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sábado, 4 de dezembro de 2010

Poemas de Victor Hugo


Nos dias mais cinzentos e frios deste Outono, um chá a fumegar, um biscoito e um livro com alguns poemas de Victor Hugo. É a sugestão que vos deixo!

Fábula ou História.

Um dia, magro e sentindo um real desfastio,
Um macaco com a pele de um tigre se vestiu.
O tigre fora malvado, ele tornou-se atroz
Ele tinha assumido o direito de ser feroz.
Arreganhava os dentes, gritando: eu serei
O herói dos matagais, da noite o temível rei!
Como malfeitor dos bosques, emboscado nos espinhos,
De horror, morte e rapinas, escureceu os caminhos,
Degolou os viajantes e devastou a floresta,
Fez tudo o que faz aquela pele funesta.
Vivia no seu antro, no meio da voragem.
Todos, vendo-lhe a pele, criam na personagem.
Gritava e rugia como as feras danadas:
Olhem, a minha caverna está cheia de ossadas;
Olhem para mim, sou um tigre! Tudo treme,
Diante de mim, tudo recua e emigra; tudo freme!
Temiam-no os animais, fugindo com grandes passos.
Um domador apareceu e tomando-o nos braços,
Rasgou-lhe a pele, como se rasga um farrapo,
E, pondo a nu o herói, disse: Não passas de um macaco!

Jersey, Setembro de 1852


As minhas duas filhas

No fresco claro-escuro da bela tarde que tomba,
Uma me lembra um cisne, e a outra uma pomba,
Muito belas, muito alegres, ó suavidade!
Vede, a irmã mais velha e a de menos idade
Sentadas junto ao jardim; e para as duas olhando,
Um ramo de cravos brancos, com os caules pousando
Num vaso de mármore, agitado pelo vento,
Sobre elas se inclina, imóvel e atento,
E tremendo na sombra, parece, assim curvado,
Um voo de borboletas em êxtase parado.

La terrasse, perto de Enghien, Junho de 1842


Unidade

Por cima do horizonte de colinas sem cor,
O sol, essa flor de infinito esplendor,
Se inclinava sobre a terra à hora do poente;
Uma humilde margarida, no campo florescente,
Sobre um muro cinzento, entre a aveia a vibrar,
Branca, sua cândida auréola faz desabrochar;
E a pequenina flor, sobre o seu velho muro,
Fixamente olhava, no eterno azul tão puro,
O grande astro que a luz imortal envia.
- E eu, eu também tenho raios! - lhe dizia.

Granville, Julho de 1836



In Poemas, Selecção e tradução de Manuela Parreira da Silva da Assírio & Alvim

domingo, 13 de junho de 2010

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

Poderia acontecer um amor assim? De um gato por uma andorinha?
Jorge Amado escreveu esta história de amor para o seu filho João Jorge, em 1948, quando este completou um ano de idade. A história perdeu-se, e só foi editada em 1978, depois do seu filho a ter recuperado e ter levado a Carybé para a ilustrar.

Foi-me oferecido já eu era adulta, li com um sorriso no rosto e com lágrimas nos olhos. As histórias de amor podem doer, muitas vezes doem. Nada é perfeito, nem o amor nem as histórias de amor! Mas nada na vida é impossível, e o amor rompe muitas vezes a barreira do improvável e do impossível. Esta história de amor não é um conto de fadas e isso é que a torna ainda mais significativa. Fiquem a saber que pode mesmo morrer-se de amor!

Muitos sabem do meu amor aos animais, muitos sabem o sofrimento que se leva na alma quando eles estão doentes ou partem da nossa companhia. Este livro dedico-o ao Matias, gato que também é malhado, o meu companheiro de todos os dias, por me fazer sorrir, por me mostrar todos os dias que a saúde é mais importante que tudo o resto, e que os animais podem ser muito melhores que as pessoas, até nas histórias de amor conseguem ser mais fiéis. E isto não é amargura, é amor incondicional :)

Começa assim:

"O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um gato maltês casar
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom gato e dona Andorinha."

Não vou contar a história de amor, seria um crime fazê-lo. Merece ser lida, é um livro pequeno, barato e, sem as ilustrações de Carybé, não tem metade da graça :) Se puderem, leiam e saboreiem esta história de amor.
Da primeira vez que o li, sublinhei algumas frases que deixo aqui:

"Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do escuro. A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas."

"No ramo de uma árvore a Andorinha Sinhá fitava o Gato Malhado e sorria-lhe. Somente ela não havia fugido. (...) Em torno era a Primavera, sonho de um poeta."

"Ela ria para todos, com todos se dando, não amava nenhum."

"É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer ele desperta, com a chegada da Primavera ou mesmo no rigor do Inverno."

" (...) temos olhos de ver e olhos de não ver, depende do estado do coração de cada um."

"É sempre rápido o tempo da felicidade. O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele se prolongue, seja demorado e lento, ele foge às pressas, nem se sente o correr das horas. Quando queremos que ele voe mais depressa que o pensamento, porque sofremos, porque vivemos um tempo mau, ele escoa moroso, longo é o desfilar das horas."

"A poesia não está somente nos versos, por vezes ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras."

Jorge Amado, O gato Malhado e a Andorinha Sinhá - uma história de amor.

Podem ler aqui no blog dos Só Possuídos.

sábado, 25 de julho de 2009

Cuecas na Cozinha - Escola de maridos & afins


Pode não ser literatura pura e dura, mas tem algo a ensinar de uma forma divertida e clara. Uma sugestão de leitura para quem é interessado em culinária e/ou para quem quer começar a interessar-se por este tema.

Conheci o blog do Alessander quando ele estava a comemorar o 1º ano de aniversário do Cuecas na Cozinha. Para a comemoração do 2º ano ele e a esposa, Cris, resolveram publicar um livro com o mesmo nome, onde incluem instruções, receitas e dicas acerca desse universo de alquimia que é uma cozinha. Para não falar das fotos lindíssimas da autoria da Cris :)

Segundo o Alessander, o livro "É um convite para quem pretende se aventurar pela deliciosa arte de receber em volta do fogão aqueles que realmente fazem diferença nessa vida."
Por isso, escreveu-o de forma ligeira, divertida e próxima, como se estivesse na presença dos leitores ou como se os leitores estivessem na cozinha dele.

No minímo é um título interessante, especialmente para quem vive em Portugal porque cá, quem usa cuecas, são as mulheres he he
Quer dizer, do jeito que o país está, tudo usa tanga ou fio dental, mas isso é outra história.

No fundo, o livro é um incentivo aos homens para que entrem na cozinha e façam um agrado às mulheres. Quem não gostava de ver o marido de avental (algumas até mesmo só de avental sem nada por baixo, confessem!!! he he) a preparar uma comidinha para nós, mulheres? Porque se os homens se conquistam pelo estômago, as mulheres não são muito diferentes. A carne é fraca e a gula é grande :) Além do mais, podem apanhar o gosto pela arte de cozinhar e descobrir um talento oculto que viu a luz do dia.

Olhem que, para quem tem mulheres preocupadas com a linha, também tem receitinhas leves e saborosas. Isso não é desculpa!

Outra coisa: há alguma coisa melhor que passar o serão com os amigos a partilhar estórias e boa comida? Especialmente quando essa comida é feita pelas nossas próprias mãos? Pode até haver mas não sabe tão bem quanto isso!

Eu li o livro de fio a pavio em pouco tempo e percebi que nele tem amizade, paixão, entrega... tanto pela culinária como pelas pessoas que fazem parte da vida do autor. Porque tal como ele aconselha: "Não perca o seu tempo com quem não vale a pena."
O melhor é alimentar as amizades, as parcerias, o companheirismo, as partilhas. Alimentar a alma mas também o corpo, porque saco vazio não se aguenta de pé :)

Eu já fiz uma receita retirada do livro dele e tenho outras para experimentar.
Existe uma divisão no livro que consta de pratos para curtir a dois e pratos para dividir com os amigos mas isso não é rigoroso. Na cozinha, tudo é possível e passível de ser dividido a dois ou dividido por um batalhão. O que é preciso é ter vontade!

Para mais informações acerca do livro, para conhecerem o Alessander e o blog dele recheado de receitas e fotos fantásticas, é só acessar aqui.

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Tigre Branco


Há cerca de três semanas fui contactada pela Editorial Presença que, simpaticamente perguntou se a Academia estava interessada na recepção de um exemplar do livro que venceu o Man Booker Prize 2008 e que foi recentemente editado em Portugal, para posterior crítica literária.
Respondi afirmativamente e aguardei novas indicações. Entretanto, falei com a Cláudia M. para decidir quem leria o livro. Acabei por lê-lo eu. Recebi-o, faz hoje uma semana, e já o li!

Este é o romance de estreia de Aravind Adiga, nascido na Índia mas criado na Austrália e nos Estados Unidos. Só tendo algum conhecimento acerca do país, da sociedade, das pessoas, se tem bases e alicerces para escrever um livro tão transparente, revelador e envolvente.

Um livro que, no fundo, é carregado de seriedade mas cuja linguagem irónica e bem humorada o transformam num romance distinto.

Hoje em dia, a Índia, atrai o Ocidente como nunca o havia feito. O vencedor do Óscar de melhor filme "Quem quer ser milionário" retratou muito bem algumas vertentes desta sociedade: a pobreza extrema, a luta para conseguir comer e ter um emprego, a corrupção, as tradições, os fossos entre as classes sociais e tantas outras coisas que fazem parte de todos os outros países do mundo.

Não me coíbo de dizer que "O Tigre Branco" daria um grande filme! Sem dúvida, mereceu o Man Booker Prize.

O livro baseia-se na escrita de cartas de um pobre criado indiano ao Primeiro-Ministro chinês. Nelas, ele conta o seu percurso desde a infância até aos dias de hoje.
Fá-lo com toda a naturalidade do mundo, na esperança de explicar que a Índia é mais e, muitas vezes, menos do que aquilo que julgamos.


À medida que fui lendo fui anotando passagens que achei interessantes. Deixo aqui algumas, uma das quais faz alusão ao título do livro mas não revelo tudo:

«(...) A Índia é formada por dois países num só: uma Índia da luz, e uma Índia da Escuridão.»


«Sr. Jiabao, eu aconselho-o a não mergulhar no Ganges, a menos que queira ficar com a boca cheia de fezes, de palha, de bocados encharcados de cadáveres humanos, de carne putrefacta de búfalo, para além de sete tipos diferentes de ácidos industriais.»

«O inspector apontou-me directamente a bengala. - Tu, jovem, és um fulano inteligente, honesto e vivaz entre este magote de rufias e imbecis. Em qualquer selva, qual é o animal mais raro... a criatura que só aparece uma única vez em cada geração?»

«Resumindo - nos bons velhos tempos, havia mil castas e destinos na Índia. Hoje em dia, existem apenas duas castas: Homens de Barriga Grande e Homens de Barriga Pequena.
E apenas dois destinos: comer - ou ser comido.»

«Era verdade, ela fazia mesmo lembrar uma actriz que eu vira algures. Como a actriz se chamava é que não fazia ideia. Foi só quando fui para Bangalore e aprendi a aceder à Internet (em apenas duas rápidas sessões, note-se bem!) que encontrei a fotografia e o nome dela no Google.
Kim Basinger.»

«Os sonhos dos ricos e os sonhos dos pobres - nunca coincidem, pois não?
Está a ver , os pobres toda a vida sonham em ter o suficiente para comer e em ficar parecidos com os ricos. E os ricos, com que é que sonham?

Com perder peso e ficar parecidos com os pobres.»
«- Balram, põe a música do Sting outra vez a tocar. É a música que melhor se adequa aos engarrafamentos.»

Há uma passagem que descreve muito bem o percurso deste livro:

«(...) - como é criado, como supera os obstáculos, como se mantém orientado para os seus verdadeiros objectivos e como é recompensado com a medalha de ouro do êxito.»


Este é o primeiro livro que pertence a todos os sócios da Academia.
Espero que, um dia, possamos todos assiná-lo!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Operário em Construção

Conhecem Vinicius?
Ele vive nas músicas e nas palavras que deixou. Nunca ninguém cantou o amor como ele! Nas paixões, desilusões, angústias e alegrias. Vinicius é um artista completo, ele usa as palavras e a música como forma de demonstrar o que lhe vai na alma. As palavras destilam sentimentos, promovem sensações, provocam pensamentos!
Vinicius é um vício bom, seja na música ou na poesia. Deleitem-se com as palavras e com os vídeos. Ficam aqui alguns dos meus sonetos favoritos e o poema "O Operário em Construção" que dá nome ao livro.

Soneto de Separação






De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.



Soneto do amor total




Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afin, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, como grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo, de repente
Hei-de morrer de amar mais do que pude.


O Operário em Construção 1ª parte





O Operário em Construção 2ª parte







Era ele que erguia as casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.


De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas se fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.


Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela casa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele um humilde operário
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer sua profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia nada no mundo
Coisa que fosse mais bela
Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.


E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.
E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:
Notou que a sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.
E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
«... Convençam-no» do contrário
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!


Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.


Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão


Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Espuma dos Dias


Nunca gostei de perder tempo. Na escola, os tempos livres eram passados a ler. Sempre que não tinha os amigos por perto, tinha um livro. Ir ao médico e ter que esperar sem fazer nada, viajar de comboio, esperar por alguém, sempre foi um tempo preenchido de leitura.

Boris Vian foi escritor, engenheiro, músico, poeta, cantor, actor, cronista e morreu prematuramente aos 39 anos numa sala de cinema enquanto assistia à adaptação para filme do seu livro "Hei-de cuspir-vos nos túmulos".

Para conhecer o homem também é preciso ouvi-lo. Deixo-vos um vídeo de uma música que me diz muito. Porque Vian via o absurdo da guerra e o destaque do capitalismo, fez o favor de denunciar em canção a sua visão do mundo e em particular da invasão da Argélia.




"Le Déserteur"


Não deixem de ler Vian. Quem conhece o "Arranca corações", "As formigas", "O Outono em Pequim", "Erva vermelha", "Elas não dão por ela", "Morte aos feios" e "Hei-de cuspir-vos nos túmulos" (estes três últimos sob pseudónimo de Vernon Sullivan), sabe que são leituras simplesmente fantásticas, que nos transportam para um mundo novo :) De todos estes falta-me ler "Erva Vermelha" e "Hei-de cuspir-vos nos túmulos", uma falha imperdoável.

Vian escreve muito acerca do amor e das mulheres. Creio que, para ele, só é possível encontrar mulheres bonitas ou mulheres inteligentes. Nunca a fusão desses dois pormenores :)

As mulheres inteligentes são bem capazes de aceitar esta característica em Vian. Há capacidade para ultrapassar essa "falha" dele e apreciar a sua escrita sem ficar ofendida, porque a inteligência é isso mesmo. Não podemos dissociá-lo da época em que viveu.

No prefácio desta espuma Vian refere que «Só existem duas coisas: o amor de todas as maneiras, com raparigas belas, e a música de Nova Orleães ou Duke Ellington. O resto deveria desaparecer, porque o resto é feio (...)»

O suficiente para inflamar alguns espíritos, hein? Vian é um provocador e eu adoro isso, politicamente incorrecto, frontal e sempre bem disposto :)

Como já tinha referido, escolhi uma trágica história de amor. Mas é uma história sublime, em nada igual a todas as outras que já leram. Vian usa o sarcasmo, o absurdo, a ironia e o bom humor para dar asas às histórias. É isso que o distingue de muitos outros.O livro de Vian que escolhi fala de um casal de apaixonados, cujo amor é intenso mesmo depois de uma tragédia. Colin fará de tudo por Chloé, porque "as paixões saem caro". No livro são muitas as incursões gastronómicas, como poderão ler nas citações.

O título que Vian deu a este livro diz tudo de nós, deu-lhe um significado sincero acerca da vida de todos nós e de todos os seus aspectos. No original, "l'Écume des Jours" traduzido para "A espuma dos dias". Fala do que constitui a espuma de todos os dias: os amigos, os amores, a culinária (Colin tem um cozinheiro particular- Nicolas), o trabalho, os excessos, as doenças, a morte e a vida na sua complexidade. Faz uma crítica ao exagero e a tudo que dele resulta. Porque o amor em excesso também enlouquece e transforma-nos em espuma.

Deixo-vos algumas passagens que me marcaram neste livro e espero que seja o suficiente para vos levar a ler uma história de Vian. Esta foi considerada a obra mais importante de Vian e nem sempre é possível adquirir bons livros por menos de 13€, não é? Espero que sejam motivos suficientes para que leiam mais Vian :)

Colin é um rapaz abastado, tem um cozinheiro particular e um amigo chamado Chick. Tem um rato como animal de estimação e conhece Chloé. A partir daí um grande amor passa por uma grande provação e por muitas situações estranhas em cenários incríveis.

«-Este pâté de enguias é notável - disse Chick. - Quem te deu a ideia de o fazeres? -Foi o Nicolas quem teve a ideia - disse Colin. - Há (ou antes, havia) uma enguia que aparecia todos os dias, saída do cano da água fria, e ele encontrava no laboratório. -É curioso - disse Chick. - E por que é que isso acontecia? -Punha a cabeça de fora e, fazendo pressão com os dentes, esvaziava o tubo de pasta dentrífica. Como Nicolas só usa pasta americana, de ananás, isso deve tê-la tentado.»

«Pendurado na parede que ficava à frente de Colin, via-se Jesus numa grande cruz negra. Parecia satisfeito por ter sido convidado e olhava para tudo com interesse.»

Colin «Ia a correr o mais que podia, e à sua frente as pessoas inclinavam-se lentamente para cair como mecos e ficar estendidas no passeio fazendo um marulhar macio, (...). Chloé repousava, muito branca naquela cama bonita que fora das suas núpcias. Tinha os olhos abertos mas respirava mal (...). Colin, porém, não sabia o que tinha acontecido e corria, sentia medo porque não basta estarmos sempre juntos, também é preciso sentir medo, talvez tivesse sido um acidente, um automóvel que a tivesse atropelado (...).»

«-O doutor quer que ela vá para a montanha - disse Colin. - Está convencido de que o frio consegue matar essa porcaria... (...)
-Também disse que é preciso termos constantemente flores à sua volta - acrescentou Colin.- Para meterem medo à outra...»

A passagem mais admirável para mim é quando Colin arranja um emprego em que tem que semear espingardas e fazê-las crescer direitinhas com o seu calor humano. Cínico e absurdo não é? Acima de tudo, muito inteligente :)

Deixo-vos apenas algumas frases do livro. Não posso contar tudo porque não seria justo para quem quiser ler. É suposto ser apenas uma "entrada" a aguçar o apetite.

Leiam porque como Elie Wiesel diz: "O inferno é um local sem livros"

Perdoem-me o "testamento" mas Vian merece ;)
Pode ler aqui no blog da Ameixa Seca.

domingo, 3 de agosto de 2008

Desafio literário

Acalento um desejo antigo de pertencer a um clube de leitura. Gostava de reunir com um grupinho uma vez por mês para conversar acerca de livros, de autores, de frases, de interpretações, de vidas!


Vejo-me sempre numa mesa redonda com os livros no colo e uma chávena de chá a aconchegar a alma no Inverno ou uma taça de morangos no Verão.


Lembro-me de ler desde que me conheço. Vivo rodeada de livros desde muito criança. Como já tinha dito, o meu pai sempre apostou nos livros como acesso ao conhecimento, à aprendizagem e ao desenvolvimento intelectual dos filhos. Eu não me canso de lhe agradecer este pormenor.

Mas ao nível da literatura de lazer, como lhe chamo, foi o meu irmão mais velho que me abriu as portas a um mundo novo.


A minha mãe diz que, quando entrei para a escola, passado uns meses já estava em frente à televisão a tentar ler as letras que passavam. Acho que vem daí a minha incapacidade matemática :)


Quando fui operada e tive que permanecer uns dias no hospital, pedi que me levassem Banda Desenhada. Tinha 9 anos e estava sozinha num sítio arrepiante. Não sei se foi essa experiência traumatizante que me levou a não apreciar BD. Nunca mais li, passei aos livros de aventuras que lia velozmente para passar ao seguinte e por aí em diante. Quem não leu "Uma Aventura" e "O clube das chaves"? Eu li quase todos :) E a partir daí passei a outra fase. O desenvolvimento é isso mesmo, certo? Nós crescemos e os livros crescem connosco, como companheiros inseparáveis.

Li sempre muito e aprendi muito a ler.


Mas, estou a divagar... A Cláudia apresentou uma ideia fantástica e convidou-me para participar. Não sei se alguma vez lhe disse que adoro ler, mas se não disse, ela acertou em cheio. Lançou um desafio literário em que, cada uma das desafiadas tem que "falar" do livro que está a ler ou de um livro que tenham lido e que queiram recomendar. Obrigada pelo convite Cláudia ;)


Eu leio muito, tenho sempre livros ao pé de mim. Mas há sempre uns que gostamos mais que outros. Há escritores que, conhecendo o estilo, sabemos que gostamos. Eu tenho alguns que, há muitos anos, já foram eleitos como bons e favoritos: John Steinbeck, Albert Camus, Irvine Welsh, Boris Vian, Eça de Queirós, Fernando Pessoa, entre muitos outros.


Eu sou daquelas pessoas que gosta das tragédias e das surpresas até ao final. Não sou grande fã de romances choramingosos que, a meio do livro, já adivinhamos o fim. E gosto da estranheza das histórias e das personagens, dos desvios de conduta, da riqueza de carácter e da profundidade de quem participa do enredo.


Há muitos anos, quando o meu irmão se apercebeu que eu não era tão estúpida como ele imaginava e quando me viu a ler umas coisas, ofereceu-me um livro. Um livro maravilhoso e mágico. Onde podemos dar asas à imaginação e moldar os personagens como os sentimos e pensamos. Não deixa de ser um romance, é! Não deixa de ser uma bonita história de amor, é! Mas é uma tragédia de amor que exige demasiado aos protagonistas, a Colin e Chloé.


Esta é apenas a primeira parte de um post demasiado longo... Quando dei por mim tinha divagado demais. Mas não vou cortar nada do que disse. Quando a Cláudia me convidou eu sabia que esta minha paixão pelos livros levar-me-ia a um post interminável e cansativo para quem lê. Decidi fazer isto por capitulos para não vos cansar :)
Pode ler aqui no blog da Ameixa Seca.