tranquilamente no meio de uma comunidade de expatriados em Capri, aprendendo devagar, com cuidado e pela primeira vez, a viver em pleno, desabrochando graças à amizade de um homem único que reconhece nela a sua alma gémea.

Em Newport, Rhode Island, Pell Davis está preparada para assumir o seu lugar entre a elite local. Porém, tanto ela como a irmã mais nova, Lucy, ainda suspiram pela mãe que as abandonou quando eram crianças, para serem criadas pelo pai que as adorava. Pell acha que conhece os motivos da sua mãe, que julgava poder amá-las melhor se partisse. Mas agora, com o pai morto, Pell decide atravessar o oceano para encontrar a mãe de quem se recorda e as verdades escondidas que Lyra nunca fora capaz de contar…

Sentimental e inesquecível, O Verão das Nossa Vidas revela como um romance improvável dá nova forma ao significado do amor e uma família resiste ao reavivar de memórias para encontrar um novo caminho.

... e só posso dizer duas coisas:

- Adorei! - a escrita, os detalhes, a descrição dos locais.
- Recomendo! - um romance sim, daqueles em que retiramos sempre algo de bom e em que nos "encontramos no papel" de alguns personagens.

Podem ler aqui no blog da Cenourita.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desfigurada


Retrata a história da vida real de uma menina nascida na Arábia Saudita e, que à força e segundo as leis da sociedade do Islão foi literalmente obrigada a se tornar mulher. Lutou contra tudo o que lhe era imposto mas mesmo assim não conseguiu de todo fugir das obrigações de um primeiro casamento negociado, festejado com toda a tradição e riqueza que se impunha e duramente vivido até à altura em que é repudiada pelo marido a devolvida aos pais. Para se ocupar e minimizar a dor da vergonha, decide estudar, com uma filha nos braços e o grande apoio da mãe.

O curso de Radiologia não lhe despertava interesse, mas o convívio com outras alunas e o incontornável desejo de tornar a sociedade do seu país receptiva à aceitação da mulher com algum nivel de emancipação, de deixar de ser vista como uma sombra do pai ou do marido, de ser considerada nula em qualquer função excepto a de esposa e mãe, levou-a a conseguir obter algum êxito. Até que, pela mão de um vizinho e amigo chega a repórter de televisão onde se torna numa estrela na apresentação de um programa popular.

Novo casamento, um marido doentiamente ciumento, e cenas de violência extrema desabam em cima dela. Completamente proíbida de comunicar com alguém, fechada em casa e da profissão que abraçara afastada, certo dia é violentamente espancada e abandonada à porta de um hospital. Ficara desfigurada e a obra de reconstituição da sua face fora longa e dolorosa, mas Rania encheu-se de força e coragem, a sua imagem correu o mundo e auxiliada por pessoas importantes dessa mesma sociedade e outras noutros países, leva para a frente uma dura e longa batalha pela defesa dos direitos das mulheres.

É um excelente livro autobiográfico, dotado de muita coragem e inteligência, com uma mensagem estrondosamente importante e uma grande porta que se abre à alteração das leis fundamentalistas dos países islâmicos.

Não vou deixar aqui nenhum trecho, julgo que este resumo remete bem para o tema em questão e recomendo a leitura deste livro.

Aproveito para deixar aqui uma nota extra. À medida que ia avançando na leitura, vinha-me à ideia tudo o que tenho lido pelos nossos jornais. De há já muito tempo para cá, só se lêem desgraças, maridos que matam mulheres, namorados que matam namoradas e vice versa... violência extrema a que não estávamos habituados na nossa sociedade e, agora parece ser o mais comum... é assunto todos os dias... estas situações estão a tornar-se desmesuradamente constantes e para mim, tal como certamente para todos vós que me lêem, é chocante, monstruoso!

Deixo aqui algumas questões:
- Porquê?

- O que se passa com a nossa sociedade?

- Deixou de existir amor pelo próximo? Ou será o amor próprio que está em decadência?

- Será excesso de notícia que acaba por se transformar em publicidade com preço a pagar por quem não merece?

Podem ler aqui no blog da Cenourita.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Não há famílias perfeitas

É o segundo livro que leio da Psicóloga Clínica, Marta Gautier. Uma sucessão de crónicas de episódios relatados por mães e pais que lidam dificilmente com a realidade de formar e fazer crescer as suas famílias. Mulheres, com as mais variadas vidas profissionais, donas de casa, esposas e mães dos dias de hoje, que por falta de adptação, cansaço, tempo escasso se vêm num terrível drama com a missão de cumprir na perfeição todos os objectivos, onde o epicentro deveria ser a família.
O excelente prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, sobre o que é ser Mulher e Mãe foi o que mais me encantou neste livro. Não sei se já o disse aqui, mas julgo que sim, sou uma Super Admiradora deste Homem, da sua cultura, do seu modo de estar na vida, das suas ideias, do seu caracter, do seu humor... Um verdadeiro Professor!

"Juro ter os meus filhos penteados, limpos, bem vestidos, unhas cortadas, vacinas a tempo. Juro brincar com eles, ser uma mãe divertida, não andar em cima deles, ter vida própria. Juro garantir que aprendem e fazem os trabalhos de casa. Juro esclarecer dúvidas, nunca ir buscá-los depois das seis, dar recados na escola...

(...)

Juro não gritar, não lhes bater, não perder a cabeça, ir a sítios giros, estar atenta ás companhias...

(...)

Juro ter a casa arrumada, a cheirar a limpo, aquecida, moderna, com design, velas de cheiro, centro de mesa, plantas...

(...)

Juro ser sexy, gira, estar sempre gira, ter um rabo brasileiro, fazer sexo, comprar algemas. juro ser companheira do meu marido, ser jovem para o meu marido...

(...)

Juro ser feliz, ter graça, inovar, sair com amigos, ler, ser culta, esperta, rápida, solidária, bem-disposta, optimista, interessante.

Juro solenemente."

Ao lerem este livro, dão-se conta de que de facto não Há Famílias Perfeitas! Não há famílias normais! A perfeição e a normalidade nas famílias é tão só uma utopia, pois cada caso é um caso, cada vida é uma vida e cada família é uma família.

A autora remete-se à ausência de dicas ou quaisquer tipo de lições, provavelmente isso faria com que as famílias deixassem cada vez mais de ser o que são e, se tentassem reger por padrões, conceitos e regras impostas ao invés de por elas e em união ultrapassarem os mitos e as realidades das suas vidas.

Gostei de ler, revi-me nalgumas passagens em tempos que já lá vão. Não necessitei de qualquer orientação por parte de um profissional daquilo que tão complexo parece ser a psicologia, tornei-me sim, numa psicóloga de família! E como todos os dias aprendemos algo de novo, também aprendi com os relatos que li!

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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Um homem com sorte

Nicholas Sparks, consagrado internacionalmente como um dos maiores autores de ficção americana, excelente romancista e por mim muito apreciado, merece hoje aqui destaque com o ultimo livro que li dele.
"Um Homem com Sorte"
Deixo-vos aqui um breve resumo e recomendo muito este livro!

“Durante a maior parte da sua vida, Logan Thibault foi um homem que em tudo se podia considerar comum. Porém, nada de comum havia naquilo que estava prestes a acontecer-lhe. Quando encontra uma fotografia de uma mulher durante a guerra do Iraque, Logan Thibault passa, inexplicavelmente, a ser um homem com a sorte do seu lado, que sobrevive, sem ferimentos graves, a situações de indescritível perigo. A fotografia, que nunca ninguém chegou a reclamar, começa a ser encarada como um talismã e, de regresso aos EUA, Thibault não consegue deixar de pensar na mulher que lhe salvou a vida. Decidido a encontrá-la, percorre o país à sua procura, mas, assim que a encontra, o desenrolar dos acontecimentos foge rapidamente ao seu controlo, e o segredo que transporta consigo poderá custar-lhe tudo aquilo que lhe é querido. "

Das suas obras editadas em Portugal tenho e já li tudo, e adoro! A simplicidade da linguagem, a descrição ao pormenor que nos leva quase a entrar "em cena", o estilo de romance que tem tanto a ver com o mais comum dos mortais, a sensibilidade que nos toca fundo a cada desenrolar de situação da história. Ao ler cada livro dele, sinto-me numa espécie de mundo diferente, um mundo onde existe o verdadeiro romantismo... amor, carinho, amizade. Tão depressa me escorrem as lágrimas face abaixo como quase me perco numa alegria infindável. É como viver um sonho e acreditar que basta desejar muito, que ele acontece.

Só tenho um adjectivo para o classificar como pessoa e autor, FANTÁSTICO!

Podem ler aqui no blog da Cenourita.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Lili la Tigresse

Perdi a conta aos meses que este livro "dormiu" sobre a minha mesa de cabeceira, as vezes que o meti dentro da pasta de trabalho e o levei comigo para aproveitar momentos de espera, as viagens de carro para algures mais longe daqui, os passeios do quarto para a sala e vice versa... Conseguia ler quatro ou cinco páginas, fechava-o para o voltar a abrir dias depois. Tentava-me a abri-lo a cada noite, ao deitar, mas o efeito do bendito Xanax XR impedia-me de seguir a leitura. O sono chegava veloz e vigoroso e o pobre livro acabava por cair... abandonado no tapete, ao lado da cama...

- Cenourita Maria... tu que sempre, toda a vida e mais seis meses, devoraste livros como petiscos que te enchem a alma... e desde o aparecimento daquela maldita doença da panela, não consegues pegar na leitura e levá-la até ao desfecho da história ao longo de um período razoável??? - em coro, todos os livros que esperam na prateleira da estante, ansiosa e pacientemente, pelo seu momento de glória...

Até que, chegou o dia em peguei nele, retirei-lhe o marcador, recomecei a leitura desde a primeira página e o devorei... que nem uma leoa faminta de alimento com substância!



"Tiro a tampa do frasco de cristal e deito o conteúdo dentro da banheira, que se vai enchendo devagar. Através da transparência da água, o roxo escuro dos sais cristalinos torna-se lilás pálido. Os elementos decompõe-se e recompõem-se de novo. Tranparência e cor. Fluxo e extase.

(...)

Aprisiono a barriga e os seios num soutien e numas cuecas pretas, enfio os braços nas mangas de um vestido de veludo cujo colorido roxo escuro se anima sob a luz, estico-o nos joelhos e no traseiro, viro-me para cá e para lá em frente do espelho e subitamente fico cheia de satisfação - algo na forma como o vestido cai sobre o corpo, esconde o seu defeito e torna-o protegido, forte e até agressivo. Que atrai a atenção e inspira respeito.

(...)

Os segredos de Ninush são segredos meus. O meu compromisso para com ela e os seus segredos é absoluto. Tal e qual como naquele voo em que nos conhecemos, o meu anfitrião e eu não temos agora o menor problema em encontrar assuntos de conversa e sobrevoá-los, encantados de nos escutarmos um ao outro, de vermos o nosso próprio reflexo nos olhos do outro.

(...)

O tigre vira-se para ir atrás delas, mas de repente percebe, pára, crava os olhos de limão transparentes nas visitas e não se mexe. O lugar dele é aqui. Esta é a sua casa. Coitada da Micaela, coitados de todos os amantes, sejam eles quais forem! A barriga do desejo nunca se saciará, mas que definida e terrível se torna a fome com a aparição do objecto que a desperta.

*

O tigre é um animal em vias de extinção.

*

(...)

Não há passado nem futuro, esperança ou medo. A viagem que temos diante de nós é longa e não é certo que algum dia cheguemos ao nosso destino."

( ...)

A leitura flui com o encanto da escrita de Alona Kimhi e a história mágica que o livro encerra. Um romance excêntrico, louco, inquietante, divertido, delirante...

Adorei e Recomendo!

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domingo, 29 de março de 2009

Dewey - O gato que comoveu o mundo


Aquando da aquisição do livro, o que me chamou a atenção foi a capa e o próprio título... eu que sou uma apaixonada por gatos jamais poderia passar ao lado dele sem lhe pegar, folhear e dar uma espreitadela na diagonal pelo seu interior. Peguei nele e a etiqueta colada na capa "Hoje é dia de fazer uma surpresa ao gato" aguçou-me ainda mais a vontade de o trazer comigo e de devorar página a página num foguete... Afinal é a história de um gato, eu tenho dois e já tive nem sei bem quantos...

É uma leitura bastante leve, suave mesmo, em que me revi nalguns episódios passados com os gatos da minha vida, a personalidade, os hábitos, as brincadeiras e traquinices, o conforto e companhia que nos dão, a todos nós, donos dedicados. Há quem diga que não está disposto a partilhar o seu lar com um felino, porque dá trabalho, porque dá despesa, porque largam pelos, porque isto e porque aquilo... eu então acho que nada se tem ou se conserva sem "trabalho" e no fundo não dá esse trabalho a que muitos se referem, talvez porque gosto e tudo o que gosto é para mim um prazer. E, depois há a compensação que só quem tem e gosta destes bichinhos consegue sentir. Ter e estimar um gato é ter mais um membro na família!

Esta é uma história real da vida de um gato, Dewey, encontrado na caixa de devoluções de livros de uma biblioteca, na Biblioteca Publica de Spencer no Iowa, EUA, que aí viveu os seus mais de 19 anos, se tornou famoso na cidade e no mundo, atraíu multidões que se lhe dedicaram, que se encantaram e que acima de tudo usufruiram surpreendentemente do seu apurado sexto sentido.

Vicki Myron é a autora da história e trabalhou 25 anos na Biblioteca Pública de Spencer, 20 dos quais como directora. Bret Witter é editor e escritor. Ajudou Vicki Myron a pôr no papel a história de Dewey.

"Na segunda-feira, dia 18 de Janeiro de 1988, estava um frio de rachar no Iwoa. Na noite anterior a temperatura chegara aos vinte cinco graus negativos, isto sem levar em consideração o vento, que penetrava por baixo dos casacos e nos cortava os ossos. Estava um gelo mortal, o tipo de frio que torna a respiração quase dolorosa. O problema das terras planas, como toda a gente no Iowa sabe, é que não há nada para deter o vento.
(...)
- Ouvi um barulho.
- Que tipo de barulho?
- Na caixa de devoluções. Acho que é um bicho.
- Um quê?
- Um bicho. Acho que está um bicho dentro da caixa de devoluções.
Nessa altura ouvi também um ruído surdo por baixo da tampa metálica. Não parecia um animal. Parecia mais um velhote a tentar limpar a garganta. (...)

Os gatos são criaturas de hábitos e Dewey não demorou muito tempo a estabelecer uma rotina. Quando eu chegava à biblioteca, de manhã, ele estava à minha espera ao pé da porta. Comia um bocadinho da sua comida enquanto eu pendurava o casaco e a mala, e depois percorríamos juntos a biblioteca (...) Assim, pelas minhas costas, Dewey dirigiu-se aos outros funcionários. Primeiro atacou Sharon, saltando-lhe para a secretária e roçando-se np braço dela. Ganhara o hábito de se sentar na secretária de Sharon enquanto ela almoçava, e achava que ela parecia pessoa de apreciar uma boa refeição. (...)

A menina abanou o rato em frente dos olhos sonolentos de Dewey, para lhe chamar a atenção. Depois, delicadamente, atirou-o a alguma distância. Assim que o boneco tocou no chão, Dewey atirou-se a ele. Ele perseguiu aquele brinquedo, atirou-se ao ar, empurrou-o com as patas. a menina ria-se deliciada. Dewey nunca mais brincou com aquele ratinho, mas, enquanto a menina lá esteve adorou-o. Dedicou-lhe todas as suas energias. E a menina erradiava alegria. Pura e simplesmente, brilhava. Viajara centenas de quilómetros para ver um gato e não ficou desapontada. Porque é que eu ainda me preocupava com Dewey? Ele cumpria sempre. (...)"


Sem dúvida uma história digna de se ler! Recomendo!

Podem ler aqui no blog da Cenourita.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

«Equador»

Por iniciativa da Claudia do blog Eu crio a minha vida, foi criada já há algum tempo a Academia dos Livros. Fui convidada a participar e logo apoiei a ideia e disse que sim, que contasse comigo.
Só agora vou contribuir com a minha primeira participação, mas nunca é tarde (justifico a mim própria), isto porque tenho andado sem me conseguir concentrar na leitura, eu que sou uma leitora compulsiva, devoro livros... nem parece coisa da minha pessoa, andar um livro na mesa de cabeceira a apanhar pó há meses...

Desde que me conheço e que aprendi a ler, um livro foi sempre companhia habitual para onde quer que fosse, onde quer que estivesse. Li tudo o que havia de livros infantis e depois na adolescência, ia à biblioteca e trazia três livros de cada vez, tinha quinze dias para os entregar, três ou quatro dias depois lá estava eu de novo a entregar aqueles e buscar outros e dizia a bibliotecária que tinha cara de intelectual e falava com as pessoas sem tirar os olhos do jornal "Oh menina!!! Já??? Deixe aí em cima e vá lá e escolha" e que poupadinha ela era nas palavras...

Em casa, tinha também muitos livros, uns que recebia de presente, outros que pedia ao papá para comprar, outros que comprava com os escuditos que as avós iam dando... Fazia colecções que ainda andam lá por casa da mami e trocava com os amigos e amigas... Enfim... velhos tempos que já lá vão e que tantas saudades deixam...

Banda desenhada é a única coisa que não consigo nem nunca consegui ler... não me entusiasma, não acho piada.

EQUADOR

É verdade, este ícone da literatura portuguesa do séc. XXI escrito por um jornalista/escritor/comentador televisivo que todos nós bem conhecemos, Miguel Sousa Tavares, veio parar à minha estante em 2004, comecei a lê-lo mas porque na altura lia dois e três livros ao mesmo tempo (andava um na pasta de trabalho, outro na mesa de cabeceira, outro em cima da secretária...) acabei por o encostar à box porque era um bocado pesado e ali foi ficando à espera de melhores dias. Lá o tirei da box mas o que é certo é que continuou descansadinho na mesinha de cabeceira, até que comecei a "devorá-lo" e agora ando "cega" para chegar ao fim.



É uma história fascinante que se desenrola numa antiga colónia portuguesa, S. Tomé e Príncipe, com inicio em Portugal e passagem pela India. Inspirado num período conturbado da história portuguesa no início do séc. XX e ultimos tempos da monarquia. Retrata essencialmente a politica de governação daquele território outrora português, o trabalho dos escravos nas roças e a discrepância entre nobres, ricos e governantes e, pobres, escravos e tiranos.

..."Como de costume, Luis Bernardo mandara servir o jantar na copa e não na sala de jantar, que lhe continuava a parecer um bocado grande, desagradável e formal, com os seus pesados armários de madeira indo-portugueses, que ele detestava particularmente. Além disso, a copa permitia-lhes abrir de par em par as portas que davam para o terraço, prolongando a noite e o jardim para dentro de casa."

Como eu o compreendo... as situações formais tornam tudo tão impessoal... e nada melhor que uma bela vista para o jardim.

"E estava uma noite particularmente bonita, de lua cheia e vento quieto, com um calor flutuante que trazia consigo um perfume a maresia e a flores cujo cheiro ele não sabia identificar, mas que Ann distinguia em pormenor."

Só de imaginar o ambiente, apetecia-me lá estar!

"Justificando-se com o acrescento de trabalho, ele indicara ao Sebastião (diplomáticamente, para não ofender o seu brio), que se fizesse coadjuvar pela Doroteia, no serviço à mesa. Era uma provocaçãozinha ao João, que ficava fascinado com os movimentos ondulantes e silenciosos, com o sorriso de dentes brancos e olhos negros com que a Doroteia evoluía à volta da mesa. Mesmo de pé, circulando e ajudando a servir à mesa silenciosamente, ela era a mulher que faltava ao grupo e a verdade é que a sua presença não era indiferente a qualquer um dos homens ali presentes. Luís Bernardo saboreava com verdadeira volúpia o efeito que a Doroteia causava. Apetecia-lhe passar-lhe a mão pelas ancas, quando ela lhe vinha mudar o prato, ter um gesto que indicasse aos outros que era ele o proprietário e usufrutuário daquela pantera sedosa, talhada em ébano, em marfim e em lânguidas gotas de suor. Por uma vez, estivera à beira de consumar o gesto irreflectido, quando reparou que, sentada à sua direita, Ann observava a cena com aquela atenção instintiva que as mulheres têm para essas ocasiões. E quedou-se, de mão suspensa no ar, e corando, como um menino pequeno apanhado na iminência de uma flagrante asneira."

Ai o malandro... Pois, homens... não podem ver um rabo de saia... eheheh

"A Sinhá tinha feito a sua extraordinária sopa de peixe, que não conhecia rival nas ilhas, seguida de um assado de porco do mato enrolado em banana-maçã, que lhe dava um gosto requintado e imaginativo, digno de um chef francês. Um pudim de côco e um sorbet de manga rematavam a refeição, a propósito da qual e da abundante dose de piri piri da sopa da Sinhá, David comentou que nunca tinha percebido por que é que era justamente nos climas mais quentes que se usava mais picante na comida."

Bons garfos sim senhor... não se tratavam nada mal!

[transcrito das páginas 306 e 307 e comentários de Cenourita]

Recomendo a leitura desta obra em que história e ficção se entrelaçam na perfeição.


Pode ler aqui no blog da Cenourita.